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O medo e a imaginação

Há algum tempo escrevi aqui sobre o valor e a importância do medo. Semanas atrás me deparei com um vídeo que, assim como o texto do Castello e a conferência do Mia Couto, me fez pensar no assunto. É uma apresentação do TED (sei que estou parecendo o louco do TED, mas é que as coisas lá são muito bacanas mesmo) da escritora Karen Thompson sobre as conexões entre medo e imaginação. Vale investir 11 minutinhos do seu dia nessa palestra, viu?

Sobre corajosos e covardes

Tenho medo o tempo inteiro. E não vejo isso como um problema. Ter medo me faz mais homem. De vez em quando o medo me paralisa, é verdade. E esse é o meu maior medo: o medo do medo paralisante. Mas, mesmo quando isso acontece, me construo um pouco mais. Todo temor resulta em um novo nível. O medo vencido é um sinal de força. O medo que nos derrota é um tombo, uma fonte para novos temores que venceremos lá na frente.

Costumo dizer que corajoso não é aquele indivíduo destemido. O nome desse é idiota. Corajoso, até onde a vida me ensinou, é quem enfrenta até aquelas situações que fazem as pernas tremerem, o estômago sumir, o coração disparar e o pensamento sair do controle. Veja que a descrição do medo não está muito longe das que costumamos ler por ai sobre o amor. Medo e amor são sentimentos irmãos e costumam gerar um ao outro.

Sempre pensei muito nesse assunto. Não sou um exemplo de coragem pelos nossos padrões sociais. Quando era criança, não podia chegar perto de palhaços ou do Papai Noel. Nunca vou me esquecer da vez em que fiquei debaixo de uma mesa durante toda uma festa infantil, só porque ouvi dizer que logo chegariam uns daqueles bichos imensos ou um palhaço – não me lembro bem. Até hoje não gosto de nada disso. Não me sinto confortável na presença de gente mascarada, mas o senso de ridículo fala mais alto do que qualquer temor e não procuro mais uma mesa capaz de me esconder.

Esse não é o único medo que enfrento. Como todo mundo, passei por experiências bem piores do que estar perto de um daqueles monstruosos personagens da Disney de buffett. Enfrentei cada uma delas – mesmo que aos trancos e barrancos – e vou vencendo.

Mesmo as situações mais banais são repletas de elementos assustadores. Todos os dias penso em como será difícil se a fonte de frilas secar. Não lido bem com a ideia de não apurar uma reportagem a tempo. No campo pessoal, tenho medo de morrer solteiro. Medo de estar sendo enganado por alguém de quem gosto. Medo de decepcionar as pessoas que amo. Medo de não poder envelhecer. Mas aprendi a deixar que nenhum deles me paralise. São meus companheiros de jornada e meu combustível para que meus temores tenham como destino serem apenas temores. Sem medos, não teria planos. Não teria motivos para me mexer e superá-los.

Isso faz de mim um corajoso ou não gostar de palhaços, não poder ver um escorpião ou odiar o pouso de avião dizem mais sobre minha personalidade? Não sei. No fundo, não acredito na existência de covardes. De um jeito ou de outro, sempre encontramos formas de superar nossos temores ou aprendemos a conviver com eles.

Me lembrei de todas essas reflexões ao me deparar com esse texto de José Castello, sobre a importância do medo para quem quer escrever. Castello, com a ajuda de Mia Couto, Clarice Lispector e Jaime Ginzburg, me ajudou a entender um pouquinho mais o quanto é importante ter medo. E a me sentir muito mais confortável com meus próprios temores – de todos os tamanhos e espécies.

P.S.: Para quem quiser ver a conferência que deu origem ao texto de Mia Couto citada por José Castello, está logo abaixo. Como quase tudo que o Mia faz, vale cada segundo.

Escutar também é falar

Há pouco tempo, quando fiz um curso com a jornalista Eliane Brum, ela bateu muito na tecla de quanto é importante para o jornalista saber ouvir – não só o que é dito, mas o que fica por dizer também. Gostei da ideia, porque nunca fui daqueles jornalistas faladores. (Se você me conhecesse, deve estar me chamando de mentiroso. Mas venhamos e convenhamos: no começo de uma relação sempre sou mais calado. E os contatos com fontes costumam ser justamente esses tais começos de relação.)

Acho tão importante ouvir, que já cheguei a ficar mais de uma hora com entrevistados no telefone sem dizer nada além de “aham”. Adoro quando a entrevista caminha assim. Peço para a pessoa falar sobre tal tema e ela vai falando, naturalmente, ligando os pontos sem que eu tenha que forçar a barra em momento algum. No final, apenas faço as perguntas que eu tinha programado e não foram respondidas e as dúvidas que surgiram durante a conversa. Pronto. Rende bem mais do que se eu tentasse brigar com a pessoa, disputando quem fala mais, quem é mais inteligente, e apresentando teses e contrateses com as quais fonte muitas vezes concorda apenas para poder seguir com seu raciocínio. Pois é. Tem repórter que faz isso e não é um, nem são dois. Já vi vários – e eles costumam se achar ótimos entrevistadores.

Para esses, fica a dica: no livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo, do escritor moçambicano Mia Couto, um dos personagens – um político chamado Suacelência – diz, lá pelas tantas, que “escutar também é falar”. Achei a frase linda e tenho ela marcada em um post-it em cima de minha cama, para que jamais me esqueça dessa lição. Foi só depois de ler e entender isso que resolvi me assumir como um escutador e defender a importância que isso pode ter para minha profissão.

Que tenhamos um jornalismo com mais escutadores do que faladores!

(Se não conhece o trabalho de Eliane Brum, recomendo os textos dela no site da revista Época e os livros de reportagem O Olho da Rua, A Vida que Ninguém Vê e a ficção Uma Duas. Se ainda não se encantou, não perca a oportunidade de se encantar com a sensibilidade do texto dela, que é a melhor e mais premiada jornalista do Brasil atualmente.)

(Se quer saber mais sobre Mia Couto, veja esta participação dele em uma conferência em Portugal, falando sobre o medo. Os livros, não me arrisco a indicar uns poucos. Leia todos que encontrar e mais os contos que encontrar por aí.)