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Questão de vocação

Ainda estava no primeiro ano da faculdade quando, meio sem querer, descobriu sua verdadeira vocação. Estava passeando pelo centro da cidade quando entrou em um bar qualquer. Como sempre, não fez muita questão de escolher. Queria apenas um lugar para sentar em que pudesse acompanhar o movimento da rua e tivesse uma boa cerveja gelada para beber. Se tinha uma coisa de que gostava nessa vida era ver o movimento das ruas do centro. Sempre soube disso, mas nunca havia reparado que aquilo poderia ser uma espécie de dom. Foi só quando olhou para o velho sentado ao seu lado, tomando uma cerveja e olhando para os próprios pés que se tocou como tinha gente incapaz de reparar no alheio.

Ele não. Ao contrário do ser humano padrão, reparava muito mais no alheio do que em si. Não tinha vontade de fazer trabalhos voluntários na África e nem mesmo no morro que desafiava a burguesia do bairro onde nasceu. Seu negócio era outro. Não queria ajudar ninguém. Mal conseguia ajudar a si mesmo. O que o movia era uma curiosidade incrível sobre a vida do próximo – e sobre a do anterior também.

Apesar de curioso, nunca teve coragem de perguntar nada para ninguém. Via uma mulher passando em sua frente e criava toda uma história para ela. Mãe de dois filhos, tinha sido largada pelo marido e teve que, aos 37, começar a trabalhar para sustentar a casa sozinha. Arranjou um emprego de secretária e virou amante do chefe.

Talvez nada disso fosse verdade. Talvez ela vivesse um casamento feliz e nem tivesse filhos, tipo um comercial de margarina sem crianças. Ele não se importava com isso. Não queria saber a história real daquela mulher. Queria saber cada detalhe da história da mulher que criou. Aquela casada, sem filhos e feliz, era apenas um corpo para a divorciada que se envolveu com o chefe na esperança de garantir o futuro das crianças.

E, assim, fazia com cada um que passasse perante sua mesa. O careca era impotente. A novinha estava preocupada em como esconder do pai que já tinha transado. O moleque de boné e piercing procurava uma história fantástica para contar para os amigos sobre seu envolvimento com a loirinha do trabalho.

Sentado, naquela mesa suja de um bar sujo, ele finalmente reparou que era um tecedor de vidas. Criava sem dó nem piedade e para isso não tirava o olho da verdade de cada um que passava a sua frente. Não tinha um bloquinho de anotações porque nunca foi sua pretensão contar nada aquilo para quem quer que fosse. Eram histórias muito íntimas, que diziam apenas respeito àquelas pessoas – e a ele.  A primeira cerveja já estava quente quando ele finalmente se rendeu ao próprio dom. Tinha um pouco de medo do que estava fazendo, mas sabia que era o certo. A partir daquele dia, seria um observador profissional. Não que alguém estivesse disposto a pagar por esse tipo de trabalho – ele era realista demais para ter essa esperança. Seria um observador profissional voluntário. Todo dia acordaria cedo, assim que o primeiro bar aceitasse servir um copo de pinga ou de cerveja e ficaria lá até não ter mais histórias para descobrir. A jornada de trabalho seria longa e a recompensa financeira, nenhuma. Um verdadeiro sacrifício em nome de sua vocação. Quando tomou a decisão não tinha ideia de como ia sustentar o próprio dom. Foi para a faculdade trancar a matrícula e voltou para o bar decidir.

Hoje, quarenta e dois anos depois, ninguém sabe ao certo qual foi a fórmula que ele descobriu. O que se sabe – e isso eu descobri da mesma forma que ele, só de observar – é que ele está lá a todo esse tempo, feliz por ser um dos poucos com direito a seguir a própria vocação.

 

Sem qualquer lamentação

Entrou no ônibus cansado de um dia de trabalho em que nada deu certo. O chefe, aquela mula, parecia ter o prazer de atrapalhar tudo. Tinha dúvidas de se aquilo tudo era maldade ou a mais pura incompetência. Seja como for, sabia que a situação era insustentável. Mais cedo ou mais tarde ia ter que pedir demissão. Com dois filhos nas costas, era difícil fazer isso sem ter nada na manga, mas talvez fosse a única alternativa.

Estava com a cabeça longe, de pé perto da porta mais distante, quando não reparou a entrada de dois meninos no ônibus. Eles entraram por trás, como faz quem convence o motorista a dar uma carona ou a permitir que se venda alguma coisa aos passageiros. São poucos os motoristas que fazem isso hoje em dia, preocupados com a manutenção da própria existência. Aquele, porém, era um dos que põem o coração acima de si mesmo e permitiu que os dois moleques embarcassem pela porta de traz.

O mais novo não passava dos 9 anos. O mais velho, se tinha 12, havia feito aniversário por aqueles dias. O homem não percebeu a entrada dos dois e não percebeu também que o menor – que era o mais velho – carregava na mão um pandeiro.

Aquela dupla não ia vender balas, água e nem descascador de batata. Tampouco estavam lá apenas pela carona. Foi só na primeira gargalhada geral que o homem reparou na existência das duas crianças. Reparou também, logo de cara, o que eles estavam fazendo ali.

Zé Biscoito e João Bolacha, como se apresentaram pouco antes de homem saber de suas existências, eram repentistas. Apesar da pouca idade – ou talvez até por isso – os dois tinham o dom de encantar o público. Mal terminavam o verso e a risada se espalhava do motorista ao último passageiro. A coisa era tão contagiante que até a velhinha surda do primeiro banco e o menino com fones de ouvido sentado lá no fundo riam gostosamente – mesmo sem saber ao certo o que a duplinha tinha acabado de cantar.

A imagem e o gesto dos dois eram engraçados por si só. Eles tinham talento. Tanto que, ao se deparar com os dois, o homem desistiu de seus próprios problemas. Pensou em como devia ser sofrida a vida daqueles moleques e que mesmo assim eles tinham a capacidade de fazer um monte de gente gargalhar. Talvez fossem órfãos. Provavelmente não iam à escola. Não era pequena a chance de que apanhassem de um padrasto cruel ou que uma madrasta de contos de fada os obrigasse a estar ali. Naqueles poucos minutos, todos os preconceitos que existem contra a população que ganha a vida nas ruas serviram para tornar ainda mais terna a figura daqueles dois. Pobres meninos sofridos. Quem sou eu para reclamar de um chefe tosco quando há tanta gente com motivos tão grandes para reclamar que acaba se contentando em se conformar?

Se distraiu tanto na filosofia barata que acabou por deixar o ponto passar. Não protestou, como faria normalmente, e nem tentou culpar ninguém pelo próprio erro. Deu o sinal e desceu no próximo. A rua estava escura e quando correu para atravessar, ainda com a história que criou para os meninos na cabeça, não viu o carro que rasgava a pista. O impacto foi imediato e a morte, diferente de toda a vida, veio sem qualquer lamentação.