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Textos com Etiquetas ‘incêndio na boate Kiss’

Jornalismo ou morbidez?

Como sempre acontece em casos assim, a cobertura jornalística das explosões em Boston tem causado polêmica. Quando se envolve a vida de tanta gente, às vezes fica difícil para o jornalismo não escorregar para a morbidez – e às vezes é até fácil, mas não nos esforçamos o suficiente para escapar dessa armadilha. É justamente disso que muitos espanhóis tem acusado o jornal El País, um dos mais importantes do mundo. Nas redes sociais, começou um forte movimento de reação logo depois que o jornalão espanhol publicou a foto de um homem que perdeu a perna durante a maratona.

No blog 233grados, quem faz a defesa da atitude do El País é Carlos Salas, ex-editor-chefe da editoria de Internacional do El Mundo. Segundo ele, em algumas situações, o jornalismo tem até a obrigação de apresentar imagens fortes:

É o debate que sempre surge nesses casos. (…) Quando fui editor-chefe da editoria de Internacional do El Mundo, me deparei com muitas imagens parecidas e piores e sempre tínhamos dúvidas se era conveniente publicá-las. (…) A OTAN interveio em 1999 na Iugoslávia graças a imprensa ter publicado fotos espantosas do massacres que estavam sendo cometidos contra os kosovares. (…) A opinião pública se converte em uma enorme força de pressão aos governos quando conhece esses dramas, o mesmo que aconteceu na Somália, na Chechenia e em Ruanda

Eu, particularmente, concordo com a visão de Salas. Acho, porém, que nem todo caso justifica essa publicação. Nas explosões de Boston, por exemplo, não temos nenhuma guerra em curso que a publicação de imagens possa ajudar a frear. É exatamente o mesmo que aconteceu na cobertura do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria. Não havia qualquer necessidade de se montar uma cópia fiel da boate ou de se contar quantos anos de vida foram desperdiçados pela tragédia. Nesses casos, o que resta é somente a morbidez.