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Cúmplices

Trocavam olhares com a certeza de que nunca mais se veriam e, por isso mesmo, se davam o direito de trocar sorrisos como se estivessem loucamente apaixonados. Não estavam e nem poderiam estar. Ela namorava. Ele tinha decidido que jamais se apaixonaria por ninguém. Mas a vida é feita de momentos assim, de pequenas paixões que começam e terminam exatamente no mesmo lugar. Às vezes é no metrô, outras na praia e há casos até em que isso ocorreu em um velório.

No caso deles não teve a velocidade do metrô, a leveza da praia ou a impertinência do velório. Se apaixonaram – e se desapaixonaram – em uma balada. A música era alta o suficiente para que mal conseguissem conversar. Não fosse assim, provavelmente teria sido muito difícil para se abandonarem no final daquela noite. Tinham muito em comum. Muito mais do que ela tinha com seu namorado e muito mais do que ele pensava ser possível ter com qualquer pessoa. Se tivessem ouvido o que outro falava, muito provavelmente se apaixonariam, mudariam os rumos de suas vidas e, no final, se decepcionaram. Ter tudo em comum não significa ter algo em comum. Tudo costuma ser muito pouco quando o assunto é o coração. Seriam um péssimo casal. Os dois tinham opiniões fortes e, por mais que fossem as mesmas, não estariam dispostos a serem comandados por ninguém.

Mas o que importa é que, durante aquela noite, foram um ótimo casal. Ela tinha a liberdade de quem estava em uma cidade desconhecida, com pessoas desconhecidas, e podia agir sem medo de que o namorado descobrisse no dia seguinte. Ele tinha a liberdade de quem faz o que bem entende, fingindo não se importar com a opinião alheia. Dançaram juntos durante horas, mesmo sem saber dançar. Até mesmo quando não havia música davam a impressão de continuarem dançando.

Quem olhasse a cena, podia imaginar que se conheciam há tempos. Eram cúmplices. O que ninguém sabia – porque as pessoas nunca sabem de nada – é que aquela era uma cumplicidade que só é possível entre quem não se conhece bem. A mais forte das cumplicidades. Uma que vem naturalmente.

No meio da noite ele disse que ia pegar uma bebida e nunca mais voltou. Ela até pensou em procurá-lo, mas agradeceu que aquilo tivesse acontecido. Ele, em casa, ficou aliviado por ter tomado a decisão certa.

 

Grandes amigos

Eram grandes amigos. Tanto que era até difícil explicar de onde vinha tanta cumplicidade. Sabiam se entender até mesmo sem um olhar. Não eram poucas as histórias de, estando em lugares separados, saberem exatamente o que o outro sentia. Tinham uma ligação quase sobrenatural. Pareciam até irmãos gêmeos tamanha a conexão existente entre eles.

Não é nem necessário dizer que se amavam. Não como um casal de namorados, porque para isso era preciso haver tesão. E isso não havia. Por mais queridos que fossem um para o outro, não se imaginavam na mesma cama. Até se achavam bonitos e diziam ser sortudo quem caia nas graças do outro. Mas o tipo de amor existente entre os dois não permitia que esse tipo de desejo surgisse. Tinham um amor de irmão. Mais do que isso, de mãe e filho. De pai e filha. Se cuidavam. Se aconselhavam. Brigavam sem qualquer tipo de ressentimento.

E assim foi por muitos anos. Até o dia daquela bebedeira. Como já aconteceu com muitos amigos – e como ainda vai acontecer com tantos outros – uma noite calhou de os dois estarem carentes. Depois disso, a sequência de acontecimentos tornou a tragédia ainda mais previsível. Três doses de pinga e seis latinhas de cerveja para ele. Oito latinhas de cerveja para ela. Os dois na cama dele.

Ao acordar, lado a lado, mal acreditavam naquela situação. Era impossível que aquilo fosse verdade. Im-po-ssí-vel! O pior de tudo é o quanto tinha sido bom. Talvez porque se entendessem tão bem. Talvez porque sentiam um desejo reprimido que nem eles sabiam. Não importava o motivo. Tinha sido gostoso e ponto final.

Se é mesmo verdade aquela história de que um bom namoro nada mais é do que uma grande amizade que funciona bem na cama, tinham um problema. Um grande problema. Será que estavam namorando? Ele diria que sim. Ela, que não. Resolver o impasse não seria fácil. De um dia para o outro, ele começou a ter ciúmes. Socaria tranquilamente cada pessoa com quem ela já tinha ficado.

Para ela era difícil entender o motivo de tanto desespero. Sua cabeça, muito mais masculina que a dele, não via qualquer problema em amigos transarem de vez em quando. Nunca tinha acontecido até aquele momento apenas porque não tiveram a ideia antes. Uma simples foda, por melhor que tenha sido, nunca é razão para se apaixonar.

O tempo passou e a relação entre os dois foi ficando estranha. Ele caia de amores. Ela sentia vontade de ter mais um pouco daquela noite – e apenas isso. Os dois tinham medo de estarem sozinhos juntos. A amizade era boa demais para se arriscar assim. Para não correr esse risco, começaram a se afastar. Deixaram de se ver todo final de semana. Começaram a se ligar apenas a cada três ou quatro dias. Nem mesmo pela internet estavam mais sempre conectados. Foram se desligando. Tudo o que não queriam estava acontecendo. Ao fim e ao cabo o fim chegou tão naturalmente que nem uma lagrima escorreu quando se deram conta de que o que restava eram apenas as lembranças daquela noite e de todos os dias e noites que vieram antes.