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Um breve desabafo sobre a situação do jornalismo

Ser jornalista nunca foi uma profissão fácil. Ameaças de todo tipo, horários de trabalho improváveis, salários absurdamente baixos. Desde os tempos de Honoré de Balzac e seu Ilusões Perdidas só aceitou ser jornalista quem tinha uma visão romântica da vida. Sem isso, o jornalismo não teria o que destruir. De um tempo para cá, porém, a situação só fez por piorar.

Não é mero acaso que faz com que, mesmo tendo tão pouco tempo de formado, eu já tenha perdido as contas de quantos dos meus amigos desistiram de trabalhar como jornalistas. Muito menos é mero acaso que, pouco mais de seis anos depois de ter escolhido a profissão, eu já esteja cansado. E não venham culpar o fato de eu ser da geração Y. Eu e meus colegas não somos os únicos que estamos cansados. O artigo da jornalista argentina Graciela Mochkofsky, na Piauí desse mês, é um ótimo exemplo disso. Ela descreve, passo a passo, como se deu a construção, a desconstrução e a reconstrução de seus ideais jornalísticos. Como pano de fundo, a falência do bom jornalismo como instituição.

Para se ter uma noção ainda mais clara de que a deterioração não depende de idade ou de geração, basta fazer uma visita à sede de qualquer meio de comunicação. Serão poucos os jornalistas de cabelo branco – e menos ainda os que combinam o cabelo branco com pleno controle das sanidades mentais. Costumo dizer que jornalista não envelhece. Das duas uma: ou ele desiste ou fazem com que ele desista antes de ter netos.

Muitos fatores têm contribuído para esse quadro. Nos últimos 12 meses, vi mais de 300 jornalistas – em uma conta conservadora, feita de cabeça – serem mandados embora, apenas nos grandes meios brasileiros. Nos Estados Unidos, a situação é ainda pior. Isso não é normal. As empresas estão em crise e não conseguem encontrar uma saída. No mundo todo, jornais têm morrido em uma velocidade assustadora e outro tanto definha a passos largos para um triste fim.

A visão romântica que me fez escolher essa profissão ainda persiste. Não consigo imaginar o mundo sem jornalismo e sem jornalistas. O problema é que o mundo muda a uma velocidade muito maior do que os velhos e os novos barões da mídia são capazes de acompanhar. Fazer jornalismo de qualidade custa caro e nos últimos anos tem se tornado raro quem está disposto a investir – seja lá quanto for – em uma boa reportagem. Há quem diga que quem gosta de boa reportagem é o jornalista e que, para o leitor, não faz diferença de que forma foi feita e quanto tempo levou a apuração. Não é verdade. Uma pesquisa recente mostrou que 31% dos americanos abandonaram seus meios de comunicação favoritos, porque não encontravam mais o mesmo nível de informação. É a crise alimentando a crise.

Não é de se assustar que os nomes que inspiraram Graciela Mochkofsky a perseguir o bom jornalismo no início dos anos 1990 sejam exatamente os mesmo que me inspiram vinte anos depois. Os meios de comunicação foram incapazes de produzir outros Gays Taleses e Joeis Silveiras nas últimas três ou quatro décadas. É lógico que temos uma Eliane Brum aqui e outra acolá, mas não basta. Gente talentosa não faltou – e eu tive a sorte de sentar a poucas cadeiras de distância de muitas delas. O que faltou foram os recursos para que essas pessoas não dependessem mais apenas de seus textos iluminados e de suas magníficas capacidades de observação. Talento não é suficiente no jornalismo. Quem é repórter sabe como, sem chance de erro, uma entrevista feita cara a cara é sempre mais proveitosa do que um telefonema ou – o horror dos horrores – o envio de algumas perguntas para serem respondidas por e-mail. O problema é que, em um crescente assustador, as empresas de mídia incentivam e forçam seus repórteres a ficarem presos na redação durante as 8, 10, 12, 14 ou mais horas de expediente.

Em meio a tanta crise, as empresas se tornam ainda mais injustas. Demissões injustificadas e injustificáveis, mentiras para os funcionários, atrasos no pagamento, eliminação de direitos trabalhistas e tantos outros casos maléficos já se tornaram um triste padrão de conduta. Não é de se espantar que nossa profissão seja incluída em qualquer ranking que se preze de ocupações mais estressantes ou insalubres.

Por trás desse cenário, eu vejo um momento de transição. Dentro de pouco tempo, a cobertura diária dos fatos será um tanto diferente da que conhecemos hoje – o tamanho desse tanto ainda é difícil de imaginar. Boas iniciativas começam a surgir em todo o mundo. Tanto os jornalões como jornalistas empreendedores e independentes têm aprendido a produzir reportagens digitais de qualidade. O Leonardo Sakamoto – um jornalista que precisava ser mais conhecido e reconhecido – fez com alguns amigos uma compilação de bons exemplos. Outro dia também apresentei bons exemplos de documentários pensados para a internet. É gostoso ver como tem coisa vinda de diversas partes do mundo e feita por todo tipo de gente.

Acredito que o quadro momentâneo é desesperador, mas que haja uma saída para o jornalismo – repito: não consigo ver o mundo sobrevivendo por muito tempo sem gente capaz de levantar e traduzir informações e histórias. O problema é que a saída, como tudo que envolve bom jornalismo, custa caro. Mais do que isso, ainda é uma saída incerta.  Como resultado, muita gente vai ficar pelo caminho e pode ser que não sejam os melhores os que sobrarão. Eu, entre uma vontade e outra de jogar tudo para o ar e inventar uma nova profissão, vou tentando encontrar um jeito.

Escutar também é falar

Há pouco tempo, quando fiz um curso com a jornalista Eliane Brum, ela bateu muito na tecla de quanto é importante para o jornalista saber ouvir – não só o que é dito, mas o que fica por dizer também. Gostei da ideia, porque nunca fui daqueles jornalistas faladores. (Se você me conhecesse, deve estar me chamando de mentiroso. Mas venhamos e convenhamos: no começo de uma relação sempre sou mais calado. E os contatos com fontes costumam ser justamente esses tais começos de relação.)

Acho tão importante ouvir, que já cheguei a ficar mais de uma hora com entrevistados no telefone sem dizer nada além de “aham”. Adoro quando a entrevista caminha assim. Peço para a pessoa falar sobre tal tema e ela vai falando, naturalmente, ligando os pontos sem que eu tenha que forçar a barra em momento algum. No final, apenas faço as perguntas que eu tinha programado e não foram respondidas e as dúvidas que surgiram durante a conversa. Pronto. Rende bem mais do que se eu tentasse brigar com a pessoa, disputando quem fala mais, quem é mais inteligente, e apresentando teses e contrateses com as quais fonte muitas vezes concorda apenas para poder seguir com seu raciocínio. Pois é. Tem repórter que faz isso e não é um, nem são dois. Já vi vários – e eles costumam se achar ótimos entrevistadores.

Para esses, fica a dica: no livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo, do escritor moçambicano Mia Couto, um dos personagens – um político chamado Suacelência – diz, lá pelas tantas, que “escutar também é falar”. Achei a frase linda e tenho ela marcada em um post-it em cima de minha cama, para que jamais me esqueça dessa lição. Foi só depois de ler e entender isso que resolvi me assumir como um escutador e defender a importância que isso pode ter para minha profissão.

Que tenhamos um jornalismo com mais escutadores do que faladores!

(Se não conhece o trabalho de Eliane Brum, recomendo os textos dela no site da revista Época e os livros de reportagem O Olho da Rua, A Vida que Ninguém Vê e a ficção Uma Duas. Se ainda não se encantou, não perca a oportunidade de se encantar com a sensibilidade do texto dela, que é a melhor e mais premiada jornalista do Brasil atualmente.)

(Se quer saber mais sobre Mia Couto, veja esta participação dele em uma conferência em Portugal, falando sobre o medo. Os livros, não me arrisco a indicar uns poucos. Leia todos que encontrar e mais os contos que encontrar por aí.)