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Minha desastrosa vida amorosa

Sempre quis me apaixonar loucamente. Viver um amor de cinema. Ter a coragem de correr atrás da garota dos meus sonhos em um aeroporto lotado. Olhar pela janela e ver um dia chuvoso, mas assim mesmo ir correndo só pra ver o meu amor. (Que maravilha! Que coisa linda que é o meu amor!) Olhar nos olhos de alguém e dizer, sem medo de parecer ridículo ou de estar exagerando, um “Eu te amo” sincero. Não sei se um dia vou viver algo assim. O que sei é que, quanto mais penso, mais começo a achar tudo isso uma bobagem – mas uma bobagem com a qual continuo sonhando.

Não é que nunca tenha me apaixonado. Pelo contrário. Cultivo amores em série e esse é um dos maiores motivos para eu não ter coragem de amar ninguém perdidamente. Como posso me dedicar exclusivamente a ela, se deve haver uma próxima ainda melhor, que me provoque sensações ainda mais intensas? E é assim que, quase como uma regra, vou transformando minhas paixões em amizade. Resultado: muitas amigas e nenhuma namorada. Uma vida amorosa para lá de desastrosa.

Pode ser pelo signo ou por algum outro problema qualquer, mas sou daqueles que sofre por amor. No fundo, gosto desse sentimento desesperador de não ter certeza do que a outra pessoa sente. Gosto de emitir sinais – nem sempre muito discretos – e aguardar respostas. Para ser sincero, sinto mais prazer nesse jogo prévio do que em tudo o que vem depois. É uma delícia procurar sinais de correspondência e uma angústia um tanto quanto masoquista ver que eles não estão chegando. Tem até casos em que já desisti da moça, mas continuo tentando descobrir se, em algum momento, ela me quis. Talvez seja uma carência, uma necessidade de me sentir amado. Não importa o motivo. O que importa é que está nessa sedução – palavra horrível e que já perdeu muito de seu significado – uma deliciosa fonte de prazer.

Nunca fui muito adepto da pegação pura e simples. Raramente fico com quem não conheço. Não vejo tanta graça em uma relação que surge do nada e tem um futuro tão promissor quanto o próprio passado. Sinto falta justamente desse jogo lento, que transforma a amizade em amor e que permite que o amor volte a ser amizade pura.

Sou um fã dessa linha tênue entre amor e amizade. Tenho muita dificuldade em identificá-la e acho que já perdi muito por conta disso – quantos amores eram só amizade e quantas amizades podiam ter sido grandes amores? Mesmo assim sou um fã incorrigível. Sem essa divisão tão fina, se apaixonar não faria sentido. Impossível uma relação dar certo sem caminhar cambaleante nessa fronteira. É esse andar de bêbado que mantém tudo vivo. E é quando a gente tomba definitivamente para um lado ou para o outro que as coisas saem do lugar.

Não me considero um grande especialista em matéria de amor. Nem poderia. Meus sentimentos são uma estranha mistura de romantismo e frieza que até eu sou incapaz de compreender. Sem me explicar, não tenho o direito de ser especialista em nada. O que sei sobre o amor – e é muito pouco, perto de tudo o que acho que qualquer um deveria saber para ditar regras por ai – é que ele é uma coisa estranha. Tudo bem que isso é um baita chavão. É natural, já que há tanto tempo o homem tenta encontrar explicações para o coração saindo pela boca e sempre falha.

Quase todas as vezes em que me senti apaixonado por uma garota, juntei coragem sabe-se lá de onde para demonstrar isso claramente. Existe apenas uma única e honrosa exceção, que guardei para mim como um segredo que todo mundo sabe. Nos demais casos, queria fazer uma declaração daquelas de filmes e livros, com direito a palavras bonitas e até músicas compostas especialmente para o momento. Bobagem, já que não consigo dizer nem mesmo um “eu te amo” sem me sentir um idiota. Por mais que muita gente diga o contrário, sou um cara tímido. Mas não é isso que me impede de dizer a bendita frase a torto e a direito. Essas são três palavras que carregam um peso desproporcional demais e que, por isso, se tornam perigosas. O que sempre fiz, então, foi tentar demonstrar o quanto a pessoa era especial para mim. Fazer isso sem palavras – de tanto me apegar à palavra escrita, desaprendi a utilizá-la através da boca. O jeito então é demonstrar por atos. Tarefa difícil, já que normalmente nem eu mesmo sei o tamanho a que essa dedicação deve chegar para ser proporcional ao que sinto.

Comecei a rascunhar este texto quando o acaso me fez cair na página do Facebook de uma das minhas primeiras paixões. Um daqueles amores dos tempos do colégio que, com sorte, se convertem em primeiro beijo. Fiquei alguns minutos olhando para a foto da menina e pensando no quanto ela devia ter mudado de lá para cá. A aparência era exatamente a mesma e fiquei curioso para saber como poderia haver uma mulher por dentro daquela menina. Ou será que ela continuaria exatamente a mesma, tão interessante naquela época e tão descartável para os dias de hoje? Foi daí que me lembrei de sua letra cuidadosa em uma carta que era para ser de amor. Letra de menina que quer ser princesa. Espero que ela e a letra tenham mudado muito nesses últimos quase 15 anos. Tentei encontrar em algum lugar de minha cabeça as bobagens ditas em resposta àquela carta por meio de meus garranchos dedicados.

Não me lembrei ao certo do que escrevi e nem do que disse para ela. Tenho apenas uma vaga memória de como a história se desenrolou – nada digno de nota, nem para um garotinho de onze ou doze anos, garanto. Mas mexer com essas lembranças me puxou muitas outras – desde aquele tempo, em que pensava que quando eu “fosse grande” aprenderia a agir nesses casos até hoje quando absolutamente não sei como agir nesses casos. A reunião desses passados pariu este texto. O engraçado de tudo é que todas as histórias, mesmo aquelas que na época pareciam insuportavelmente dolorosas, me causam exatamente a mesma sensação. Em resumo, é uma vontade de rir das burradas que cometi e saudades das esperanças que tive.

É lógico que até hoje não enfrentei nenhum daqueles amores da literatura ou do cinema. E é lógico que, por mais que ache uma bobagem, não perco a esperança de viver algo assim. Mas quero essa experiência muito mais por teimosia do que por qualquer outra coisa. No fundo sei que não há romance de novela das oito capaz de deixar tantas amizades e risadas quanto a minha desastrosa vida amorosa. E a sua também.