Arquivo

Textos com Etiquetas ‘ônibus’

Como evitar que o mundo pare?

Tenho um sério problema de relacionamento com os carros. Não gosto de dirigir, não gosto do estrago que eles fazem no meio ambiente e não gosto do caos em que eles transformam as grandes cidades. Não bastasse os problemas coletivos que temos que lidar diariamente, como saúde, educação e moradia, as administrações públicas ainda se veem obrigadas a buscar soluções para uma questão que é muito mais individual do que da população como um todo.

Por diversos motivos, as cidades não comportam mais um grande número de carros. Não que eles sejam vilões absolutos, sem qualquer qualidade. O problema está em seu excesso. Não imagino e não defendo uma sociedade sem carros, mas sim uma cidade onde os métodos de transporte que atendam mais gente por vez sejam, de fato, priorizados.

Alternativas não faltam. Investir mais em metrô (desde que sem corrupção, é claro) e corredores de ônibus já se provou bastante eficiente. São Paulo mesmo tem vivido um intenso debate sobre essa questão. O problema é que ainda estamos muito contaminados por uma espécie de rivalidade entre os defensores do carro e dos ônibus.

Por mais importante que seja o transporte público, ele por si só não é a solução para todos os problemas. Em alguns momentos, o uso do carro é importante também. E nessa vertente, temos visto algumas iniciativas de empreendedores que têm contribuído para a melhoria da mobilidade urbana. Além dos aplicativos de táxi, que são um excelente incentivo para deixar o carro na garagem de vez em quando, vejo o compartilhamento de carros como uma excelente solução. A empreendedora americana Robin Chase é um grande símbolo desse caminho. Ela fundou a locadora por hora Zipcar (que inspirou a brasileira Zazcar) e depois aprofundou seu modelo, com a Buzzcar. Quem quiser conhecer um pouquinho mais sobre seu modelo de trabalho, essa palestra dela no TED é muito bacana.

Mas mais importante do que uma ou outra solução é encontrar uma forma de coordenar diversas iniciativas. O problema é muito grande para acreditarmos que haja, de fato, uma resposta única para ele. Quem chama a atenção para esse problema é uma figura improvável. Bill Ford é bisneto de Henry Ford e diretor-geral da empresa fundada por seu bisavô. Coloco meus dois pezinhos atrás quando o assunto são figuras de dentro de uma determinada indústria questionando os valores defendidos por essa mesma indústria. Apesar disso, assistindo a palestra dele no TED, feita em 2011, encontrei alguns aspectos muito bacanas. O ponto central é que o modelo vigente não se sustentará por muito tempo. Com mais e mais carros nas ruas de todo o mundo, não há obra viária que impeça um congestionamento em escala global. Há pouco tempo já vimos essa tendência mostrando a cara na China.

O resultado do crescimento em larga escala do número de carros, como muito bem lembrado por Ford, não é somente o inconveniente de perder algumas horas para ir para o trabalho ou voltar para casa. Isso vai acabar afetando a distribuição de produtos tão fundamentais quanto comida e remédios.

É lógico que desconfio e discordo de Ford em alguns aspectos fundamentais de sua fala. Para ele, por exemplo, a grande sacada será a criação de carros mais inteligentes, conectados a estradas e estacionamentos mais inteligentes. Não vejo por esse lado. Acredito muito mais na força das soluções coletivas, como o compartilhamento de carros e o transporte público, do que no investimento em tecnologia para criar carros mais espertos. Além de mais caro e de ser algo um tanto quanto “futurista”, acredito que esse sistema mais posterga do que resolve a situação. De qualquer forma, acho que as propostas do Bill Ford são importantes para o debate. O vídeo abaixo tem um resumo dessas ideias, feito por ele mesmo no TED em 2011.

P.S.: Depois que publiquei o post me deparei com a notícia de que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, apontou o aumento da gasolina como uma boa forma de subsidiar o preço da passagem de ônibus. Taí algo que já venho falando há tempos. Além disso, defendo também o aumento do IPTU para estacionamentos e o pedágio urbano na região central. Carro só para quem precisa de fato.

Sem qualquer lamentação

Entrou no ônibus cansado de um dia de trabalho em que nada deu certo. O chefe, aquela mula, parecia ter o prazer de atrapalhar tudo. Tinha dúvidas de se aquilo tudo era maldade ou a mais pura incompetência. Seja como for, sabia que a situação era insustentável. Mais cedo ou mais tarde ia ter que pedir demissão. Com dois filhos nas costas, era difícil fazer isso sem ter nada na manga, mas talvez fosse a única alternativa.

Estava com a cabeça longe, de pé perto da porta mais distante, quando não reparou a entrada de dois meninos no ônibus. Eles entraram por trás, como faz quem convence o motorista a dar uma carona ou a permitir que se venda alguma coisa aos passageiros. São poucos os motoristas que fazem isso hoje em dia, preocupados com a manutenção da própria existência. Aquele, porém, era um dos que põem o coração acima de si mesmo e permitiu que os dois moleques embarcassem pela porta de traz.

O mais novo não passava dos 9 anos. O mais velho, se tinha 12, havia feito aniversário por aqueles dias. O homem não percebeu a entrada dos dois e não percebeu também que o menor – que era o mais velho – carregava na mão um pandeiro.

Aquela dupla não ia vender balas, água e nem descascador de batata. Tampouco estavam lá apenas pela carona. Foi só na primeira gargalhada geral que o homem reparou na existência das duas crianças. Reparou também, logo de cara, o que eles estavam fazendo ali.

Zé Biscoito e João Bolacha, como se apresentaram pouco antes de homem saber de suas existências, eram repentistas. Apesar da pouca idade – ou talvez até por isso – os dois tinham o dom de encantar o público. Mal terminavam o verso e a risada se espalhava do motorista ao último passageiro. A coisa era tão contagiante que até a velhinha surda do primeiro banco e o menino com fones de ouvido sentado lá no fundo riam gostosamente – mesmo sem saber ao certo o que a duplinha tinha acabado de cantar.

A imagem e o gesto dos dois eram engraçados por si só. Eles tinham talento. Tanto que, ao se deparar com os dois, o homem desistiu de seus próprios problemas. Pensou em como devia ser sofrida a vida daqueles moleques e que mesmo assim eles tinham a capacidade de fazer um monte de gente gargalhar. Talvez fossem órfãos. Provavelmente não iam à escola. Não era pequena a chance de que apanhassem de um padrasto cruel ou que uma madrasta de contos de fada os obrigasse a estar ali. Naqueles poucos minutos, todos os preconceitos que existem contra a população que ganha a vida nas ruas serviram para tornar ainda mais terna a figura daqueles dois. Pobres meninos sofridos. Quem sou eu para reclamar de um chefe tosco quando há tanta gente com motivos tão grandes para reclamar que acaba se contentando em se conformar?

Se distraiu tanto na filosofia barata que acabou por deixar o ponto passar. Não protestou, como faria normalmente, e nem tentou culpar ninguém pelo próprio erro. Deu o sinal e desceu no próximo. A rua estava escura e quando correu para atravessar, ainda com a história que criou para os meninos na cabeça, não viu o carro que rasgava a pista. O impacto foi imediato e a morte, diferente de toda a vida, veio sem qualquer lamentação.