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Textos com Etiquetas ‘paixão arrebatadora’

O beijo

Sentiu uma vontade louca de beijar aquela boca e, antes mesmo que notasse isso, já estava fazendo a mágica que torna desejo em realidade. Nunca tinha feito aquilo na vida. Não que fosse seu primeiro beijo. Mas era o primeiro daquele beijo. Aquele era um beijo diferente. Havia um sentimento diferente ali. Não era tesão, carinho ou amor. Já conhecia todos esses e em nada eles lembravam o que sentia agora. Talvez o leitor não consiga entender o que estou falando. É realmente difícil para quem nunca viveu essa sensação de que tudo encaixa com uma perfeição sem igual, de que não há nada no mundo além daquele beijo, de que aquele momento tão especial nunca vai se repetir – não daquele jeito. Não é que aquela pessoa seja perfeita, única ou especial. A perfeição é do momento, não das pessoas. Como naqueles fatos que acontecem uma vez a cada dois ou três séculos e que a próxima geração mal toma conhecimento sobre sua existência. Um cometa, o nascimento de um grande líder, a invenção de uma nova estética… Apenas quem está lá, naquele momento, sabe identificar que algo de muito especial está acontecendo – e que esse fato independe de tudo que não seja o cosmos, a força superior, Deus, ou qualquer outro nome que você prefira.

Aquele beijo era, definitivamente, um evento cósmico. Bocas que nunca antes tinham se encontrado, agora se encaixavam com perfeição, como se conhecessem em detalhes os detalhes uma da outra. Os dois, em uns tantos momentos, chegaram a perder o fôlego, mas fizeram questão de continuar. Não havia motivos para se interromperem. Era um beijo longo, longuíssimo, mas não daqueles beijos feios, que chegam a deixar quem está do lado constrangido. Era um beijo longo, longuíssimo, mas de uma espécie rara, que apenas revela aos demais que, ali, há um algo de diferente. Ninguém sentiu vontade de interromper o casal ou de sugerir que eles buscassem um quarto ou um motel. Não era um beijo pornográfico. Longe disso.

As mãos dela corriam pelas costas dele, como se procurassem por lá um conforto ainda maior. As mãos dele corriam pelos cabelos dela, como se segurar aqueles cachos fosse a única forma de manter a magia para sempre. De resto, os corpos estavam parados. O mundo todo se movendo ao redor dos dois e eles lá, sozinhos, únicos no mundo e em seus pensamentos. Sem família, trabalho ou contas para pagar. Sem comunismo ou capitalismo. Sem trânsito ou planos para as férias. Sem nada. Absolutamente nada.

Como se fossem dois monges budistas no auge da meditação, tinham a cabeça vazia. Agiam quase que totalmente por instinto e era isso que fazia aquele momento tão mágico. Não precisavam se preocupar em ser alguma coisa. Eram eles – e talvez fosse isso o que fazia daquele momento algo tão especial. Ou talvez não, já que nessa ideia há uma boa dose daquela psicologia barata que nos faz acreditar que nunca queremos ser o que somos de fato – ou algo assim. Na verdade, o que fazia daquele momento algo tão especial é que tudo estava certo para que aquele momento fosse algo tão especial.

Se conheciam há algum tempo, mas não podiam dizer que eram amigos. Não nutriam expectativas um com o outro. Nunca sonharam com aquele beijo. Não sabiam – e naquele momento era a última coisa que queriam saber – o que aconteceria no momento seguinte. E não tinham noção de nada disso naquele instante.

Talvez um poeta dissesse que eram um só corpo. Mas isso não passaria dessas bobagens que os poetas costumam dizer para encantar a gente e nos fazer sentir que nunca viveremos um amor verdadeiro. Eles não. Não eram um só corpo. Eram dois corpos entrosados, felizes de estarem um com o outro.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo levou até que aquele beijo acabasse. Para quem olhasse de fora, foi tempo o suficiente para invejar. Para os dois, não houve medida de tempo. Beijaram pelo infinito e um pouco além. Todo o infinito é pouco quando nos encontramos no beijo de outra pessoa. Quando finalmente se soltaram, se olharam e riram. Riram com o mesmo entrosamento do beijo, mas foram perdendo a força até que pararam e se concentraram apenas na boca um do outro. Não conseguiam desviar os olhos dos lábios do outro. A ideia de repetir o feito era tentadora, mas dava medo. Jamais alcançariam aquele ponto de novo. Ela tomou a iniciativa – sempre são elas que tomam a iniciativa. Virou e foi ao bar pegar uma bebida. Quem sabe outra noite…

 

Minha desastrosa vida amorosa

Sempre quis me apaixonar loucamente. Viver um amor de cinema. Ter a coragem de correr atrás da garota dos meus sonhos em um aeroporto lotado. Olhar pela janela e ver um dia chuvoso, mas assim mesmo ir correndo só pra ver o meu amor. (Que maravilha! Que coisa linda que é o meu amor!) Olhar nos olhos de alguém e dizer, sem medo de parecer ridículo ou de estar exagerando, um “Eu te amo” sincero. Não sei se um dia vou viver algo assim. O que sei é que, quanto mais penso, mais começo a achar tudo isso uma bobagem – mas uma bobagem com a qual continuo sonhando.

Não é que nunca tenha me apaixonado. Pelo contrário. Cultivo amores em série e esse é um dos maiores motivos para eu não ter coragem de amar ninguém perdidamente. Como posso me dedicar exclusivamente a ela, se deve haver uma próxima ainda melhor, que me provoque sensações ainda mais intensas? E é assim que, quase como uma regra, vou transformando minhas paixões em amizade. Resultado: muitas amigas e nenhuma namorada. Uma vida amorosa para lá de desastrosa.

Pode ser pelo signo ou por algum outro problema qualquer, mas sou daqueles que sofre por amor. No fundo, gosto desse sentimento desesperador de não ter certeza do que a outra pessoa sente. Gosto de emitir sinais – nem sempre muito discretos – e aguardar respostas. Para ser sincero, sinto mais prazer nesse jogo prévio do que em tudo o que vem depois. É uma delícia procurar sinais de correspondência e uma angústia um tanto quanto masoquista ver que eles não estão chegando. Tem até casos em que já desisti da moça, mas continuo tentando descobrir se, em algum momento, ela me quis. Talvez seja uma carência, uma necessidade de me sentir amado. Não importa o motivo. O que importa é que está nessa sedução – palavra horrível e que já perdeu muito de seu significado – uma deliciosa fonte de prazer.

Nunca fui muito adepto da pegação pura e simples. Raramente fico com quem não conheço. Não vejo tanta graça em uma relação que surge do nada e tem um futuro tão promissor quanto o próprio passado. Sinto falta justamente desse jogo lento, que transforma a amizade em amor e que permite que o amor volte a ser amizade pura.

Sou um fã dessa linha tênue entre amor e amizade. Tenho muita dificuldade em identificá-la e acho que já perdi muito por conta disso – quantos amores eram só amizade e quantas amizades podiam ter sido grandes amores? Mesmo assim sou um fã incorrigível. Sem essa divisão tão fina, se apaixonar não faria sentido. Impossível uma relação dar certo sem caminhar cambaleante nessa fronteira. É esse andar de bêbado que mantém tudo vivo. E é quando a gente tomba definitivamente para um lado ou para o outro que as coisas saem do lugar.

Não me considero um grande especialista em matéria de amor. Nem poderia. Meus sentimentos são uma estranha mistura de romantismo e frieza que até eu sou incapaz de compreender. Sem me explicar, não tenho o direito de ser especialista em nada. O que sei sobre o amor – e é muito pouco, perto de tudo o que acho que qualquer um deveria saber para ditar regras por ai – é que ele é uma coisa estranha. Tudo bem que isso é um baita chavão. É natural, já que há tanto tempo o homem tenta encontrar explicações para o coração saindo pela boca e sempre falha.

Quase todas as vezes em que me senti apaixonado por uma garota, juntei coragem sabe-se lá de onde para demonstrar isso claramente. Existe apenas uma única e honrosa exceção, que guardei para mim como um segredo que todo mundo sabe. Nos demais casos, queria fazer uma declaração daquelas de filmes e livros, com direito a palavras bonitas e até músicas compostas especialmente para o momento. Bobagem, já que não consigo dizer nem mesmo um “eu te amo” sem me sentir um idiota. Por mais que muita gente diga o contrário, sou um cara tímido. Mas não é isso que me impede de dizer a bendita frase a torto e a direito. Essas são três palavras que carregam um peso desproporcional demais e que, por isso, se tornam perigosas. O que sempre fiz, então, foi tentar demonstrar o quanto a pessoa era especial para mim. Fazer isso sem palavras – de tanto me apegar à palavra escrita, desaprendi a utilizá-la através da boca. O jeito então é demonstrar por atos. Tarefa difícil, já que normalmente nem eu mesmo sei o tamanho a que essa dedicação deve chegar para ser proporcional ao que sinto.

Comecei a rascunhar este texto quando o acaso me fez cair na página do Facebook de uma das minhas primeiras paixões. Um daqueles amores dos tempos do colégio que, com sorte, se convertem em primeiro beijo. Fiquei alguns minutos olhando para a foto da menina e pensando no quanto ela devia ter mudado de lá para cá. A aparência era exatamente a mesma e fiquei curioso para saber como poderia haver uma mulher por dentro daquela menina. Ou será que ela continuaria exatamente a mesma, tão interessante naquela época e tão descartável para os dias de hoje? Foi daí que me lembrei de sua letra cuidadosa em uma carta que era para ser de amor. Letra de menina que quer ser princesa. Espero que ela e a letra tenham mudado muito nesses últimos quase 15 anos. Tentei encontrar em algum lugar de minha cabeça as bobagens ditas em resposta àquela carta por meio de meus garranchos dedicados.

Não me lembrei ao certo do que escrevi e nem do que disse para ela. Tenho apenas uma vaga memória de como a história se desenrolou – nada digno de nota, nem para um garotinho de onze ou doze anos, garanto. Mas mexer com essas lembranças me puxou muitas outras – desde aquele tempo, em que pensava que quando eu “fosse grande” aprenderia a agir nesses casos até hoje quando absolutamente não sei como agir nesses casos. A reunião desses passados pariu este texto. O engraçado de tudo é que todas as histórias, mesmo aquelas que na época pareciam insuportavelmente dolorosas, me causam exatamente a mesma sensação. Em resumo, é uma vontade de rir das burradas que cometi e saudades das esperanças que tive.

É lógico que até hoje não enfrentei nenhum daqueles amores da literatura ou do cinema. E é lógico que, por mais que ache uma bobagem, não perco a esperança de viver algo assim. Mas quero essa experiência muito mais por teimosia do que por qualquer outra coisa. No fundo sei que não há romance de novela das oito capaz de deixar tantas amizades e risadas quanto a minha desastrosa vida amorosa. E a sua também.