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Sobre corajosos e covardes

Tenho medo o tempo inteiro. E não vejo isso como um problema. Ter medo me faz mais homem. De vez em quando o medo me paralisa, é verdade. E esse é o meu maior medo: o medo do medo paralisante. Mas, mesmo quando isso acontece, me construo um pouco mais. Todo temor resulta em um novo nível. O medo vencido é um sinal de força. O medo que nos derrota é um tombo, uma fonte para novos temores que venceremos lá na frente.

Costumo dizer que corajoso não é aquele indivíduo destemido. O nome desse é idiota. Corajoso, até onde a vida me ensinou, é quem enfrenta até aquelas situações que fazem as pernas tremerem, o estômago sumir, o coração disparar e o pensamento sair do controle. Veja que a descrição do medo não está muito longe das que costumamos ler por ai sobre o amor. Medo e amor são sentimentos irmãos e costumam gerar um ao outro.

Sempre pensei muito nesse assunto. Não sou um exemplo de coragem pelos nossos padrões sociais. Quando era criança, não podia chegar perto de palhaços ou do Papai Noel. Nunca vou me esquecer da vez em que fiquei debaixo de uma mesa durante toda uma festa infantil, só porque ouvi dizer que logo chegariam uns daqueles bichos imensos ou um palhaço – não me lembro bem. Até hoje não gosto de nada disso. Não me sinto confortável na presença de gente mascarada, mas o senso de ridículo fala mais alto do que qualquer temor e não procuro mais uma mesa capaz de me esconder.

Esse não é o único medo que enfrento. Como todo mundo, passei por experiências bem piores do que estar perto de um daqueles monstruosos personagens da Disney de buffett. Enfrentei cada uma delas – mesmo que aos trancos e barrancos – e vou vencendo.

Mesmo as situações mais banais são repletas de elementos assustadores. Todos os dias penso em como será difícil se a fonte de frilas secar. Não lido bem com a ideia de não apurar uma reportagem a tempo. No campo pessoal, tenho medo de morrer solteiro. Medo de estar sendo enganado por alguém de quem gosto. Medo de decepcionar as pessoas que amo. Medo de não poder envelhecer. Mas aprendi a deixar que nenhum deles me paralise. São meus companheiros de jornada e meu combustível para que meus temores tenham como destino serem apenas temores. Sem medos, não teria planos. Não teria motivos para me mexer e superá-los.

Isso faz de mim um corajoso ou não gostar de palhaços, não poder ver um escorpião ou odiar o pouso de avião dizem mais sobre minha personalidade? Não sei. No fundo, não acredito na existência de covardes. De um jeito ou de outro, sempre encontramos formas de superar nossos temores ou aprendemos a conviver com eles.

Me lembrei de todas essas reflexões ao me deparar com esse texto de José Castello, sobre a importância do medo para quem quer escrever. Castello, com a ajuda de Mia Couto, Clarice Lispector e Jaime Ginzburg, me ajudou a entender um pouquinho mais o quanto é importante ter medo. E a me sentir muito mais confortável com meus próprios temores – de todos os tamanhos e espécies.

P.S.: Para quem quiser ver a conferência que deu origem ao texto de Mia Couto citada por José Castello, está logo abaixo. Como quase tudo que o Mia faz, vale cada segundo.

A grávida

Tinha uma lenda na família de que, a cada criança que nascesse, alguém ia morrer. Desde quando a memória se lembrava, a história ia se confirmando. Diziam os mais velhos que era assim desde sempre e que não havia problema algum em ser assim. Era o ciclo natural da vida. Descrente das coisas do outro mundo, sempre encarou tudo como uma infeliz coincidência.

É lógico que queria ter conhecido a avó que morreu no ano em que nasceu. Era triste não ter podido conviver com ela, mas era a vida. Não se sentia culpada. Por mais que dissessem o contrário, sabia que não tinha roubado a energia de ninguém para vir ao mundo. Tinha certeza de que isso era pura bobagem do pessoal das antigas.

Fazia muito tempo que não pensava nesse assunto. Com os mais velhos se despedindo deste mundo, essas histórias vão ficando cada vez mais distantes. Tudo seguia em sua mais perfeita normalidade até o dia em que descobriu que estava grávida. Na verdade, não exatamente aquele dia. Não se tocou da gravidade do assunto logo no primeiro momento. Curtiu a gravidez tranquilamente até o quarto ou quinto mês quando, sem qualquer motivo específico, se lembrou das histórias sobre os falecimentos que precediam os nascimentos. Sabia que era a mais pura de todas as bobagens, mas, dentro de si, algo a fazia acreditar.

Tinha medo do que poderia estar para acontecer. Sua vida se resumia a umas poucas pessoas queridas. Da família, então, eram pouquíssimas. O tempo, as mudanças e as brigas tinham os resumido a não mais que meia dúzia. E ela fazia questão de cada um deles a seu lado. Ainda mais neste momento. Estava carente, com medo de seu futuro de mãe solteira e precisava de todas as forças. Eles eram suas forças. Se um deles – qualquer um – tivesse que morrer, seria como ficar manca.

Estava feliz com a chegada do moleque. Sempre sonhou em ter um filho e, mesmo que aquela não fosse a maneira que tinha idealizado, estava muito próximo de realizar seu maior desejo. Apesar de toda felicidade, porém, não conseguia sorrir. A cada momento se lembrava do que estava prestes a acontecer. E sua vontade então era de correr pelo mundo, de chorar, de abraçar alguém. Nunca fez isso. Nunca contou para ninguém o que se passava pela sua cabeça naqueles momentos.

Pensou em fazer um acordo com Deus. Não tinha muitas peças na manga para negociar, mas estava disposta a qualquer coisa para não abrir mão de ninguém em sua vida. Os meses foram passando e a tensão crescendo. Qualquer resfriado da mãe ou tropeção do irmão eram motivo para desespero. Queria que fossem ao médico todo o tempo. Ninguém entendia o que se passava com ela, mas fingiam normalidade. Provavelmente eram os hormônios agindo.

Chegou ao oitavo mês com o coração na mão. Pareciam estar todos sadios, mas a morte é traiçoeira. Tudo parecia um sinal de que ela estava vindo buscar alguém. Quando chegou o dia de entrar na sala de parto, não sabia se sentia ainda mais medo ou alívio. Parecia que tudo estava sob controle. A criança nasceu. Um menino lindo e forte. Saudável como toda a família.

Numa daquelas visitas que toda a mãe recebe em casa, ficou sabendo da morte de um tio avô distante, de quem ela sequer conhecia a existência. Tentou segurar, mas tudo o que conseguia fazer era sorrir e falar baixinho: “foi isso…”