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Pé na Tábua e Sai Correndo

Adoro os tipos que encontro quando ando de trem. Os vendedores ambulantes, com discursos que só eles são capazes de repetir, as conversas que ouço e, principalmente, os artistas que se apresentam.

Outro dia, vi uma dupla de repentistas que merece o registro por aqui. Os dois se apresentam como Pé na Tábua e Sai Correndo e começam a apresentação agradecendo a Deus pela agenda de shows lotada. “São mais de 20 vagões por dia”, afirma Pé na Tábua, o mais comunicativo dos dois.

Mal terminam os discursos de agradecimento, já têm que fazer o primeiro intervalo da apresentação. Está chegando em uma estação e se os seguranças reparem que o palco está ocupado, os espectadores vão entender melhor o porque do nome da dupla.

Passada a interrupção, eles finalmente começam para valer o show. A primeira música fala sobre a diferença entre pobres e ricos. Enquanto um come tudo que vê, o outro passa fome. Uma espectadora, talvez de mau humor pelo dia de trabalho que ainda nem começou, reclama. “Sou pobre e não passo fome.” Novamente é Pé na Tábua quem toma a palavra e se justifica. “A gente fala da pobreza de verdade, daquela lá da África, que graças a Deus a senhora não sabe o que é.”

Hora do novo intervalo. Na volta, Sai Correndo avisa que é hora de mudar de tema e já pede desculpas para as moças que se sentirem ofendidas com a próxima música. Não tinha motivo. O texto era uma ode à beleza feminina, seja como ela for – por mais que os dois deixem clara a preferência pelas gordinhas. “Na praia, ninguém dá bola pra magrela.”

Mais um intervalo. Nesse, infelizmente tenho que descer. Mal vejo a hora de conseguir novo ingresso para o show da dupla.