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Textos com Etiquetas ‘Paulo Maluf’

Quando é hora de pressionar o entrevistado?

Uma das funções mais difíceis do jornalista é entrevistar alguém. Ter o cuidado e o feeling de fazer a pergunta certa na hora certa e não interromper a pessoa antes de ela dar chegar à melhor parte da resposta é uma daquelas habilidades praticamente impossíveis de se ensinar na faculdade e que só são desenvolvidas com muita prática e bom senso. Particularmente, tenho o hábito de ouvir muito mais do que perguntar. Não sei se é o melhor sistema, mas é o que mais funciona para mim. Já aconteceu de eu ficar mais de uma hora com o entrevistado e intervir apenas umas duas ou três vezes. Descobri coisas incríveis, que jamais teria descoberto sufocando a pessoa com uma tonelada de questões.

Não foi por mero acaso que batizei esse blog de O Escutador e que escolhi a frase “Escutar também é falar”, do grande Mia Couto, como o lema dessas escrevinhações. Fico extremamente irritado quando vejo alguns colegas com a mesma postura do repórter daquele vídeo do Porta do Fundos. Para quem não vive o dia a dia do jornalismo, pode até parecer que aquilo é um exagero. Não é bem assim. Me cansei de ver gente que se diz jornalista, mas só pensa em como cavar a manchete da próxima edição. Pior. Já fui orientado por chefes a arrancar determinadas declarações de um entrevistado. E reparem que fiz questão de não utilizar aspas cercando o arrancar.

É lógico que, em alguns casos, pressionar um entrevistado é fundamental. Nessas horas, porém, a ideia não é fazer que o sujeito responda a pergunta do jeito que você ou seu chefe quer. O objetivo, na verdade, é simplesmente que ele responda e pare de escorregar. Foi o que aconteceu em uma histórica entrevista do Paulo Maluf para a Folha de São Paulo. Não consegui encontrar o link, mas a transcrição da conversa entre o político e o repórter mostra bem o quanto é complicado lidar com gente especializada em fugir de perguntas que os coloquem em uma saia justa.

Lembrei desse caso ao me deparar com o vídeo abaixo. Nele, uma entrevistadora da Fox News.com perde seus dez minutos com o entrevistado insistindo em uma mesma questão – que já tinha sido respondida antes do primeiro minuto, apesar de não da forma que ela desejava e esperava. O resultado final do “bate-papo” é constrangedor – para a moça, para o pesquisador e para nós, público.

(Não encontrei uma versão com legendas. Um breve resumo da história é o seguinte: Reza Aslan, um estudioso de religião com PhD e muitos anos de trabalho, escreveu um livro sobre Jesus. Só que ao invés de se ater ao trabalho do pesquisador, a jornalista preferiu perguntar o que levou um muçulmano a escrever sobre Cristo. Ela chega a dizer que o fato é tão estranho quanto um democrata escrever um livro sobre um presidente republicano – o que, como sabemos, não tem nada de estranho, imoral ou ilegal.)

Descobrir como – e quando – insistir em uma questão é um desafio. Mas o fato de ser uma missão difícil não deveria abrir brecha para situações ridículas como essa.

Sobre a maioridade penal – parte 2

Ainda ontem falei aqui no blog sobre a questão da maioridade penal. Hoje, me deparei com essa pesquisa do Datafolha que diz que 93% dos paulistanos são favoráveis à redução. Não me espanta o índice ser elevado. Sempre soube que boa parte da população tinha essa preferência. O que me espanta é o quão elevado ele é.

Infelizmente, ainda prevalece na população aquela velha ideia de vingança. É o mesmo pensamento que faz muita gente defender que bandido bom é bandido morto e que se reflete nas votações expressivas de figuras como Paulo Maluf (e sua Rota na rua), coronel Telhada e Jair Bolsonaro. Até quando São Paulo será tomada por esse tipo de pensamento?

Quem falou muito bem sobre o assunto foi o Leonardo Sakamoto.

Irritando os entrevistados

Outro dia esta lendo um post no blog do Rodrigo Russo, correspondente da Folha em Londres, sobre o grande entrevistador britânico David Frost (aquele do filme Frost/Nixon).

Segundo o Rodrigo, Frost diz que, “se os assessores não ficarem insatisfeitos, não houve boa entrevista”. Isso me fez lembrar de um jornalista que, certa vez, disse que teve certeza de que fazia bem o seu trabalho no dia que acumulou processos de figuras como Antonio Carlos Magalhães e Paulo Maluf.

Sei que num primeiro momento pode parecer estranho o prazer que irritar ou desagradar alguém pode dar para esses repórteres, mas no fundo acho que consigo entendê-los. Por lidarem com temas muito delicados (política, principalmente), a irritação dos entrevistados é um sinal para eles de que conseguiram extrair informações valiosas para o público. É aquele prazer de ter a certeza de que foi além do óbvio. Nem sempre é um furo, mas sim um passo além daquilo que todo mundo já sabe. Espero que todo jornalista consiga sentir esse prazer algumas vezes ao longo da carreira.