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Quando o jornalismo deve pedir desculpas?

O jornalismo, como qualquer outra atividade, às vezes erra – muitas vezes, para falar a verdade. No jargão, conhecemos essas falhas como “barrigas” e, acredite, elas acontecem muito mais do que você imagina. Na maioria dos casos são pequenas e não provocam grandes danos ou repercussão. Um nome trocado ou uma inversão na ordem dos dados. Algumas vezes, porém, o impacto é grande. Informações que afetam resultados de bolsas de valores ou que colocam a população em estado de alerta desnecessariamente. A chance disso acontecer é maior na cobertura de grandes tragédias, como os atentados na maratona de Boston. Nessa hora, a redação fica tomada por uma adrenalina tão grande que é difícil separar o certo do errado. É ai que se escolhe uma foto de mau gosto. Ou pior do que isso, é ai que se dá uma barrigada incrível.

Foi o que aconteceu com o New York Post, que deu uma capa acusando dois inocentes de terem cometido o atentado. O erro foi apenas o auge de uma sequência de falhas de apuração que começou com a informação de que 12 pessoas haviam sido mortas nas explosões, quando na realidade foram 3 vítimas fatais. Mediante tantas falhas, qual foi a resposta dos editores do jornal? Nenhuma.

O silêncio fez tanto barulho que um site independente resolveu fazer o que a equipe jornal deveria ter feito. O resultado pode ser visto no vídeo abaixo:

Para ler a carta que eles colocaram no meio dos jornais, clique aqui.

A pergunta que fica é: quando um veículo de comunicação deve pedir desculpas pelos erros cometidos? Não falo apenas dos nomes digitados errados ou das óbvias falhas de pensamento. Esses são males menores e, em alguns casos, até engraçados. Prova disso é essa seleção feita pela Folha dos “melhores” erros de sua história.

O que eu falo é dos erros de apuração, que induzem o leitor ao erro e, em alguns casos, ao pânico. A publicação da foto de um inocente como se fosse o culpado pelos atentados é um erro grave, que mexe com a vida e a cabeça de milhões de pessoas. É uma pena que o jornalismo só tenha por hábito pedir desculpas nos momentos mais fáceis – ou então quando é acionado por uma fonte raivosa. É grave também o fato de as correções ficarem sempre restritas a um pequeno cantinho despercebido no  pé de alguma página pouco lida. Raros são os casos em que a errata ocupa o mesmo espaço da notícia. Bem que podíamos seguir o exemplo do Diário de Teófilo Otoni mais vezes.

Grávida que sobreviveu a acidente está viva

Um raro caso de jornal que assume uma falha de apuração

Jornalismo ou morbidez?

Como sempre acontece em casos assim, a cobertura jornalística das explosões em Boston tem causado polêmica. Quando se envolve a vida de tanta gente, às vezes fica difícil para o jornalismo não escorregar para a morbidez – e às vezes é até fácil, mas não nos esforçamos o suficiente para escapar dessa armadilha. É justamente disso que muitos espanhóis tem acusado o jornal El País, um dos mais importantes do mundo. Nas redes sociais, começou um forte movimento de reação logo depois que o jornalão espanhol publicou a foto de um homem que perdeu a perna durante a maratona.

No blog 233grados, quem faz a defesa da atitude do El País é Carlos Salas, ex-editor-chefe da editoria de Internacional do El Mundo. Segundo ele, em algumas situações, o jornalismo tem até a obrigação de apresentar imagens fortes:

É o debate que sempre surge nesses casos. (…) Quando fui editor-chefe da editoria de Internacional do El Mundo, me deparei com muitas imagens parecidas e piores e sempre tínhamos dúvidas se era conveniente publicá-las. (…) A OTAN interveio em 1999 na Iugoslávia graças a imprensa ter publicado fotos espantosas do massacres que estavam sendo cometidos contra os kosovares. (…) A opinião pública se converte em uma enorme força de pressão aos governos quando conhece esses dramas, o mesmo que aconteceu na Somália, na Chechenia e em Ruanda

Eu, particularmente, concordo com a visão de Salas. Acho, porém, que nem todo caso justifica essa publicação. Nas explosões de Boston, por exemplo, não temos nenhuma guerra em curso que a publicação de imagens possa ajudar a frear. É exatamente o mesmo que aconteceu na cobertura do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria. Não havia qualquer necessidade de se montar uma cópia fiel da boate ou de se contar quantos anos de vida foram desperdiçados pela tragédia. Nesses casos, o que resta é somente a morbidez.