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O teólogo e o taxista

19, março, 2013 Gabriel Ferreira 1 comentário

Ontem tive a oportunidade de acompanhar de perto a transmissão do Roda Viva. O entrevistado do dia era o teólogo Leonardo Boff, um dos grandes nomes da Teologia da Libertação, que falou sobre a escolha de Jorge Mario Bergoglio para comandar a Igreja e sobre os rumos que o catolicismo deve tomar a partir disso. Saí do estúdio muito impressionado com Boff. Já conhecia suas ideias, mas vê-lo de perto defendendo uma Igreja muito mais progressista do que a que temos hoje foi ótimo. Impressionante o quanto ele está animado com todo o simbolismo envolvido na eleição do papa Francisco. Boff acredita realmente que a defesa da Igreja pobre para os pobres será levada a cabo pelo novo pontífice e que isso representará grandes mudanças na estrutura da Igreja.

Durante a hora e meia de programa, Boff demonstrou ter muita clareza de pensamento e saber exatamente qual é a Igreja que pretende. Nesse ponto, chegou a criticar o próprio irmão, Clodovis Boff, também teólogo, a quem chamou de contraditório e acusou ter se afastado do que mais importa: o contato com as bases da instituição.

A firmeza teórica de Boff não me espanta. Com uma extensa bibliografia e anos de trabalho dedicados ao estudo da teologia, era de se esperar que Boff tivesse, de fato, uma visão clara sobre o que a Igreja precisa. O que me surpreendeu foi o que aconteceu logo depois do programa. Voltando da TV Cultura para minha casa, não pude deixar de reparar no crucifixo preso no retrovisor do táxi em que estava. Perguntei ao motorista, um senhor de pouco mais de 60 anos, se era católico praticante e o que pensava de Francisco.

Mesmo sem a riqueza teórica de Boff, o taxista me disse as mesmas coisas. Falou da alegria de ver um papa que pensava nos pobres. Que acreditava que tudo ia além do simbolismo. Que tinha certeza de que grandes mudanças viriam pela frente. Assim como os entrevistadores do Roda Viva, perguntei o que ele achava do fato de Bergoglio ter sido contra diversas reformas progressistas na Argentina. De novo, não vi grandes diferenças entre o taxista e o teólogo. Os dois disseram, cada um a seu modo, que o papa ter posições pessoais conservadoras não significa que ele não veja a necessidade da Igreja se modernizar.

Ao sair do carro entendi, finalmente, porque, no último bloco do programa, Boff demonstrou tanta certeza de que o futuro da Igreja deveria estar nas mãos dos leigos. Só quem sente a fé e as necessidades do mundo real ao mesmo tempo pode entender o que precisa a Igreja.

 

O novo Papa é mocinho ou vilão?

Mal terminou de sair a fumaça branca da chaminé da Capela Sistina e as redes sociais já entraram na profunda divisão de costume. De um lado, aqueles que veem a escolha de um sulamericano como uma grande evolução para a Igreja. De outro, os que apontam todos os defeitos mundanos e espirituais do cardeal Jorge Mario Bergoglio. De um lado aqueles que apontam Francisco I como um legitimo pai-dos-pobres, um homem humilde e trabalhador. Do outro, os que o acusam de ser homofóbico e conservador ao extremo. Até mesmo a participação de Bergoglio durante o regime militar argentino é alvo de debate. Há quem diga que ele foi amigo dos ditadores. Outros garantem que ele batalhou pelo fim do governo de exceção.

Não vi de perto o trabalho de Bergoglio em Buenos Aires, então não posso opinar. Sobre sua postura como Francisco I, ainda não temos absolutamente nada a dizer, além de que ele foi muito simpático em sua primeira saudação e que, definitivamente, tem cara de Papa.

O que me incomoda – e não é só nesse conclave, mas em tudo que diz respeito a religião, política e futebol – é esse eterno clima de Fla Flu. Parece que sempre estamos ligados na novela das nove, acompanhando cada movimento da mocinha e do vilão. Talvez seja uma necessidade humana, já que é difícil encarar que somos feitos de nuances. Mas temos que ser adultos e saber que as coisas não podem ser assim. Ultimamente, nem nas novelas as mocinhas são sempre boas e os vilões sempre terríveis. Se até Cristina Kichner, presidente da Argentina que vivia às turras com o cardeal Bergoglio, o saudou pela eleição e desejou sorte, porque nós, que nada temos a ver com a história temos que tomar um partido tão bem definido?

Não há dúvidas de que Francisco I é conservador. Bastante, até. Mas a Igreja é conservadora – e assim deve continuar. Ninguém é obrigado a seguir uma religião – eu mesmo optei por não seguir. Esperar que fosse eleito um papa modernoso, defensor do aborto e do casamento gay é uma bobagem de quem não entende como as coisas funcionam. Se essas são suas ideias, exija isso do seu deputado, não do Papa. A função dele é justamente zelar pelos dogmas da Igreja. Para demonstrar isso, nada melhor do que um twitte que vi circulando por ai. É irônico e engraçado, mas resume bem o que penso.

 

Ao invés disso, o que espero de Francisco I é que ele livre a Igreja daquilo que não deveria pertencer a ela: os casos de pedofilia, as suspeitas de corrupção, o uso da fé como justificativa para o preconceito. O resto é resto e pode ser “resolvido” em seu devido tempo.