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Grandes amigos

Eram grandes amigos. Tanto que era até difícil explicar de onde vinha tanta cumplicidade. Sabiam se entender até mesmo sem um olhar. Não eram poucas as histórias de, estando em lugares separados, saberem exatamente o que o outro sentia. Tinham uma ligação quase sobrenatural. Pareciam até irmãos gêmeos tamanha a conexão existente entre eles.

Não é nem necessário dizer que se amavam. Não como um casal de namorados, porque para isso era preciso haver tesão. E isso não havia. Por mais queridos que fossem um para o outro, não se imaginavam na mesma cama. Até se achavam bonitos e diziam ser sortudo quem caia nas graças do outro. Mas o tipo de amor existente entre os dois não permitia que esse tipo de desejo surgisse. Tinham um amor de irmão. Mais do que isso, de mãe e filho. De pai e filha. Se cuidavam. Se aconselhavam. Brigavam sem qualquer tipo de ressentimento.

E assim foi por muitos anos. Até o dia daquela bebedeira. Como já aconteceu com muitos amigos – e como ainda vai acontecer com tantos outros – uma noite calhou de os dois estarem carentes. Depois disso, a sequência de acontecimentos tornou a tragédia ainda mais previsível. Três doses de pinga e seis latinhas de cerveja para ele. Oito latinhas de cerveja para ela. Os dois na cama dele.

Ao acordar, lado a lado, mal acreditavam naquela situação. Era impossível que aquilo fosse verdade. Im-po-ssí-vel! O pior de tudo é o quanto tinha sido bom. Talvez porque se entendessem tão bem. Talvez porque sentiam um desejo reprimido que nem eles sabiam. Não importava o motivo. Tinha sido gostoso e ponto final.

Se é mesmo verdade aquela história de que um bom namoro nada mais é do que uma grande amizade que funciona bem na cama, tinham um problema. Um grande problema. Será que estavam namorando? Ele diria que sim. Ela, que não. Resolver o impasse não seria fácil. De um dia para o outro, ele começou a ter ciúmes. Socaria tranquilamente cada pessoa com quem ela já tinha ficado.

Para ela era difícil entender o motivo de tanto desespero. Sua cabeça, muito mais masculina que a dele, não via qualquer problema em amigos transarem de vez em quando. Nunca tinha acontecido até aquele momento apenas porque não tiveram a ideia antes. Uma simples foda, por melhor que tenha sido, nunca é razão para se apaixonar.

O tempo passou e a relação entre os dois foi ficando estranha. Ele caia de amores. Ela sentia vontade de ter mais um pouco daquela noite – e apenas isso. Os dois tinham medo de estarem sozinhos juntos. A amizade era boa demais para se arriscar assim. Para não correr esse risco, começaram a se afastar. Deixaram de se ver todo final de semana. Começaram a se ligar apenas a cada três ou quatro dias. Nem mesmo pela internet estavam mais sempre conectados. Foram se desligando. Tudo o que não queriam estava acontecendo. Ao fim e ao cabo o fim chegou tão naturalmente que nem uma lagrima escorreu quando se deram conta de que o que restava eram apenas as lembranças daquela noite e de todos os dias e noites que vieram antes.