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Sem qualquer lamentação

Entrou no ônibus cansado de um dia de trabalho em que nada deu certo. O chefe, aquela mula, parecia ter o prazer de atrapalhar tudo. Tinha dúvidas de se aquilo tudo era maldade ou a mais pura incompetência. Seja como for, sabia que a situação era insustentável. Mais cedo ou mais tarde ia ter que pedir demissão. Com dois filhos nas costas, era difícil fazer isso sem ter nada na manga, mas talvez fosse a única alternativa.

Estava com a cabeça longe, de pé perto da porta mais distante, quando não reparou a entrada de dois meninos no ônibus. Eles entraram por trás, como faz quem convence o motorista a dar uma carona ou a permitir que se venda alguma coisa aos passageiros. São poucos os motoristas que fazem isso hoje em dia, preocupados com a manutenção da própria existência. Aquele, porém, era um dos que põem o coração acima de si mesmo e permitiu que os dois moleques embarcassem pela porta de traz.

O mais novo não passava dos 9 anos. O mais velho, se tinha 12, havia feito aniversário por aqueles dias. O homem não percebeu a entrada dos dois e não percebeu também que o menor – que era o mais velho – carregava na mão um pandeiro.

Aquela dupla não ia vender balas, água e nem descascador de batata. Tampouco estavam lá apenas pela carona. Foi só na primeira gargalhada geral que o homem reparou na existência das duas crianças. Reparou também, logo de cara, o que eles estavam fazendo ali.

Zé Biscoito e João Bolacha, como se apresentaram pouco antes de homem saber de suas existências, eram repentistas. Apesar da pouca idade – ou talvez até por isso – os dois tinham o dom de encantar o público. Mal terminavam o verso e a risada se espalhava do motorista ao último passageiro. A coisa era tão contagiante que até a velhinha surda do primeiro banco e o menino com fones de ouvido sentado lá no fundo riam gostosamente – mesmo sem saber ao certo o que a duplinha tinha acabado de cantar.

A imagem e o gesto dos dois eram engraçados por si só. Eles tinham talento. Tanto que, ao se deparar com os dois, o homem desistiu de seus próprios problemas. Pensou em como devia ser sofrida a vida daqueles moleques e que mesmo assim eles tinham a capacidade de fazer um monte de gente gargalhar. Talvez fossem órfãos. Provavelmente não iam à escola. Não era pequena a chance de que apanhassem de um padrasto cruel ou que uma madrasta de contos de fada os obrigasse a estar ali. Naqueles poucos minutos, todos os preconceitos que existem contra a população que ganha a vida nas ruas serviram para tornar ainda mais terna a figura daqueles dois. Pobres meninos sofridos. Quem sou eu para reclamar de um chefe tosco quando há tanta gente com motivos tão grandes para reclamar que acaba se contentando em se conformar?

Se distraiu tanto na filosofia barata que acabou por deixar o ponto passar. Não protestou, como faria normalmente, e nem tentou culpar ninguém pelo próprio erro. Deu o sinal e desceu no próximo. A rua estava escura e quando correu para atravessar, ainda com a história que criou para os meninos na cabeça, não viu o carro que rasgava a pista. O impacto foi imediato e a morte, diferente de toda a vida, veio sem qualquer lamentação.