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O medo e a imaginação

Há algum tempo escrevi aqui sobre o valor e a importância do medo. Semanas atrás me deparei com um vídeo que, assim como o texto do Castello e a conferência do Mia Couto, me fez pensar no assunto. É uma apresentação do TED (sei que estou parecendo o louco do TED, mas é que as coisas lá são muito bacanas mesmo) da escritora Karen Thompson sobre as conexões entre medo e imaginação. Vale investir 11 minutinhos do seu dia nessa palestra, viu?

Como evitar que o mundo pare?

Tenho um sério problema de relacionamento com os carros. Não gosto de dirigir, não gosto do estrago que eles fazem no meio ambiente e não gosto do caos em que eles transformam as grandes cidades. Não bastasse os problemas coletivos que temos que lidar diariamente, como saúde, educação e moradia, as administrações públicas ainda se veem obrigadas a buscar soluções para uma questão que é muito mais individual do que da população como um todo.

Por diversos motivos, as cidades não comportam mais um grande número de carros. Não que eles sejam vilões absolutos, sem qualquer qualidade. O problema está em seu excesso. Não imagino e não defendo uma sociedade sem carros, mas sim uma cidade onde os métodos de transporte que atendam mais gente por vez sejam, de fato, priorizados.

Alternativas não faltam. Investir mais em metrô (desde que sem corrupção, é claro) e corredores de ônibus já se provou bastante eficiente. São Paulo mesmo tem vivido um intenso debate sobre essa questão. O problema é que ainda estamos muito contaminados por uma espécie de rivalidade entre os defensores do carro e dos ônibus.

Por mais importante que seja o transporte público, ele por si só não é a solução para todos os problemas. Em alguns momentos, o uso do carro é importante também. E nessa vertente, temos visto algumas iniciativas de empreendedores que têm contribuído para a melhoria da mobilidade urbana. Além dos aplicativos de táxi, que são um excelente incentivo para deixar o carro na garagem de vez em quando, vejo o compartilhamento de carros como uma excelente solução. A empreendedora americana Robin Chase é um grande símbolo desse caminho. Ela fundou a locadora por hora Zipcar (que inspirou a brasileira Zazcar) e depois aprofundou seu modelo, com a Buzzcar. Quem quiser conhecer um pouquinho mais sobre seu modelo de trabalho, essa palestra dela no TED é muito bacana.

Mas mais importante do que uma ou outra solução é encontrar uma forma de coordenar diversas iniciativas. O problema é muito grande para acreditarmos que haja, de fato, uma resposta única para ele. Quem chama a atenção para esse problema é uma figura improvável. Bill Ford é bisneto de Henry Ford e diretor-geral da empresa fundada por seu bisavô. Coloco meus dois pezinhos atrás quando o assunto são figuras de dentro de uma determinada indústria questionando os valores defendidos por essa mesma indústria. Apesar disso, assistindo a palestra dele no TED, feita em 2011, encontrei alguns aspectos muito bacanas. O ponto central é que o modelo vigente não se sustentará por muito tempo. Com mais e mais carros nas ruas de todo o mundo, não há obra viária que impeça um congestionamento em escala global. Há pouco tempo já vimos essa tendência mostrando a cara na China.

O resultado do crescimento em larga escala do número de carros, como muito bem lembrado por Ford, não é somente o inconveniente de perder algumas horas para ir para o trabalho ou voltar para casa. Isso vai acabar afetando a distribuição de produtos tão fundamentais quanto comida e remédios.

É lógico que desconfio e discordo de Ford em alguns aspectos fundamentais de sua fala. Para ele, por exemplo, a grande sacada será a criação de carros mais inteligentes, conectados a estradas e estacionamentos mais inteligentes. Não vejo por esse lado. Acredito muito mais na força das soluções coletivas, como o compartilhamento de carros e o transporte público, do que no investimento em tecnologia para criar carros mais espertos. Além de mais caro e de ser algo um tanto quanto “futurista”, acredito que esse sistema mais posterga do que resolve a situação. De qualquer forma, acho que as propostas do Bill Ford são importantes para o debate. O vídeo abaixo tem um resumo dessas ideias, feito por ele mesmo no TED em 2011.

P.S.: Depois que publiquei o post me deparei com a notícia de que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, apontou o aumento da gasolina como uma boa forma de subsidiar o preço da passagem de ônibus. Taí algo que já venho falando há tempos. Além disso, defendo também o aumento do IPTU para estacionamentos e o pedágio urbano na região central. Carro só para quem precisa de fato.

Os 30 não são os novos 20

Um dos primeiros textos que escrevi quando reativei esse blog foi um pequeno conto sobre uma menina de 20 e tantos anos, obrigada a lidar com esse momento de transição em sua vida. É uma das minhas coisas favoritas entre tudo o que já escrevi. A personagem nasceu de várias conversas com minhas amigas e boa parte delas veio me perguntar se era aquela menina cheia de dúvidas. Todas eram – pelo menos um pouco. Depois escrevi também sobre os conflitos internos de um rapaz da mesma idade. Aquele era eu e muitos dos meus amigos, perdidos entre os desejos de enriquecer e liderar e de continuar a vida como se ainda estivesse no primeiro ano da faculdade. Em comum, quase todos os meus amigos – homens ou mulheres – estão passando ou passaram recentemente por crises existenciais – grandes ou pequenas.

Me lembrei desses contos ao me deparar com o vídeo abaixo, de uma palestra no TED da psicóloga americana Meg Jay sobre o pessoal de 20 e poucos anos. Ela é uma especialista no assunto e diz que tem notado uma postergação constante para chegar à vida adulta. Nos iludiram, dizendo que podíamos esperar até os 30, mas conforme essa idade chega sem sinal das realizações que programamos, as coisas vão ficando complicadas. Quem está nessa fase sabe o quanto é desesperador.

A palestra ainda não foi traduzida para o português, mas no final do vídeo traduzo algumas partes que considerei mais interessantes – ou assustadoras.

[Após descrever Alex, sua primeira paciente, uma garota de vinte e poucos anos comum falando sobre sua vida amorosa] Aquele foi o momento em que eu reparei que os 30 não são os novos 20. Sim, as pessoas têm se estabelecido mais tarde do que era comum, mas isso não faz com Alex pare de se desenvolver aos 20 anos. (…) Foi quando eu reparei que esse tipo de negligência era um problema real e que teria consequências reais, não só para Alex e sua vida amorosa, mas para as carreiras, famílias e futuros do pessoal com 20 e poucos anos em todo o mundo.

(…)

Me especializei em pessoas na faixa dos 20 anos, porque eu acredito que cada um dos 50 milhões do americanos com 20 e poucos merece saber aquilo que psicólogos, sociólogos, neurologias e especilistas em fertilidade já sabem: que assumir seus 20 anos é uma das coisas mais simples – ou até mais transformativas – que você pode fazer pelo seu trabalho, vida amorosa, felicidade e talvez até pelo mundo.

(…)

Nós sabemos que 80% dos momentos mais definidores de uma vida ocorrem por volta dos 35 anos. Isso significa que 10% das decisões, experiências e aqueles momentos em que você diz “Aha!” que definem o que é sua vida acontecem quando você tem 30 e tantos anos. (…) Nós sabemos também que os primeiros 10 anos de uma carreira têm um impacto exponencial em quanto dinheiro você vai ganhar. (…) Nós sabemos que a personalidade muda mais durante os 20 e poucos anos do que durante todo o resto da vida, e nós sabemos que a fertilidade feminina atinge seu auge aos 28 anos, e que as coisas se tornam muito mais complicadas depois dos 35. Então, seus 20 e poucos são o momento ideal de se educar sobre seu corpo e suas opções.

(…)

Leonard Bernstein disse que para fazer grandes coisas, você precisa de um plano e de pouco tempo disponível. Não é verdade? Então o que você acha que acontece quando você coloca na cabeça de alguém de 20 e poucos anos: “Você tem mais 10 anos para começar sua vida”? Nada acontece. Você roubou dessa pessoa seu senso de urgência e sua ambição e, então, absolutamente nada acontece.

(…)

A crise da meia idade no terceiro milênio não é mais por não comprar um carro esportivo vermelho. É por se dar conta de que você não construiu a carreira que você esperava. É repar que você não pode mais ter o filho que queria ou que não vai poder dar um irmão para seu filho. Muita gente com 30 e poucos ou 40 e poucos anos se olha no espelho – e para mim, em meu consultório – e fala sobre seus 20 e poucos anos: “O que eu estava fazendo? O que eu estava pensando?”