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O homem que leu o próprio obituário

28, fevereiro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

Daqui a pouco, quando entrar em um helicóptero rumo à residência de Castel Gandolfo, Bento XVI, o primeiro Papa Emérito da história contemporânea, dará o último passo – e o primeiro sem seu marcante sapatinho vermelho – em um dos planos mais audaciosos já registrados na história dos chefes de Estado. Não falo do ato de abandonar o cargo mais importante da Igreja – e não quero nem discutir aqui se este é um ato de coragem ou de covardia. O que
mais me chama a atenção na renúncia de Bento XVI é a esperteza do Papa, que, sem ter que fingir sua própria morte, conseguiu ler seus obituários.

Todo homem público tem a curiosidade de saber como passará para a história. Ao largar o papado anos antes da própria subida ao reino dos céus (ou não), Bento XVI teve a oportunidade de descobrir isso. As reportagens publicadas logo após o discurso feito no início deste mês no Vaticano nada mais foram a antecipação dos textos fúnebres que já estavam preparados para serem publicados assim que Ratzinger batesse os sapatinhos vermelhos. Foi assim que ele soube o peso que cada um de seus atos teve para a imagem que construiu para a história. Viu o quanto ser um Papa conservador pareceu melhor aos olhos do mundo depois de sua passagem para “outro plano” do que durante suas polêmicas declarações contra o aborto ou o casamento gay. Pôde ver também os prejuízos causados a ele mesmo pelo fato de ter acobertado os casos de pedofilia que proliferaram (e proliferam) na estrutura da Igreja.

Só me resta esperar que Bento XVI comprove sua fama de homem inteligente e utilize o tempo que lhe resta por aqui para criar uma versão melhorada dos obituários atuais. Que sua curiosidade de ler o que estava escrito seja apenas para tratá-los como um rascunho, que logo será corrigido. Se conseguisse aproveitar a tranquilidade da vida de Papa Emérito para lutar contra algumas chagas de sua Igreja (e a lista é grande, começando com a indefensável pedofilia e passando pela corrupção, que parece agradar tanto alguns cardeais), os próximos textos fúnebres sobre o Papa alemão certamente seriam mais dignos de quem ostenta o título de Sua Santidade. Sei que parece um sonho distante, mas, em se tratando do homem que renunciou ao papado e leu os próprios obituários, pode-se esperar de tudo.