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Textos com Etiquetas ‘crise do jornalismo’

Jornalista é peão, sim

Costumo brincar meio a sério que jornalista não gosta de ser lembrado que é peão. Fale em qualquer forma de organização sindical ou em cobrar qualquer tipo de postura dos patrões e se prepare para ouvir que aqui não é assim, que empresas de mídia são diferentes, que se você faz uma vez, se queima em todo e qualquer lugar, etc, etc e tal.

O que muitos colegas nunca se deram conta é que essa precarização do mercado de trabalho que vemos no jornalismo é resultado direto da postura elitista dos trabalhadores dos meios de comunicação, que preferem receber salários de fome, não serem registrados, verem seus Fundos de Garantia atrasando mês a mês e encararem jornadas de trabalho cada vez maiores sem o devido pagamento de horas extras do que se organizarem e fazerem algum ato que remeta às lutas que trouxeram tantos resultados positivos para categorias como os bancários, os metalúrgicos e os motoristas.

De vez em quando pipoca aqui e ali uma ou outra medida que me fazem ter esperança de que as coisas vão mudar. Essa semana foram os colegas da revista Caros Amigos, que resolveram entrar em greve. Há muito já se sabia no mercado que as condições de trabalho por lá não andavam das melhores. Equipe reduzida, terceirização dos trabalhadores e até atrasos no pagamento. Enfim, nada muito estranho em se tratando do jornalismo. Mas ao saber que a situação tendia a piorar e que a equipe já pequena ia ficar ainda menor, os jornalistas de lá resolveram agir.

Talvez essa paralisação não traga resultados práticos. A equipe será mesmo reduzida, os salários continuarão baixos e os trabalhadores sem o direito a ter o registro em carteira. Seja como for, o fato de eles terem resolvido marcar uma posição e escancarar o que se passa lá dentro, ao invés de abaixar a cabeça e pensar que “no jornalismo é assim mesmo”, já é valioso por si só. Mesmo que não traga resultados imediatos. Mesmo que tudo pareça que foi em vão. É uma semente e, vocês podem ter certeza, se esse não for um fato isolado e os jornalistas passarem a se admitir como trabalhadores iguais aos outros, as coisas vão começar de fato a mudar.

É lógico que essa discussão envolve uma série de outros fatores. O jornalismo está em crise, as empresas não sabem como pagar suas contas, ninguém descobriu direito como fazer dinheiro com a internet… Não é justo – e nem mesmo admissível – que essa conta caia, porém, no colo dos jornalistas. Não deixemos que a conta caia nos nossos colos!

Atualização - Mal publiquei este texto e já temos que atualizá-lo. A Editora Casa Amarela tomou a nojenta decisão de demitir todos os jornalistas, em represália à greve.

Não tem dinheiro, mas tem nossa audiência

Que a vida de jornalista freelancer não é fácil acho que todo mundo sabe. Mas tem horas em que simplesmente o que nos resta é perder a fé na humanidade. Exemplo disso é essa história que o jornalista americano Nate Thayer contou em seu blog.  Para quem não conhece, Thayer é um grande jornalista investigativo e uma das referências quando o assunto é trabalho como freelancer.

Resumindo a história, o super premiado Thayer foi abordado pela editora da Atlantic Magazine. A proposta? Que a revista publicasse um texto de Thayer sobre as relações diplomáticas entre Estados Unidos e Coreia do Norte. O que ele receberia em troca? A audiência de 13 milhões de leitores da Atlantic. E nada mais. Nem um centavo de dólar ou de won norte-coreano.

Quem está batalhando nessa vida, já deve ter visto inúmeros sites pedindo o apoio gratuito de redatores. Não bastasse os calotes a que todo frila está sujeito ao longo da vida, temos que ver esse tipo de coisa por ai. Nenhum jornalista jamais deveria ser abordado com esse tipo de proposta – e, quando fosse, jamais deveria aceitar. Mas o fato de um nome como Thayer receber esse tipo de proposta é um indicativo de quão fundo a crise do jornalismo pôde chegar.

Como jornais, sites e revistas pretendem manter a qualidade de seus produtos com esse tipo de política? Aliás, será que eles de fato pretendem manter a qualidade de seus produtos ou estão apenas preocupado em sobreviver enquanto há tempo?