Arquivo

Textos com Etiquetas ‘paquera’

Um namorado para a amiga

A amiga já estava encalhada há um bom tempo e ela achou que, em nome dos anos de relação entre as duas, tinha obrigação de ajudar. Foi fuçando na lista de amigos do Facebook até lembrar de alguém que fosse bonito e simpático o suficiente para fazer a amiga feliz. A missão não era nada fácil. Os poucos não cafajestes que conhecia estavam quase todos comprometidos. A única exceção era ele. Não era tão bonito quanto a amiga merecia, mas era simpático e – diziam os boatos – muito bom de cama.

Resolveu que ia apresentar os dois. Conversou com ele primeiro. Queria saber se queria alguma coisa séria da vida ou se ainda estava interessado apenas na curtição. A maioria dos homens hoje em dia toma a decisão de se comportar como adolescentes até os 30 e poucos e ela não podia correr o risco de colocar sua amiga em uma roubada dessas. Já bastava a quantidade de roubadas em que a amiga tinha se metido sozinha. Ficou feliz quando ele disse que ele estava procurando alguém para assistir um filme num sábado a noite, sem peso na consciência por estar em casa. Uma peça rara.

Resolveu chegar ao ponto central da conversa com o máximo de cuidado. Ele não podia pensar que a amiga era uma daquelas solteironas desesperadas. Por mais que fosse verdade, não cairia bem passar esse tipo de imagem. Comentou que conhecia alguém muito interessante. Que os dois combinavam em tudo. Que gostavam do mesmo estilo de música. Que tinham lido os mesmo livros. Falou também que ia sair com a amiga no próximo fim de semana e perguntou por que ele não aparecia por lá? Sem compromisso. Conhecer a amiga e ver se ela era realmente tudo o que ele imaginava. Depois podiam se adicionar no Facebook, trocar mensagens por Whatsapp e ver o que o destino reservava.

Preferiu não comentar nada com a amiga. Talvez ela se sentisse ofendida ou, pior do que isso, obrigada a ficar com ele apenas para não passar a imagem de encalhada. Ele iria até a festa e lá ela cuidaria de fazer o meio campo.

Chegado o dia do grande encontro, as coisas saíram muito melhor do que o planejado. Antes mesmo que ele chegasse, a amiga engatou um papo com um cara incrível. Era bonito, charmoso e, ao que tudo indicava, boa gente. Quando o ex-futuro namorado da amiga chegou, ela foi logo contar o ocorrido. Achou que ele ficar decepcionado, mas, ao invés disso, ele abriu um sorriso. Seu interesse era outro. Não queria saber da amiga. Queria saber da outra. E assim foi. Conversaram durante por toda aquela noite.  E por todas as noites que vieram depois disso.

Paixão de elevador

Já estava pronto para sair de casa quando a mãe, como sempre, pediu que arrumasse o cabelo. Deu uma passada de mão e com uma cara de pouquíssimos amigos disse que não ia encontrar o amor da sua vida na rua. Estava certo. Antes mesmo de chegar na rua, ainda no elevador, viu a mulher mais linda do mundo abrir a porta e entrar. Se arrependeu de não ter arrumado o cabelo. Se arrependeu de estar vestido com aquela roupa. Queria parecer mais descolado, mas era tarde demais.

Nunca tinha visto aquela moça por lá. Tudo nela era incrível. O cabelo ruivo, do jeito que ele gostava. O vestido, com um pequeno ar de desleixo. A cara de quem gosta de ser livre e fazer o que bem dá na telha. Queria puxar papo, perguntar o nome, descobrir quem era e o que fazia ali. Estava na torcida para que fosse uma vizinha. Que morasse sozinha. Já se viu de mudança para o quarto andar. Será que namoro entre vizinhos dava certo? Com ela, com certeza daria.

O problema é que ele nunca tinha conseguido fazer essas aproximações inesperadas. Morria de vontade de se apaixonar no metrô, mas nunca teve coragem de começar a conversa com as hippongas maravilhosas que encontrava na Linha Amarela. No elevador, então, era pior ainda. Se não desse certo, se passasse vergonha, ele corria o risco de reencontrar sua musa inúmeras vezes e não saberia onde esconder a cara.

Mesmo ponderando todos esses pontos contra, resolveu agir. Precisava agir! E tinha que pensar rápido, antes que o elevador chegasse ao térreo. Viu que ela segurava um livro e perguntou se era bom. Naquele momento teve a certeza de ter tomado a melhor decisão de sua vida. Ela estava louca para começar uma conversa e também não sabia como! Era nítido o alívio na cara dela quando ele perguntou sobre o livro. Respondeu. Tomou coragem e perguntou o que ele estava lendo. O elevador chegou e eles continuaram lá, na porta, falando sobre os gostos literários.

Os sorrisos eram tímidos, mas deixavam bem claro as intenções. Os dois estavam felizes por terem começado aquela conversa. Se achavam muito interessantes, tinham muitas coisas em comum. Não foi difícil, então, que a conversa evoluísse dos livros para os filmes. Falaram dos favoritos, do último Oscar, do cinema nacional. Ela disse que ainda não tinha visto o último Tarantino. Ele fingiu também não ter visto e perguntou se ela iria com ele. Não que um Tarantino fosse o filme ideal para se começar um namoro, mas foi o que o destino ofereceu. Trocaram celulares e combinaram de se falar mais tarde, para acertar o cinema e a sessão.

Naquela noite, o filme foi ótimo, assim como o jantar que veio logo em seguida. E, em menos de seis meses, lá estava ele levando a escova de dentes e uma mala de roupas para o quarto andar.