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Obituários não devem absolver os pecados

Com certeza você já reparou: sempre que morre algum político ou celebridade, os obituários costumam destacar mais as contribuições daquela pessoa à sociedade do que seus eventuais defeitos. Não importa se o sujeito é o maior corrupto da história do país ou se era um daqueles artistas arrogantes que só se preocupam em destratar empregados e fãs. No final das contas, por mais que até toquem nas questões delicadas, os obituários sempre terminam com uma cara de absolvição de pecados.

Esse modelo sempre me incomodou. E muito. Nunca vi lógica em passar a mão na cabeça de quem sempre fizemos questão de bater. É um problema cultural, eu sei, mas não faz o menor sentido.

Outro dia me senti bastante aliviado ao me deparar com um obituário que seguiu o modelinho que, acredito, todos deveriam adotar – mesmo que não tão exagerado. O jornalista Hunter Thompson nunca foi um grande fã de Richard Nixon. Pelo contrário. Os dois representavam visões de mundo completamente antagônicas. Quando Nixon morreu, em 1994, Thompson foi escolhido pela Roling Stone para escrever o obituário do ex-presidente. O resultado é de uma sinceridade que chega a ser assustadora – bem a cara de Thompson, diga-se de passagem.

Logo de cara ele avisa a que veio:

Richard Nixon se foi e eu fico mais vazio por isso. Ele era uma coisa real – um monstro político saído de Grendel e um inimigo muito perigoso. Ele poderia apertar sua mão e te apunhalar pelas costas ao mesmo tempo. Ele mentiu para seus amigos e traiu a confiança de sua família. Nem mesmo Gerald Ford, o infeliz ex-presidente que perdoou Nixon e o manteve fora da prisão, ficou imune às suas diabólicas consequências. Ford, que acredita firmemente em Céu e Inferno, disse a mais de um de seus famosos companheiros de golfe: “Eu sei que eu vou para o inferno, porque eu perdoei Richard Nixon”.

Esse é apenas o primeiro parágrafo do texto, que vai ficando mais crítico a cada linha até chegar à conclusão de que Nixon será uma marca constante na vida de todos os americanos por muitos e muitos anos. Uma marca constante e negativa, que fique bem claro. Para quem quiser ler a versão completa, o site da The Atlantic (aquele mesmo site que não gosta de pagar o serviço de seus frilas, é bom lembrar) disponibilizou o texto.

Com Sarney internado na UTI, a leitura vem bem a calhar. Ainda outro dia, vi gente criticando um jornalista que lembrou de todo o mal causado pelo ex-presidente e sua turma aos povos do Maranhão e Amapá. Segundo os críticos, o momento é delicado para a família e não é bom ficar retomando esses “detalhes”. Será?