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A ruiva

Só quem já se apaixonou por uma ruiva sabe o quanto isso é difícil. E ele já estava calejado o suficiente para saber. Foi no colégio – quando ainda não tinha noção de absolutamente nada e descobria absolutamente tudo – que soube do poder daqueles cabelos com cores difíceis de descrever – e impossíveis de se imitar com tintura. Sofreu muito, como acontece em todo primeiro amor. O sentimento era tão intenso que prometeu jamais, em toda a sua vida, até o último dia e enquanto ainda tivesse forças se apaixonar por outra ruiva. Dizem que Lucille Ball, a ruiva mais famosa dos anos cinquenta, tinha uma frase sobre o direito de todo homem se apaixonar pelo menos uma vez na vida por uma linda ruiva. Lucy advogava em causa própria, mas tudo bem. Assim ficaria decidido: se uma vez era o suficiente, ele já tinha preenchido a cota.

Mal se lembrava da origem dessa promessa quando conheceu Vanessa. A apresentação foi formal, típica de novos colegas de escritório. Ela sentaria a seu lado e parecia ser muito gente boa. Nada demais. Apenas gente boa. Não que isso fosse suficiente para quebrar todo o preconceito que sentia contra aqueles cabelos, mas já era um bom começo. Nos primeiros dias, trocavam apenas cumprimentos protocolares. Mas a coisa logo evoluiu para uma amizade. Ela tinha uma risada simpática, que sabia surgir na hora certa. Saber rir na hora certa e de um jeito simpático é uma qualidade que deveria ser mais valorizada, de tão rara que é. Os olhos eram espertos e sabiam ser irônicos. Ter olhos irônicos também não é para qualquer um. É preciso uma malícia natural, capaz de transmitir o tom certo apenas com uma mirada. Ela tinha essa malícia e – como toda ruiva – muitas outras.

De risada em risada e de olhar em olhar, a amizade se fortaleceu. Saiam para almoçar juntos e, nessas ocasiões, jamais falavam de trabalho. Essa era uma característica que ele valorizava bastante em colegas de escritório. A capacidade de só falar em serviço quando isso é realmente necessário é uma dádiva reservada a menos gente do que os sabem rir na hora certa e ser irônicos apenas com o olhar. Ele estava encantado por ela. Tinham muitas coisas em comum. Não gostavam dos mesmos livros, filmes ou música. Não torciam para o mesmo time. Não sonhavam com o mesmo futuro. E mesmo assim tinham absolutamente tudo em comum. As conversas rendiam horas. Se sentiam bem quando estavam juntos. Evitavam os demais colegas para ficarem sozinhos.

Talvez o leitor já esteja imaginando que não demorou para eles caírem em um  amor irreversível e que essa seja só mais uma história de final rápido e feliz. Não foi isso que aconteceu. Eduardo e Mônica é um casal que funciona apenas nas músicas de loucos como Renato Russo ou na cabeça de apaixonados, o que dá quase na mesma. Eles sabiam que deveriam se aproveitar apenas da amizade e que mais do que isso era procurar uma forma de acabar com tudo. Não queriam isso. Não podiam tolerar a ideia. Nem na maior das bebedeiras jamais trocaram um beijo sequer. De vez em quando até se imaginavam juntos e tinham uma amizade tão forte que falavam do assunto um com o outro com a maior naturalidade. Com a mesma naturalidade de que falavam de outros amores, maiores e menores, fixos e ocasionais. E isso era mais uma prova de que jamais dariam certo juntos. Se conheciam demais.

Como costuma acontecer em relações de amizade entre homens e mulheres, ele tinha muito mais interesse nela do que ela nele. Mas não importava. Sabiam lidar com a situação. Deixavam que os outros falassem e não se importavam com a maldade alheia. Se bastavam. E era isso que importava.

Chegou um momento, porém, em que sentiam falta de algo mais. Para que não precisassem encontrar esse algo mais um com o outro, resolveram se ajudar. Ele apresentou um amigo a ela. Em retribuição, ela incentivou um relacionamento entre ele e sua irmã. Formavam aqueles tipos de casais que fazem tudo em parceria, muito mais um quarteto do que dois pares. Não havia cinema, jantar ou festa a que não fossem todos juntos. A sincronia era tanta que os dois namoros acabaram na mesma data. Um casal não faria sentido sem o outro.

Depois disso, não demorou para que cada um começasse uma nova vida amorosa. Ela, com um antigo companheiro de faculdade – uma daquelas paixões mal resolvidas que todo mundo tem. Ele, com a amiga de um primo – uma daquelas paixões sem amor que todo mundo precisa ter. Calhou de os novos parceiros serem extremamente ciumentos. Foi natural então que acabassem tomando rumos diferentes. A amizade esfriou e acabou sem qualquer dor. Morreu antes que fosse morta.

Ela foi trabalhar em uma nova empresa e ele foi promovido para um novo setor. Como não tinham muitos amigos ou interesses em comum, era raro se encontrarem. Sentiam falta um do outro, mas nunca se deram conta disso. Quando ela casou, até pensou em convidá-lo para o casamento, mas soube que ele estava estudando nos Estados Unidos e deixou por isso mesmo.

Um dia, já quarentão, ele se pegou pensando que podiam ter sido um casal incrível. Não dariam certo, é lógico. Mas já que até a amizade, que parecia forte, teve fim, será que não teria valido apena fazer com que a relação fosse mais curta e mais intensa? Nunca teria a resposta para isso e nunca quis ter. Os caminhos que escolheram escreveram a história por si só. Talvez, se ele não tivesse conhecido aquela garota com cabelos e temperamento de fogo nos tempos de colégio, tudo teria sido diferente. Mas agora isso já não importava mais. Vanessa – com seus cabelos, sua risada e seu olhar – tinha deixado suas marcas. Assim como toda ruiva faz na vida de um homem. Dessa vez ao menos tinha sido sem sofrimento.

 

Um namorado para a amiga

A amiga já estava encalhada há um bom tempo e ela achou que, em nome dos anos de relação entre as duas, tinha obrigação de ajudar. Foi fuçando na lista de amigos do Facebook até lembrar de alguém que fosse bonito e simpático o suficiente para fazer a amiga feliz. A missão não era nada fácil. Os poucos não cafajestes que conhecia estavam quase todos comprometidos. A única exceção era ele. Não era tão bonito quanto a amiga merecia, mas era simpático e – diziam os boatos – muito bom de cama.

Resolveu que ia apresentar os dois. Conversou com ele primeiro. Queria saber se queria alguma coisa séria da vida ou se ainda estava interessado apenas na curtição. A maioria dos homens hoje em dia toma a decisão de se comportar como adolescentes até os 30 e poucos e ela não podia correr o risco de colocar sua amiga em uma roubada dessas. Já bastava a quantidade de roubadas em que a amiga tinha se metido sozinha. Ficou feliz quando ele disse que ele estava procurando alguém para assistir um filme num sábado a noite, sem peso na consciência por estar em casa. Uma peça rara.

Resolveu chegar ao ponto central da conversa com o máximo de cuidado. Ele não podia pensar que a amiga era uma daquelas solteironas desesperadas. Por mais que fosse verdade, não cairia bem passar esse tipo de imagem. Comentou que conhecia alguém muito interessante. Que os dois combinavam em tudo. Que gostavam do mesmo estilo de música. Que tinham lido os mesmo livros. Falou também que ia sair com a amiga no próximo fim de semana e perguntou por que ele não aparecia por lá? Sem compromisso. Conhecer a amiga e ver se ela era realmente tudo o que ele imaginava. Depois podiam se adicionar no Facebook, trocar mensagens por Whatsapp e ver o que o destino reservava.

Preferiu não comentar nada com a amiga. Talvez ela se sentisse ofendida ou, pior do que isso, obrigada a ficar com ele apenas para não passar a imagem de encalhada. Ele iria até a festa e lá ela cuidaria de fazer o meio campo.

Chegado o dia do grande encontro, as coisas saíram muito melhor do que o planejado. Antes mesmo que ele chegasse, a amiga engatou um papo com um cara incrível. Era bonito, charmoso e, ao que tudo indicava, boa gente. Quando o ex-futuro namorado da amiga chegou, ela foi logo contar o ocorrido. Achou que ele ficar decepcionado, mas, ao invés disso, ele abriu um sorriso. Seu interesse era outro. Não queria saber da amiga. Queria saber da outra. E assim foi. Conversaram durante por toda aquela noite.  E por todas as noites que vieram depois disso.

Grandes amigos

Eram grandes amigos. Tanto que era até difícil explicar de onde vinha tanta cumplicidade. Sabiam se entender até mesmo sem um olhar. Não eram poucas as histórias de, estando em lugares separados, saberem exatamente o que o outro sentia. Tinham uma ligação quase sobrenatural. Pareciam até irmãos gêmeos tamanha a conexão existente entre eles.

Não é nem necessário dizer que se amavam. Não como um casal de namorados, porque para isso era preciso haver tesão. E isso não havia. Por mais queridos que fossem um para o outro, não se imaginavam na mesma cama. Até se achavam bonitos e diziam ser sortudo quem caia nas graças do outro. Mas o tipo de amor existente entre os dois não permitia que esse tipo de desejo surgisse. Tinham um amor de irmão. Mais do que isso, de mãe e filho. De pai e filha. Se cuidavam. Se aconselhavam. Brigavam sem qualquer tipo de ressentimento.

E assim foi por muitos anos. Até o dia daquela bebedeira. Como já aconteceu com muitos amigos – e como ainda vai acontecer com tantos outros – uma noite calhou de os dois estarem carentes. Depois disso, a sequência de acontecimentos tornou a tragédia ainda mais previsível. Três doses de pinga e seis latinhas de cerveja para ele. Oito latinhas de cerveja para ela. Os dois na cama dele.

Ao acordar, lado a lado, mal acreditavam naquela situação. Era impossível que aquilo fosse verdade. Im-po-ssí-vel! O pior de tudo é o quanto tinha sido bom. Talvez porque se entendessem tão bem. Talvez porque sentiam um desejo reprimido que nem eles sabiam. Não importava o motivo. Tinha sido gostoso e ponto final.

Se é mesmo verdade aquela história de que um bom namoro nada mais é do que uma grande amizade que funciona bem na cama, tinham um problema. Um grande problema. Será que estavam namorando? Ele diria que sim. Ela, que não. Resolver o impasse não seria fácil. De um dia para o outro, ele começou a ter ciúmes. Socaria tranquilamente cada pessoa com quem ela já tinha ficado.

Para ela era difícil entender o motivo de tanto desespero. Sua cabeça, muito mais masculina que a dele, não via qualquer problema em amigos transarem de vez em quando. Nunca tinha acontecido até aquele momento apenas porque não tiveram a ideia antes. Uma simples foda, por melhor que tenha sido, nunca é razão para se apaixonar.

O tempo passou e a relação entre os dois foi ficando estranha. Ele caia de amores. Ela sentia vontade de ter mais um pouco daquela noite – e apenas isso. Os dois tinham medo de estarem sozinhos juntos. A amizade era boa demais para se arriscar assim. Para não correr esse risco, começaram a se afastar. Deixaram de se ver todo final de semana. Começaram a se ligar apenas a cada três ou quatro dias. Nem mesmo pela internet estavam mais sempre conectados. Foram se desligando. Tudo o que não queriam estava acontecendo. Ao fim e ao cabo o fim chegou tão naturalmente que nem uma lagrima escorreu quando se deram conta de que o que restava eram apenas as lembranças daquela noite e de todos os dias e noites que vieram antes.