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A fórmula secreta da felicidade

31, dezembro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

Nunca fui um grande fã de finais de ano. Essa sensação de que tudo pode mudar de um minuto para o outro simplesmente porque alguém determinou que aquele era um momento de passagem me deixa tenso, por mais que eu saiba que tudo isso é uma grande bobagem. A obrigação de fazer um balanço de tudo o que vivi nos últimos doze meses e preparar planos incríveis para os próximos doze é muita pressão sobre meus ombros. É como se tivéssemos a necessidade de, nessa época, encontrar a fórmula secreta da felicidade. Mas mesmo assim não resisto e sempre resolvo fazer esses balanços, buscar esse caminho. Descubro o que poderia ter sido melhor, em que momentos acertei e em que pontos terei que me esforçar muito para que o próximo ano seja tão incrível quanto sempre sonho.

Eis que, ao fazer o tal balanço deste 2013, me dei conta de que tive um dos anos mais bacanas da minha vida. Não falo com o saudosismo ou o otimismo que costumam marcar essas épocas do ano, mas com o realismo de quem, realmente, não tem muito do que reclamar. Me lembro de, nos últimos dias de 2012, ter pedido que o próximo ano fosse mais tranquilo, sem tantos sobressaltos e motivos para me estressar. O ano que estava acabando não tinha sido nada fácil em diversos aspectos e tudo o que eu queria era inaugurar uma nova fase, em que eu me enxergasse e realizasse.

Foi basicamente isso o que aconteceu. No campo pessoal, troquei algumas reticências por pontos finais. Profissionalmente, sai de um emprego que não me satisfazia mais e me aventurei na vida de freelancer. Nada disso foi fácil. A sensação de frio na barriga foi uma constante. Apesar disso, sobrevivi. Mais do que isso – vivi. Tive aquela sensação que só alguém que já se sentiu livre na vida sabe explicar como é. Pude fazer coisas que me agradavam. Ter a plena impressão de que muitos sonhos poderiam sair do papel – e ver alguns deles ganhando forma. Encontrar amigos que eu não via há muito tempo. Ver filmes que há muito queria assistir. Enfim, pela primeira vez em tantos anos pude por em prática minha filosofia de que a vida e os desejos não precisam ser coisas tão opostas.

Este foi o ano em que me aprofundei no velho sonho de escrever ficção. Foi o ano em que resolvi tirar a poeira daquela antiga ideia de ser ator. Foi o ano em que me entreguei mais profundamente às pequenas coisas da vida. Pode ser – e é muito provável – que tudo isso que dei início em 2013 jamais me renda frutos financeiros. Mas não importa. Esses pequenos atos já me renderam frutos pessoais e sentimentais capazes de pagar qualquer buraco na conta corrente.

E agora, com 2014 batendo à porta, pela primeira vez não tenho medo do que o futuro pode me reservar. Este ano minha única resolução é não ter resoluções. Nada de prometer entrar para a academia ou de não deixar livros pela metade. No lugar disso, seguirei minha vida da forma mais livre possível. Tomando decisões apenas quando elas têm que ser tomadas. Deixando para sofrer apenas no momento em que isto for inevitável. Funcionou em 2013 – apesar de eu ainda ter tido algumas recaídas de ansiedade extrema, admito – e há de funcionar em 2014. E se não der certo, ainda terei 2015, 2016, 2017 e muitos outros anos para encontrar a fórmula secreta.

 

Faça boa arte!

Ontem a noite uma amiga me encaminhou o vídeo que está no final desse post. É um discurso do autor e quadrinista Neil Gaiman para a turma de graduandos da University of the Arts em 2012. Gaiman fala sobre muitas e muitas questões que tem me tocado ultimamente – até onde eu sei, a muitos de vocês também. Ele fala sobre as dificuldades e vantagens da vida de freelancer, sobre ter objetivos e querer fazer uma carreira, sobre conselhos que recebeu e não seguiu. Acho que o mais importante, porém, está logo no comecinho. É quando Gaiman fala da importância de saber onde quer chegar, saber se imaginar no futuro. Pode parecer simples, mas não é. Essa decisão é a que determina todo o resto da sua vida. É a partir dela que se escolhe o caminho que quer tomar e é ela que deve guiar cada uma das suas decisões.

Melhor o Gaiman falar sobre isso. Assista o vídeo e, eu garanto, os 20 minutos que você vai investir nisso, vão ser recompensados.

Essa vida de frila

Tem mais ou menos um mês que sai de meu último emprego. Desde então, venho trabalhando como freelancer – e estou muito feliz com isso. Quem é jornalista sabe o quanto está difícil viver em uma redação. O stress beira níveis absurdos e a estabilidade é uma lenda. A maioria absoluta dos empregadores prefere beber um copo de Ades de maçã do que pagar direitos trabalhistas. Isso é parte dos motivos que me levam a ter tanta satisfação com a “nova vida”, mas tem muito mais.

Acho que o que mais me encanta é a sensação de liberdade. Posso organizar minha agenda conforme for mais conveniente. Também não sou obrigado a fazer “cena” nos momentos em que não tenho nada para apurar ou escrever. Ao invés de fingir que continuo a trabalhar enquanto atualizo meu Facebook, posso muito bem pegar uma revista e ler uma ou duas reportagens. Isso para não falar na possibilidade de escolher se vou trabalhar de manhã, de tarde ou de noite e na de tratar de assuntos absolutamente novos todos os dias – nesse um mês, já falei de agronegócio, trabalho social, culinária, ferrovias…

Sei que nem tudo são flores. Já tive outra encarnação como frila e o fim do ano foi de secura quase absoluta. Não me iludo pensando que sempre vou ter trabalho sobrando. Mas essa perspectiva não me deixa mais tão assustado. É lógico que preciso de dinheiro para viver, mas com um pouco de planejamento os meses de vacas mais gordas ajudam a manter os meses mais fracos.

O mais importante de tudo é que logo comecei a sentir alguns efeitos dessa nova opção de carreira. Um dos principais é este blog. Estou mais criativo ultimamente e tudo o que vocês leem aqui é resultado direto disso – e também do fato de eu poder parar e escrever esse tipo de coisa quase que a qualquer hora. Também tenho conseguido programar e preparar melhor alguns projetos pessoais. São coisas pequenas, mas que certamente vão me dar uma grande satisfação pessoal.

Não sei por quanto tempo toda essa alegria com a vida de freelancer vai durar. Pode ser que acabe logo ou que fique para sempre. O que importa é que, enquanto ela existir, não vou encarar o fato de ser frila como uma falta de opção, mas sim como a minha opção. E isso, eu garanto, não é pouca coisa.

 

Não tem dinheiro, mas tem nossa audiência

Que a vida de jornalista freelancer não é fácil acho que todo mundo sabe. Mas tem horas em que simplesmente o que nos resta é perder a fé na humanidade. Exemplo disso é essa história que o jornalista americano Nate Thayer contou em seu blog.  Para quem não conhece, Thayer é um grande jornalista investigativo e uma das referências quando o assunto é trabalho como freelancer.

Resumindo a história, o super premiado Thayer foi abordado pela editora da Atlantic Magazine. A proposta? Que a revista publicasse um texto de Thayer sobre as relações diplomáticas entre Estados Unidos e Coreia do Norte. O que ele receberia em troca? A audiência de 13 milhões de leitores da Atlantic. E nada mais. Nem um centavo de dólar ou de won norte-coreano.

Quem está batalhando nessa vida, já deve ter visto inúmeros sites pedindo o apoio gratuito de redatores. Não bastasse os calotes a que todo frila está sujeito ao longo da vida, temos que ver esse tipo de coisa por ai. Nenhum jornalista jamais deveria ser abordado com esse tipo de proposta – e, quando fosse, jamais deveria aceitar. Mas o fato de um nome como Thayer receber esse tipo de proposta é um indicativo de quão fundo a crise do jornalismo pôde chegar.

Como jornais, sites e revistas pretendem manter a qualidade de seus produtos com esse tipo de política? Aliás, será que eles de fato pretendem manter a qualidade de seus produtos ou estão apenas preocupado em sobreviver enquanto há tempo?

Sobre a vida de frila

No post em que comentei meu texto no Novo em Folha, fiquei de compartilhar mais um pouco de minhas experiências aqui com vocês.

Hoje, queria falar um pouquinho sobre a vida de frila.

Sempre me senti atraído pela possibilidade de viver como freelancer. Via nisso uma liberdade total e a chance de escrever só sobre coisas que gosto. A prática se mostrou bem mais difícil que a teoria (como sempre, aliás), mas mesmo assim muito compensadora.

A decisão de cair nesse mundo se deu em um momento bem complicado. Não estava satisfeito com meu trabalho e ir para a redação era uma atitude cada vez mais penosa. Os fatores que provocavam isso não vêm ao caso, porém quem já enfrentou essa desilusão com algum emprego sabe bem como é levantar e não ter a mínima vontade de sair da cama para ir trabalhar. Resolvi acabar com isso antes que minha saúde começasse a se prejudicar. Me planejei e estabeleci um cronograma para comprar minha “carta de alforria”.

Fiz isso no dia 10 de novembro de 2011, véspera do meu aniversário. Naquele dia me senti leve como poucas vezes. Era uma quinta-feira. Na sexta, eu comemoraria meu aniversário. Depois vinha o fim de semana e só na segunda eu ia ter que pensar no meu futuro.

Esse foi meu maior erro. Eu já deveria ter pensado no futuro antes mesmo de pedir demissão. Não deveria ter feito apenas o planejamento financeiro, mas também o de trabalho.

Hoje eu sei que a maior dificuldade para quem está na vida de freelancer é conseguir trabalhos de qualidade. Para isso é preciso ter contatos ou cara de pau o suficiente para bater na mesma porta mil vezes. Antes de emplacar os primeiros trabalhos, isso é ainda mais difícil, mas nada impede que os resultados apareçam.

Tive a sorte de conseguir muitas coisas no meio do caminho. Praticamente não fiquei sem trabalhar e pude fazer coisas tão diferentes quanto escrever para a Sou Mais Eu! e a Brasileiros. Mas nem tudo paga tão bem quanto a gente merece e nem sempre é possível encontrar aquele frila tão prazeroso quanto esperamos.

O tempo que passei como frila foi relativamente curto, mas aprendi muito. Primeiro, descobri que existiam muitos mundinhos além dos que eu estava acostumado. Na mesma semana, tinha que lidar com esquemas completamente de chefias e de fechamento. Também aprendi a dar mais valor ao meu trabalho. Descobri qualidades que não conhecia e defeitos que fingia não ver. Mas, acima de tudo, aprendi algumas coisas que não devo fazer se, no futuro, resolver ou precisar tentar essa vida de novo (e esse conhecimento, talvez seja o mais valioso de todos).

A dica que dou para quem quer seguir esse caminho é “se arrisque, mas com segurança”. Se cerque de cuidados para os meses de baixa, para os calotes e para o começo, quando ainda pouca gente te conhece. Mas não deixe que esses cuidados te deixe sem ação. Como diria o velho ditado: “vai e arrasa!” ;)