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20 e poucos (versão masculina)

25, fevereiro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

(Se ainda não leu, recomendo também a versão feminina)

Outro dia ele leu em algum lugar que a adolescência agora vai até os 30 anos. Ficou feliz, porque significa que ainda tem alguma margem para morar na casa dos pais sem se sentir um total fracassado. Sabe que com essa idade o pai já tinha uma família para manter, mas sabe também que os tempos são outros. Só vai pensar em casar daqui uns 10 anos e não vai admitir jamais que esse seja um motivo de preocupação.

Hoje tudo vai bem – quase igual ao que sempre foi. Continua reunindo os amigos para ir na balada. É lógico que a turma diminuiu e mudou um pouco. Claro também que ele não tem mais o pique de pegar dúzias de garotas, mas precisa admitir que se sente o máximo cada vez que uma daquelas menininhas olha para ele com olhinhos de admiração. Nesse momento se sente “o cara”. Gosta disso e gosta das meninas novinhas. Tem um prazer especial com elas. Se sente bem sucedido, até um pouco superior. Mas quando para e pensa friamente, vê que não tem mais paciência para o papo que vem antes e depois da transa. Talvez seja por isso que as mais velhas estejam começando a chamar sua atenção. Outro dia se deu conta de que os três últimos rolos foram com garotas que já estavam beirando os trinta – e que, com elas, o jantar e o cinema eram tão bons quanto a foda em si.

O assunto parou quase que por acaso em uma mesa de bar. E, como sempre acontece em mesas de bar, trouxe muita polêmica. Ele não era o único a passar por isso, mas ainda tinham aqueles que não trocavam as novinhas por nada nesse mundo. “Talvez quando vocês tiverem 60 vão continuar procurando as de 18.” A teoria saiu da boca com a certeza e a naturalidade do psicólogo de boteco que ele sempre foi.

Os bares de agora, aliás, são quase iguais aos de antigamente. Com a diferença de que ficar mais velho trouxe lugares um pouco melhores como principal efeito colateral. A cerveja é mais cara, o povo menos animado e falta aquela sensação de liberdade que só conhecem os frequentadores dos verdadeiros botecos – e não daqueles barzinhos que ousam se chamar assim, apesar de venderem saquerinha de frutas vermelhas. Além disso, o povo da faculdade era muito mais animado do que essa galera do trabalho, que toda vez que se reúne prefere malhar o chefe do que falar de mulher – a não ser a estagiária gostosa do marketing, um assunto impossível de se ignorar.

A teimosia em continuar bebendo a boa e velha cerveja – intercalada às vezes com uma pinga artesanal-industrializada – tem começado a cobrar o preço. Não só a fatura do cartão é cada mês mais alta, como a barriga parece ficar cada dia maior. Vê as fotos do trote da faculdade e tem quase vontade de chorar ao voltar a encarar a própria pansa. Como um corpo pode mudar tanto em tão pouco tempo? Parece drama de mulherzinha e, por isso, o assunto só chega à mesa do bar na forma de brincadeira.

Mas já que o corpo pode mudar tanto e tão rápido, é hora de usar isso a próprio favor. Semana passada se inscreveu na academia. Em pouco tempo espera estar mais definido – e já ter comido pelo menos umas três daquelas menininhas que se intercalam naquele aparelho para melhorar a bunda.

O difícil é conseguir coordenar tudo isso com o trabalho. Esse é seu único drama e é ai onde moram suas únicas dúvidas. O chefe é um babaca e o serviço está bem abaixo de sua capacidade. Não fosse a prestação e o seguro do carro, já tinha largado aquilo há muito tempo. Sempre teve certeza de que, com essa idade, ia estar comandando uma equipe enorme. Talvez até tivesse a própria empresa – uma startup daquelas que deixa todo mundo com inveja da genialidade do fulano que pensou nisso. Para ser sincero, até já teve a ideia genial. O difícil é convencer alguém de que ela é assim tão boa. Não conseguiu investimento e nem o apoio de nenhum amigo para ser sócio. Às vezes pensa em vender o carro e apostar tudo na ideia, mas no fundo sabe que é uma roubada.

Sabe também que o tempo está passando e que a oportunidade de ficar rico está se perdendo. Em paralelo a tudo isso, tem que lidar com questões que, de jeito nenhum são um problema, mas que às vezes incomodam um pouco. Fica dividido entre toda a modernidade dos tempos em que mulher divide a conta e dá no primeiro encontro e a educação machista que não ensinou a lidar com nada disso.

Para esquecer que o tempo está passando, discute sobre futebol e joga videogame exatamente do mesmo jeito que fazia aos 13 anos – com a diferença que agora tem dinheiro para comprar os ingressos e jogos. Se pudesse escolher, voltava a ser criança e talvez até por isso comemore a possibilidade de prolongar um pouco a adolescência. Sabe que com 30, 40 ou 50 a cobrança será ainda maior e que não descobrirá jamais uma forma para lidar com isso. Logo depois de chegar a essa conclusão finge que nada está acontecendo e segue a vida.

20 e poucos

22, fevereiro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

Quando tinha 17 ou 18 anos, ela tinha o hábito de mentir a idade. Para quem perguntasse teria 24.  Idade de gente responsável, com um bom emprego e muita liberdade. Por isso, só se envolvia com caras mais velhos. Achava incrível como eles ganhavam tanto dinheiro em suas agências de publicidade, escritórios de engenharia e bancos de investimento – e ainda assim conseguiam ter uma vida social tão agitada, cheia de baladas e amigos. Isso é que é vida! Mal podia esperar a hora de ter 24 de verdade, um ótimo cargo e a chance de fazer o que bem entendesse.

Não demorou muito – talvez uns 6 ou 7 anos, talvez até menos – para descobrir que não podia estar mais enganada quanto ao futuro. Nunca podia imaginar como se vive de aparências nessa fase da vida. Trabalha-se muito, ganha-se pouco e, para compensar, afoga-se as mágoas em uma festa qualquer. Ao reparar isso, ela entrou oficialmente na crise dos 20 e poucos anos. Uma crise quase que obrigatória para todo jovem dos anos 2000 e tantos.

No tempo de seus pais era diferente. Não havia oportunidade para se viver essa crise. A mãe já era mãe com a idade dela. E essa informação vem à tona a cada bebedeira ou ato mais irresponsável. Ela sabe que não é mais hora de fazer esse tipo de coisa e se sente vazia cada vez que se arruma para sair de balada. “Não tenho mais idade pra isso.” Além disso, é cada vez mais difícil reunir os amigos. O povo da faculdade quase não se vê mais, cada um curtindo a seu modo a crise dos 20 e poucos.

Quer encontrar o homem certo e está cansada de se divertir com os errados. Ainda sonha com o príncipe encantado, mas não tem ideia de onde ele possa estar. Tem preguiça dos homens de sua idade, todos tão vazios, e mais ainda dos mais velhos, que ainda se acham uns garotões e insistem em um estilo de vida que nem ela quer mais para si.

No trabalho é a mesma coisa. Não está no cargo que tanto sonhou e não tem mais certeza de ter escolhido a profissão certa. Acha o chefe um incompetente e a empresa uma grande vilã. Não consegue entender como algumas pessoas são capazes de ficar mais de cinco anos no mesmo lugar. Ela mesma comemora quando ultrapassa a barreira do primeiro aniversário – um sinal de grande resistência.

No fundo, seu sonho era largar tudo, colocar a mochila nas costas e rodar o mundo. Gravar um documentário. Ajudar crianças carentes da África. Fugir. No fundo é isso que deseja, já que a realidade é tão cruel. Como a grana é curta e não deixa que os sonhos sejam algo mais que isso, pensa em como montar um blog de sucesso, mudar de área, ter a própria empresa – uma coisa moderna, que ninguém ainda fez, sabe? Nem ela sabe, na verdade.

O que ela sabe é que está cada vez mais perto dos 30 e isso é assustador. Ultrapassar essa barreira vai ser a última oportunidade de virar adulta – e de não ser uma velha ridícula e carente, igual aquela do trabalho. Última chance para ser bem sucedida na profissão. Última chance para encontrar o cara certo. Envelhecer, que já foi um grande sonho, começa a ser angustiante. Tudo parece ser a última chance. O que ela não sabe, porém, é que não existe última chance e, muito menos, que essa não é a última crise. Depois vão vir as dos 30, dos 40, dos 50, todas as que existem no meio dessas e todas as que virão depois. Sempre vão existir as oportunidades perdidas e as impossíveis de realizar. E assim, de crise em crise, o barco segue e chega a algum lugar – quase sempre bem diferente daquele que imaginamos onde iríamos estar.