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Textos com Etiquetas ‘Eliane Brum’

O que define um repórter?

Em meio a uma disputa fratricida entre a chamada mídia “tradicional” e a “pós-jornalística” Mídia Ninja, Eliane Brum resolveu mostrar de que lado está. Como era de se esperar, ela está do lado da boa reportagem, seja praticada por quem seja. Adoro às definições que ela dá a um bom repórter e a uma boa reportagem. Foi de uma dessas que surgiu o nome desse blog. Nesse texto, mais uma vez, ela explica o processo de construção de uma boa reportagem – que passa não só pela escuta, mas pelo esvaziamento de ideias e pretensões, um processo dificílimo e que só traz resultado com muito treino e esforço.

Não adianta me estender muito por aqui. Nada do que eu disser será capaz de dizer mais do que o texto de Eliane. Quem quiser, então, leia aqui.

Um breve desabafo sobre a situação do jornalismo

Ser jornalista nunca foi uma profissão fácil. Ameaças de todo tipo, horários de trabalho improváveis, salários absurdamente baixos. Desde os tempos de Honoré de Balzac e seu Ilusões Perdidas só aceitou ser jornalista quem tinha uma visão romântica da vida. Sem isso, o jornalismo não teria o que destruir. De um tempo para cá, porém, a situação só fez por piorar.

Não é mero acaso que faz com que, mesmo tendo tão pouco tempo de formado, eu já tenha perdido as contas de quantos dos meus amigos desistiram de trabalhar como jornalistas. Muito menos é mero acaso que, pouco mais de seis anos depois de ter escolhido a profissão, eu já esteja cansado. E não venham culpar o fato de eu ser da geração Y. Eu e meus colegas não somos os únicos que estamos cansados. O artigo da jornalista argentina Graciela Mochkofsky, na Piauí desse mês, é um ótimo exemplo disso. Ela descreve, passo a passo, como se deu a construção, a desconstrução e a reconstrução de seus ideais jornalísticos. Como pano de fundo, a falência do bom jornalismo como instituição.

Para se ter uma noção ainda mais clara de que a deterioração não depende de idade ou de geração, basta fazer uma visita à sede de qualquer meio de comunicação. Serão poucos os jornalistas de cabelo branco – e menos ainda os que combinam o cabelo branco com pleno controle das sanidades mentais. Costumo dizer que jornalista não envelhece. Das duas uma: ou ele desiste ou fazem com que ele desista antes de ter netos.

Muitos fatores têm contribuído para esse quadro. Nos últimos 12 meses, vi mais de 300 jornalistas – em uma conta conservadora, feita de cabeça – serem mandados embora, apenas nos grandes meios brasileiros. Nos Estados Unidos, a situação é ainda pior. Isso não é normal. As empresas estão em crise e não conseguem encontrar uma saída. No mundo todo, jornais têm morrido em uma velocidade assustadora e outro tanto definha a passos largos para um triste fim.

A visão romântica que me fez escolher essa profissão ainda persiste. Não consigo imaginar o mundo sem jornalismo e sem jornalistas. O problema é que o mundo muda a uma velocidade muito maior do que os velhos e os novos barões da mídia são capazes de acompanhar. Fazer jornalismo de qualidade custa caro e nos últimos anos tem se tornado raro quem está disposto a investir – seja lá quanto for – em uma boa reportagem. Há quem diga que quem gosta de boa reportagem é o jornalista e que, para o leitor, não faz diferença de que forma foi feita e quanto tempo levou a apuração. Não é verdade. Uma pesquisa recente mostrou que 31% dos americanos abandonaram seus meios de comunicação favoritos, porque não encontravam mais o mesmo nível de informação. É a crise alimentando a crise.

Não é de se assustar que os nomes que inspiraram Graciela Mochkofsky a perseguir o bom jornalismo no início dos anos 1990 sejam exatamente os mesmo que me inspiram vinte anos depois. Os meios de comunicação foram incapazes de produzir outros Gays Taleses e Joeis Silveiras nas últimas três ou quatro décadas. É lógico que temos uma Eliane Brum aqui e outra acolá, mas não basta. Gente talentosa não faltou – e eu tive a sorte de sentar a poucas cadeiras de distância de muitas delas. O que faltou foram os recursos para que essas pessoas não dependessem mais apenas de seus textos iluminados e de suas magníficas capacidades de observação. Talento não é suficiente no jornalismo. Quem é repórter sabe como, sem chance de erro, uma entrevista feita cara a cara é sempre mais proveitosa do que um telefonema ou – o horror dos horrores – o envio de algumas perguntas para serem respondidas por e-mail. O problema é que, em um crescente assustador, as empresas de mídia incentivam e forçam seus repórteres a ficarem presos na redação durante as 8, 10, 12, 14 ou mais horas de expediente.

Em meio a tanta crise, as empresas se tornam ainda mais injustas. Demissões injustificadas e injustificáveis, mentiras para os funcionários, atrasos no pagamento, eliminação de direitos trabalhistas e tantos outros casos maléficos já se tornaram um triste padrão de conduta. Não é de se espantar que nossa profissão seja incluída em qualquer ranking que se preze de ocupações mais estressantes ou insalubres.

Por trás desse cenário, eu vejo um momento de transição. Dentro de pouco tempo, a cobertura diária dos fatos será um tanto diferente da que conhecemos hoje – o tamanho desse tanto ainda é difícil de imaginar. Boas iniciativas começam a surgir em todo o mundo. Tanto os jornalões como jornalistas empreendedores e independentes têm aprendido a produzir reportagens digitais de qualidade. O Leonardo Sakamoto – um jornalista que precisava ser mais conhecido e reconhecido – fez com alguns amigos uma compilação de bons exemplos. Outro dia também apresentei bons exemplos de documentários pensados para a internet. É gostoso ver como tem coisa vinda de diversas partes do mundo e feita por todo tipo de gente.

Acredito que o quadro momentâneo é desesperador, mas que haja uma saída para o jornalismo – repito: não consigo ver o mundo sobrevivendo por muito tempo sem gente capaz de levantar e traduzir informações e histórias. O problema é que a saída, como tudo que envolve bom jornalismo, custa caro. Mais do que isso, ainda é uma saída incerta.  Como resultado, muita gente vai ficar pelo caminho e pode ser que não sejam os melhores os que sobrarão. Eu, entre uma vontade e outra de jogar tudo para o ar e inventar uma nova profissão, vou tentando encontrar um jeito.

O que aprendi com Célia

Na última semana tive o prazer de receber em casa alguns exemplares da jornal Cândido, editado pela Biblioteca Pública do Paraná. A alegria de ter em mãos um jornalzinho pequeno e desconhecido se justifica. As páginas dez e onze estão preenchidas com um texto que apurei e escrevi durante a oficina de reportagem que fiz com Eliane Brum em Curitiba, no fim do ano passado, e do qual muito me orgulho. Já falei do curso aqui e aqui, mas hoje quero falar sobre o que resultou dos dias que passei em Curitiba.

No último dia, Eliane nos pediu para sair às ruas do centro da cidade e encontrar alguém que topasse falar sobre felicidade (não os conceitos filosóficos, mas a felicidade real, palpável). Depois que os textos estivessem prontos, Eliane iria escolher um para ser publicado no jornal da Biblioteca.

Em um primeiro momento, achei que tinha tido um baita de um azar, afinal a pessoa que mais me deu papo, Célia, não gostava de falar da felicidade. Queria encontrar outra, mas não teria tempo para isso. Na volta para a Biblioteca fiquei até meio chateado por não ter conseguido atender à missão passada pela Eliane. Mas ao me ouvir contando para os colegas o que tinha escutado de minha entrevistada, me dei conta da lindeza de história que eu tinha nas mãos. Resolvi me jogar no texto e, depois de algumas sugestões da Eliane, a história ganhou os contornos finais, que vocês podem ver aqui ou no Cândido que está circulando por Curitiba esse mês.

A história de dona Célia me fez pensar muito sobre a vida e o entrevistar. Vamos primeiro à lição mais fácil, a jornalística. Me forcei a dar a ela a oportunidade de responder com o silêncio e me forcei a saber entrevistar também seu gestos, movimentos e atitudes. Fazer isso não é fácil e, para mim, ainda não é uma coisa natural. Durante o exercício busquei esse detalhismo, porque tinha sido orientado a fazer isso. Ver o resultado final do texto, porém, me deixou estimulado a perseguir cada vez mais o detalhe, a escutar cada vez mais o silêncio, a conversar cada vez mais com os olhos. Aos poucos, vai ficando mais fácil e tenho a esperança de que um dia seja algo tão natural que eu nem repare mais que estou fazendo.

Agora a lição mais difícil de assimilar. Ao conversar com Célia, uma mulher que diz não ter mais alegrias, aprendi também a valorizar um pouco mais a felicidade. É difícil definir o que é isso, mas é muito fácil saber quando ela nos abandona. Ver os olhos de Célia falando sobre a mãe ou entristecidos enquanto a boca sorria me estimulou a querer me agarrar cada vez mais à felicidade e dar cada vez menos bola às pequenas tristezas da vida.

O que quero agora é aprender fazer as pequenas felicidades serem grandes como uma sombra projetada na parede e as grandes tristezas, pequenas como sombra na hora do Sol a pino!

Eu e meu nome

No primeiro post desta nova etapa do blog comentei sobre o curso que fiz com a Eliane Brum, quando me dei conta da importância de o repórter ser um bom escutador.

Na seleção para o curso, Eliane pediu para que os candidatos escrevessem dois textos. Um deles, era sobre a origem do nome e a relação da pessoa com ele. Escrever sobre isso foi ótimo. Nunca havia parado para pensar no quanto meu nome influencia minha(s) personalidade(s). Por isso, resolvi compartilhar esse texto com vocês. Segue:

Vários em um

Caminhando pela rua, ouve alguém gritar: “Agá!”. Para imediatamente, na certeza de que quem chama é um grande amigo. Não estava errado. Os dois se abraçam, fazem as velhas promessas de que vão marcar uma cerveja qualquer hora dessas e seguem o rumo. Mais tarde, o telefone toca e, distraído, não tem nem tempo de olhar o número que chama. Não precisa. Assim que aperta o botão verde, escuta a voz do outro lado perguntar: “Gá?”. É ela. Abre um sorriso que só se apaga na hora em que apertar o vermelho fica inevitável. De madrugada, quando chega em casa depois de uma exaustiva noite de trabalho, tenta não fazer barulho, para não acordar ninguém. Não adianta. Antes que o pé ante pé culmine em seu quarto, escuta a pergunta vinda da cama dos pais: “Gabriel, é você?”.

Sim. Ele é Gabriel. Mas não só. Se quem chama é um amigo dos tempos de colégio, é Gabi. Se for alguém da turma da faculdade, é Agá. A paquera melosa? Gá – com aquele excesso de as que só cabe na boca de uma paquera melosa. Gabriel Ferreira para quem lê as reportagens que assina. E até para os atendentes de telemarketing tem um nome diferente: senhor Gabriel Henrique Ferreira Silva. “Ferreira da Silva, por favor”, ressalva sempre.

Quando os pais de Gabriel descobriram que o bebê que estava para chegar era um varão, não hesitaram para escolher o nome. Era Gabriel Henrique e ponto final. Os dois estavam de acordo e não houve discussão. Mesmo com uma decisão tão decidida, o destino se encarregou de pregar uma peça em todos. Poucas vezes o menino foi Gabriel – e quase nunca Gabriel Henrique. O nome do jeito simples praticamente só foi adotado em casa – e mesmo assim, nem sempre. O composto e pomposo ficou só para quem ligasse com o intuito de vender qualquer quinquilharia, assinatura de revista ou linha telefônica. “Na minha família todo mundo tem nome duplo”, afirma Gabriel. “Não sei porque, já que ninguém usa os dois.”

A diversidade de nomes e apelidos não incomoda Gabriel. Pelo contrário. “Não sou a mesma pessoa em casa e na faculdade e não seria justo que eu fosse chamado do mesmo jeito em todos os lugares”, diz. Tomando essa tese como verdadeira, podemos dizer que Gabriel é do tipo falador, sempre com uma história para contar. Bem parecido com o Gabriel Ferreira – só que um pouco mais briguento. O Gá é o mais amoroso de todos, mas é quase unanimidade que o Agá é o mais fiel e leal de todos os heterônimos. “Nem sei como surgiu esse apelido, mas quase todo mundo que me chama assim é muito querido para mim”, diz Agá.

Quando ainda cursava a faculdade de jornalismo, Gabriel resolveu que assinaria suas reportagens como Gabriel Agá. “Para mim era natural, já que quando me olhava nos espelhos da faculdade era o Agá que eu via”, conta. A assinatura durou exatamente uma reportagem – para a revistinha interna da faculdade. Ninguém disse nada, mas ficou nítida a desaprovação do seu Alvaro Ferreira, o pai de Gabriel. Ele mesmo nascido Alvaro, mas criado Mané não liga para novos nomes – e até gosta de cultivar sua própria diversidade –, mas faz questão de manter a pureza do sobrenome.

 

(Depois vou postar o texto produzido durante o curso. Acredito que vocês vão gostar)

 

Escutar também é falar

Há pouco tempo, quando fiz um curso com a jornalista Eliane Brum, ela bateu muito na tecla de quanto é importante para o jornalista saber ouvir – não só o que é dito, mas o que fica por dizer também. Gostei da ideia, porque nunca fui daqueles jornalistas faladores. (Se você me conhecesse, deve estar me chamando de mentiroso. Mas venhamos e convenhamos: no começo de uma relação sempre sou mais calado. E os contatos com fontes costumam ser justamente esses tais começos de relação.)

Acho tão importante ouvir, que já cheguei a ficar mais de uma hora com entrevistados no telefone sem dizer nada além de “aham”. Adoro quando a entrevista caminha assim. Peço para a pessoa falar sobre tal tema e ela vai falando, naturalmente, ligando os pontos sem que eu tenha que forçar a barra em momento algum. No final, apenas faço as perguntas que eu tinha programado e não foram respondidas e as dúvidas que surgiram durante a conversa. Pronto. Rende bem mais do que se eu tentasse brigar com a pessoa, disputando quem fala mais, quem é mais inteligente, e apresentando teses e contrateses com as quais fonte muitas vezes concorda apenas para poder seguir com seu raciocínio. Pois é. Tem repórter que faz isso e não é um, nem são dois. Já vi vários – e eles costumam se achar ótimos entrevistadores.

Para esses, fica a dica: no livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo, do escritor moçambicano Mia Couto, um dos personagens – um político chamado Suacelência – diz, lá pelas tantas, que “escutar também é falar”. Achei a frase linda e tenho ela marcada em um post-it em cima de minha cama, para que jamais me esqueça dessa lição. Foi só depois de ler e entender isso que resolvi me assumir como um escutador e defender a importância que isso pode ter para minha profissão.

Que tenhamos um jornalismo com mais escutadores do que faladores!

(Se não conhece o trabalho de Eliane Brum, recomendo os textos dela no site da revista Época e os livros de reportagem O Olho da Rua, A Vida que Ninguém Vê e a ficção Uma Duas. Se ainda não se encantou, não perca a oportunidade de se encantar com a sensibilidade do texto dela, que é a melhor e mais premiada jornalista do Brasil atualmente.)

(Se quer saber mais sobre Mia Couto, veja esta participação dele em uma conferência em Portugal, falando sobre o medo. Os livros, não me arrisco a indicar uns poucos. Leia todos que encontrar e mais os contos que encontrar por aí.)

6º Congresso da Abraji

Todo ano, espero ansiosamente a realização do Congresso da Abraji. É uma oportunidade única para encontrar gente interessante e apaixonada pela profissão e, principalmente, para aprender coisas novas.

Entre 30/6 e 2/7, em São Paulo, vai acontecer a 6ª edição desse evento. Na programação, gente como Claudio Weber Abramo, , Eliane Brum e Fernando Rodrigues falando do presente e do futuro do jornalismo e dos jornalistas.

Se você já foi alguma vez ao Congresso da Abraji, sabe o quanto vale a pena. Se nunca foi, recomendo que vá. As inscrições já estão abertas e quem pagar até 8/5 tem um super desconto. Estudantes também têm preços especiais.

Para ver a programação e se inscrever, clique aqui.

5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

Ontem fui ao 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI). Gosto muito desse evento e, sempre que possível, participo. Esse ano, infelizmente, só pude ir ao último dos três dias de palestras. Mesmo assim, valeu a pena cada centavo investido. Pude ouvir jornalistas que admiro muito como Eliane Brum e Kennedy Alencar falando sobre os desafios, dificuldades e vantagens de se fazer um jornalismo de qualidade.

Como sempre, aprendi muito, conheci gente nova, reencontrei novos e velhos amigos. O mais gostoso, porém, é ver a integração entre gente com muitos anos de experiência e outros mais novos. A troca de experiências entre pessoas de diversos veículos, idades e históricos na profissão é algo enriquecedor.

Se tiver tempo, pretendo fazer ao longo dessa semana um breve relato sobre o que foi conversado nas palestras que assisti. Tudo é muito interessante e enriquecedor. Aproveito e deixo aqui o convite para que você participe desse evento ano que vem. Fique de olho no site da Abraji para quando abrirem as inscrições.