Arquivo

Textos com Etiquetas ‘escutar’

Uma boa história para contar

De tudo o que já fiz profissionalmente, talvez uma das coisas que mais tenha me dado prazer foi falar da vida alheia. Não vá pensando que eu já tenha trabalhado como jornalista de fofoca. Trabalharia tranquilamente, mas não é bem sobre isso que estou falando.

Gosto de escrever perfis de gente interessante, que tenha boas histórias para contar – tecnicamente, todo mundo. O que mais fascina nessa atividade é poder perder um tempinho ouvindo o que a pessoa tem para me contar. Não é a toa que esse blog se chama O Escutador. Tenho um prazer imenso em escutar histórias alheias.

Foi assim que fiz alguns dos meus textos mais legais. O perfil da dona Célia, que encontrei nas ruas de Curitiba, por exemplo. Ou então a história do herdeiro da família Setúbal, que resolveu ser pediatra ao invés de banqueiro (fui para a pauta sem saber que ia voltar com um perfilzinho em mãos e, no final, tinha uma história muito bacaninha para complementar a notícia sobre o crescimento do hospital). Foi assim também que descobri muitas histórias que nunca tive tempo ou espaço para contar – quem sabe um dia…

Até quando escrevo ficção, na verdade estou perfilando alguém. Ouvir e ver as pessoas foi o que me fez criar minhas histórias favoritas. A menina com vinte e poucos é um resumo de várias amigas minhas. Os meninos repentistas já pegaram ônibus comigo. E muitos outros que cruzam meu caminho aparecerão por aqui e ali, em histórias de verdade ou quase.

Aprender a contar essas histórias sem machucar ninguém talvez seja o grande desafio. Pouca gente gosta de se olhar no espelho. E ler sobre si mesmo é como olhar no espelho do elevador: às vezes acaba trazendo a tona pequenos – ou grandes – defeitinhos. Sempre imagino qual terá sido a reação de Frank Sinatra ao ler o perfil que o genial Gay Talese escreveu sobre ele. Não cabe aos jornalistas, contudo, pensarmos muito nisso. Temos unicamente que procurar ser honestos conosco, com os perfilados e, principalmente, com os leitores.

Se você chegou até aqui, talvez esteja pensando por que resolvi escrever esse texto. O motivo verdadeiro eu não conto, mas te garanto que vem coisa boa por ai… Aguardem!

O que aprendi com Célia

Na última semana tive o prazer de receber em casa alguns exemplares da jornal Cândido, editado pela Biblioteca Pública do Paraná. A alegria de ter em mãos um jornalzinho pequeno e desconhecido se justifica. As páginas dez e onze estão preenchidas com um texto que apurei e escrevi durante a oficina de reportagem que fiz com Eliane Brum em Curitiba, no fim do ano passado, e do qual muito me orgulho. Já falei do curso aqui e aqui, mas hoje quero falar sobre o que resultou dos dias que passei em Curitiba.

No último dia, Eliane nos pediu para sair às ruas do centro da cidade e encontrar alguém que topasse falar sobre felicidade (não os conceitos filosóficos, mas a felicidade real, palpável). Depois que os textos estivessem prontos, Eliane iria escolher um para ser publicado no jornal da Biblioteca.

Em um primeiro momento, achei que tinha tido um baita de um azar, afinal a pessoa que mais me deu papo, Célia, não gostava de falar da felicidade. Queria encontrar outra, mas não teria tempo para isso. Na volta para a Biblioteca fiquei até meio chateado por não ter conseguido atender à missão passada pela Eliane. Mas ao me ouvir contando para os colegas o que tinha escutado de minha entrevistada, me dei conta da lindeza de história que eu tinha nas mãos. Resolvi me jogar no texto e, depois de algumas sugestões da Eliane, a história ganhou os contornos finais, que vocês podem ver aqui ou no Cândido que está circulando por Curitiba esse mês.

A história de dona Célia me fez pensar muito sobre a vida e o entrevistar. Vamos primeiro à lição mais fácil, a jornalística. Me forcei a dar a ela a oportunidade de responder com o silêncio e me forcei a saber entrevistar também seu gestos, movimentos e atitudes. Fazer isso não é fácil e, para mim, ainda não é uma coisa natural. Durante o exercício busquei esse detalhismo, porque tinha sido orientado a fazer isso. Ver o resultado final do texto, porém, me deixou estimulado a perseguir cada vez mais o detalhe, a escutar cada vez mais o silêncio, a conversar cada vez mais com os olhos. Aos poucos, vai ficando mais fácil e tenho a esperança de que um dia seja algo tão natural que eu nem repare mais que estou fazendo.

Agora a lição mais difícil de assimilar. Ao conversar com Célia, uma mulher que diz não ter mais alegrias, aprendi também a valorizar um pouco mais a felicidade. É difícil definir o que é isso, mas é muito fácil saber quando ela nos abandona. Ver os olhos de Célia falando sobre a mãe ou entristecidos enquanto a boca sorria me estimulou a querer me agarrar cada vez mais à felicidade e dar cada vez menos bola às pequenas tristezas da vida.

O que quero agora é aprender fazer as pequenas felicidades serem grandes como uma sombra projetada na parede e as grandes tristezas, pequenas como sombra na hora do Sol a pino!