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Existe vida sem internet?

Não sei vocês, mas eu já pensei diversas vezes em viver sem internet. Tenho minhas dúvidas sobre os benefícios que essa avalanche de informações possa ter em nossas vidas e acho que seria muito agradável passar pelo menos um tempo longe de tudo isso.

Nunca tive coragem de levar o plano adiante. Mas o americano Paul Miller teve. Ele ficou exatamente um ano sem se conectar. O resultado você pode ler no artigo que ele publicou no site The Verge, que acompanhou a jornada. Para quem não lê inglês ou está com preguiça de ler tudo, adianto que a experiência foi bem diferente do que Paul e eu imaginávamos que seria. A maior produtividade durou pouco tempo e logo foi substituída por novas formas de procrastinação, agora no mundo offline. Além disso, as relações sociais se tornaram mais difíceis. Destaco um trecho do texto:

Mas sem a internet, certamente é muito mais difícil encontrar gente. Telefonar é mais difícil do que enviar um e-mail. É mais simples enviar um SMS, usar o SnapChat ou o FaceTime do que ir até a casa de alguém.Não que esses obstáculos não possam ser superados. Eu os superei no início, mas isso não durou.

Para mim está ai a grande vantagem da internet. Diferentemente do que costumamos pensar, estar online não nos deixa acomodados e com uma proximidade superficial. Os e-mails, redes sociais e celulares nos fazem manter relações que, de outra forma, já teriam acabado. Pense em seu próprio círculo de amigos. Quantas pessoas já não teriam ficado pelo caminho se você não os tivesse encontrado no Facebook ou no quase falecido Orkut?

Toda essa reflexão me fez pensar em como algumas pessoas conseguem, de fato, viver desconectadas por opção – e não só por um ano. Tudo bem que, em geral, é um pessoal de mais idade. De qualquer forma, muitos deles são gente ativa, que seguem no mercado profissional e poderiam – e até deveriam – estar conectados.

Cito o exemplo de Mino Carta. Jornalista lendário, fundador de diversos veículos importantes da mídia brasileira, ele nunca se rendeu aos computadores. Costuma dizer que as máquinas engolem os homens sem que eles reparem. Me lembrei disso ao ver essa foto que está ai embaixo, do velho Mino aprovando a capa da nova CartaCapital, que chega hoje às bancas com grandes mudanças. A revista pode até vir remodelada, mas os editoriais de Mino certamente continuarão a ser escritos na Olivetti que aparece no canto da imagem.

Respeito a opção de Mino e tenho certeza de que ele não é menos inteligente do que seria caso acesse o Facebook ou tivesse uma conta no Twitter. Mas também acho uma coisa: sem Mino conectado, tanto ele como a internet saem perdendo.

Mino Carta e a nova CartaCapital - em uma sala sem computador

Documentários em tempos de internet

Todo mundo está tentando encontrar um caminho para fazer o jornalismo aproveitar o máximo possível das ferramentas apresentadas pela internet. As possibilidades são muitas e os resultados benéficos para todos – empresas, que ganham uma sobrevida; jornalistas, que ganham novas formas de contar histórias; leitores, que têm a oportunidade de aprofundar seus conhecimentos sobre determinados temas.

Umas das últimas iniciativas que vi nesse sentido foi esta reportagem da BBC. A junção de vídeos e gráficos me parece interessante, mas ainda há algumas coisas que me deixam bastante incomodado com o projeto. Falta aparar algumas arestas e tornar a coisa ainda mais interativa. Natural, já que eles mesmo dizem que ainda estão na faze beta dessa linguagem e pedem sugestões de melhorias.

A iniciativa me fez lembrar de um projeto desenvolvido pela Agência Brasil, no auge do bom trabalho realizado lá por gente da qualidade de Eugênio Bucci e André Deak. O projeto é o Nação Palmares. Procurei o link, mas tudo indica que não está mais no ar (mais um sinal de que o trabalho da Agência, que parecia tão promissor nos primeiros anos do governo Lula, acabou descambando nos últimos tempos). Nação Palmares era um documentário hipermidiático, que buscava tirar o melhor proveito de cada forma de se contar notícia. Quem quiser imaginar um pouquinho melhor como isso funcionava, é só dar uma olhada no “making off” feito pelo Deak.

Outro projeto muito bacana de documentário digital é o Out My Window, uma reportagem que envolveu gente no mundo inteiro. Em uma série de vídeos, pessoas falam sobre os vários aspectos de se viver em prédios em uma grande cidade, principalmente do sentido comunitário que isso envolve – ou, ao menos, deveria envolver. Out My Window poderia ser um documentário tradicional, de 90 minutos, tempo total dos vídeos apresentados. Seria lindo e impactante, porque as histórias propiciam isso. Mas, ao invés de se contentar com a tradição, os autores acharam melhor nos permitir encontrar nossos caminhos, decidindo em quais apartamentos vamos entrar e que parte da vida dessas pessoas queremos saber. Os autores chamam de “documentário 360º”. Seja qual for o nome, é uma experiência riquíssima como só a internet pode nos proporcionar.