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As pequenas frustrações cotidianas – ou a mão que nunca será dada

Outro dia me deparei com uma dessas cenas que só não passam despercebidas por um mero acaso. Estava no ônibus e vi um casal sentado no primeiro par de bancos logo depois da catraca. Deviam ter a minha idade ou até menos. A mão dela aberta sobre a perna dele, como que esperando em vão que ele a pegasse.

Não sei se eram amigos ou namorados, mas aquilo me fez viajar um pouco. Fiquei pensando no quanto ela queria que os dedos dele envolvessem os seus. Será que aquele era um ato e um desejo consciente ou nem ela havia reparado ainda naquilo que eu estava vendo? É difícil saber.

Todo mundo tem alguma expectativa que jamais será alcançada. O tamanho e a intensidade desses sonhos variam muito e às vezes nem podemos nos dar ao luxo de chamá-los de sonhos – de tão simples e inocentes, sequer reparamos nesses desejos e, por isso, não nos sabemos frustrados. Não reparar e não saber, porém, não diminui de maneira alguma o impacto que essas pequenas frustrações cotidianas têm em nossas vidas. Elas são capazes de moldar personalidades, de determinar futuros, de criar medos. E tudo isso no mais absoluto silêncio.

Você certamente tem suas frustrações escondidas. Carrega algo no peito que pesa sem que você saiba. Eu também tenho, mesmo que ainda não conheça exatamente quais são. Pode ser que a frustração da moça que vi no ônibus não seja o amor não correspondido, como eu logo imaginei. Mas ela certamente tem desejos tão simultaneamente próximos e distantes quanto me pareceu a mão de seu companheiro.

Mas qual é o verdadeiro valor dessas frustrações cotidianas e desconhecidas em nossas vidas? O que tem maior peso na formação da personalidade de alguém? A mão que nunca será dada ou o emprego perdido? As palavras que desistiram de existir instantes antes de chegar à garganta ou o fim de um namoro? O desencontro que se deu por apenas alguns segundos ou a saudade de quem já se foi?

É lógico que as grandes decepções e perdas nos levam a tomar grandes decisões. São momentos importantes, que muitas vezes marcam uma ou outra virada em nossas vidas. Mas elas não acontecem em tão grande quantidade para que sejam, por si só, determinantes de nossas personalidades. São os pequenos desencontros – esses sim abundantes – que ajudam a determinar quem realmente somos. Podemos até não reparar – e provavelmente não iremos –, mas são as mãos, os beijos e os abraços nunca dados, as palavras nunca ditas, os encontros nunca concretizados que nos levam a decidir como serão os próximos carinhos, beijo, abraços, palavras e encontros.

Ignorar quais são e o poder dessas pequenas frustrações não é um problema e nem um mal. Muito pelo contrário. É esse desconhecimento que as torna tão poderosas. Como quase tudo na vida, é ao estar livre do peso de sua responsabilidade que nossas frustrações cotidianas se sentem mais livres para agir. Mais do que isso, é por não sabermos do que elas são capazes que nós permitimos que elas ajam. Não saber de sua existência e poder é a melhor forma que temos de não nos boicotar.

O importante, então, é não deixar que essas pequenas frustrações cotidianas se tornem grandes problemas. Fazer com que elas ajam sozinhas, sem necessidade de nossa interferência e, principalmente, sem nos deixar paralisar por elas. Levar essas pequenas frustrações no piloto automático, para que possamos nos dedicar única e exclusivamente às grandes. Pode não ser a fórmula da felicidade – será mesmo que isso existe? Mas que é um bom começo, isso é…