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Amor paulistano

Ela estava perdida. Em todos os sentidos estava perdida. Quando desceu do avião, se tocou de que não tinha ideia de para onde deveria ir. Pior que isso. Não falava a língua estranha daquelas pessoas estranhas que pareciam andar meio desatentas, tropeçando umas nas outras. Aquele foi o primeiro momento em que se perguntou o que estava fazendo ali. O primeiro de muitos. Em cada um deles encontrou uma resposta tão furada quanto convincente, levantou a cabeça e seguiu. Em geral, essas respostas envolviam um sentimento que estava mais para difícil de explicar do que para óbvio. Estava lá por amor. Quando soube que podia perder para sempre o homem de sua vida, ela não pensou muito antes de correr para o aeroporto e pegar o primeiro avião que partisse para São Paulo. Fez como se pegasse um ônibus de casa para o trabalho.

Antes que fosse vencida pelo susto de estar naquele lugar estranho, tomou a decisão de fazer o que parecia ser mais óbvio. Em 27 anos de vida, nunca tinha viajado para fora de seu país, mas morar em Nova York tinha ensinado que, na dúvida, a melhor coisa a ser feita é seguir a manada. Seguiu e se deparou com uma fila de gente que, uma a uma, entrava naqueles carros brancos. Apesar da falta de cor, as plaquinhas em cima logo fizeram com que ela percebesse que eram taxis. Ótimo. Não sabia ainda para onde queria ir, mas o motorista certamente conheceria um hotel. Entrou na fila e assim que chegou sua vez, pediu para ser levada a um hotel bom e barato. O taxista fez cara de ponto de interrogação e só então ela se relembrou que a Torre de Babel já tinha caído há muito tempo. Tentou a mímica, misturada com um pouco de espanhol aprendido com uma empregada velha que trabalhou na casa de seus pais. Funcionou. O carro finalmente começou a andar e, quase uma hora depois, estava parada na frente de um hotel.

Ficou aliviada quando descobriu que a atendente falava inglês. Pediu um quarto e contou seu drama. Todos os detalhes. Falou que tinha saído dos Estados Unidos atrás de um sujeito do qual não sabia quase nada. A recepcionista do hotel se solidarizou com a história. Viraram quase que amigas. Entre um cliente e outro, conversavam sobre amores passados, presentes e futuros. A atendente prometeu que ia ajudar a gringa a achar o amor. No fundo, mais do que torcer para achar o sujeito, rezava para que promover o reencontro valesse a pena. Já tinha se apegado àquela garota e estava com medo de que ela se decepcionasse. Se isso acontecesse, de alguma forma, a recepcionista se sentiria culpada. E de culpas já bastavam as que eram realmente suas.

A moça não sabia quase nada do amado. Só que o nome era Wagner. Que morava em São Paulo. Que tinha ido aos Estados Unidos há menos de um mês, segundo ele para uma reunião de trabalho. Disse que era executivo de uma multinacional, mas ela nunca acreditou muito nessa história. Achava mais provável que ele fosse um brasileiro comum, desses que faz algum sacrifício para conhecer Nova York.

Não sabia por onde começar a procurar, mas tinha que descobrir alguma forma. Uma viagem daquelas não poderia ser em vão. Com a ajuda da amiga-recepcionista, tentou se lembrar de detalhes. Talvez uma frase que não fizesse muito sentido para ela servisse de referência para a outra. Em algum momento, ele comentou algo sobre uma feira de arte. Disse que gostava de ir lá aos fins de semanas. Que era um dos melhores lugares para se comer coisas típicas do Brasil a um preço justo. A recepcionista pensou que pudesse ser a Benedito Calixto. Prometeu levar a moça até lá no próximo sábado.

Enquanto esperava a chegada do tão esperado dia, ela resolveu conhecer um pouco mais de São Paulo. Sempre sob orientações da amiga, andou pela Paulista, viu as vitrines da Oscar Freire, correu no Parque do Ibirapuera e rezou na Catedral da Sé para reencontrar seu grande amor.

Na noite da véspera, como que para comemorar o sucesso garantido do dia seguinte, as duas amigas foram à Vila Madalena. Foi em um bar de samba que, pelo mais mero acaso, a americana encontrou o amor de sua vida. Não era aquele que tinha conhecido em Nova York, mas essa busca, de repente, ficou sem qualquer sentido.

Sem qualquer lamentação

Entrou no ônibus cansado de um dia de trabalho em que nada deu certo. O chefe, aquela mula, parecia ter o prazer de atrapalhar tudo. Tinha dúvidas de se aquilo tudo era maldade ou a mais pura incompetência. Seja como for, sabia que a situação era insustentável. Mais cedo ou mais tarde ia ter que pedir demissão. Com dois filhos nas costas, era difícil fazer isso sem ter nada na manga, mas talvez fosse a única alternativa.

Estava com a cabeça longe, de pé perto da porta mais distante, quando não reparou a entrada de dois meninos no ônibus. Eles entraram por trás, como faz quem convence o motorista a dar uma carona ou a permitir que se venda alguma coisa aos passageiros. São poucos os motoristas que fazem isso hoje em dia, preocupados com a manutenção da própria existência. Aquele, porém, era um dos que põem o coração acima de si mesmo e permitiu que os dois moleques embarcassem pela porta de traz.

O mais novo não passava dos 9 anos. O mais velho, se tinha 12, havia feito aniversário por aqueles dias. O homem não percebeu a entrada dos dois e não percebeu também que o menor – que era o mais velho – carregava na mão um pandeiro.

Aquela dupla não ia vender balas, água e nem descascador de batata. Tampouco estavam lá apenas pela carona. Foi só na primeira gargalhada geral que o homem reparou na existência das duas crianças. Reparou também, logo de cara, o que eles estavam fazendo ali.

Zé Biscoito e João Bolacha, como se apresentaram pouco antes de homem saber de suas existências, eram repentistas. Apesar da pouca idade – ou talvez até por isso – os dois tinham o dom de encantar o público. Mal terminavam o verso e a risada se espalhava do motorista ao último passageiro. A coisa era tão contagiante que até a velhinha surda do primeiro banco e o menino com fones de ouvido sentado lá no fundo riam gostosamente – mesmo sem saber ao certo o que a duplinha tinha acabado de cantar.

A imagem e o gesto dos dois eram engraçados por si só. Eles tinham talento. Tanto que, ao se deparar com os dois, o homem desistiu de seus próprios problemas. Pensou em como devia ser sofrida a vida daqueles moleques e que mesmo assim eles tinham a capacidade de fazer um monte de gente gargalhar. Talvez fossem órfãos. Provavelmente não iam à escola. Não era pequena a chance de que apanhassem de um padrasto cruel ou que uma madrasta de contos de fada os obrigasse a estar ali. Naqueles poucos minutos, todos os preconceitos que existem contra a população que ganha a vida nas ruas serviram para tornar ainda mais terna a figura daqueles dois. Pobres meninos sofridos. Quem sou eu para reclamar de um chefe tosco quando há tanta gente com motivos tão grandes para reclamar que acaba se contentando em se conformar?

Se distraiu tanto na filosofia barata que acabou por deixar o ponto passar. Não protestou, como faria normalmente, e nem tentou culpar ninguém pelo próprio erro. Deu o sinal e desceu no próximo. A rua estava escura e quando correu para atravessar, ainda com a história que criou para os meninos na cabeça, não viu o carro que rasgava a pista. O impacto foi imediato e a morte, diferente de toda a vida, veio sem qualquer lamentação.

Um dia de sorte

Olhando para os lados, como quem procura a presença da polícia pouco antes de cometer um crime, ele entrou na delegacia. Bem devagar, caminhou até o primeiro policial que encontrou e pediu para falar com o delegado. O policial, um gordinho com cara de pouco caso e bigodinho fino, igual o dos galãs de antigamente, perguntou o motivo.

– Tenho uma confissão a fazer.

Foi medido de cima a baixo. Os pouco menos de um metro e sessenta, a boca grossa e os olhos arregalados exalavam vagabundagem de todos os poros. Mas com certeza não passava de um bandidinho pé-de-chinelo. Batedor de carteira. Quando muito, assaltante de padaria. Se fosse criminoso importante, não andaria com aquelas roupas quase sujas e prestes a rasgar – cara de roupa de segunda mão, retirada há pouco em alguma obra de caridade qualquer.

– Senta ai e espera. O delegado muito ocupado para te atender agora.

– Ele vai gostar de me ouvir.

Aquela hora da noite, o delegado com a cabeça cheia por conta do assassinato da moça dos Jardins, os jornalistas na porta, doidos para receber uma boa dose de carniça e aquele sujeitinho maltrapilho querendo incomodar o homem.

– Vai ter que esperar.

– Mas fui eu que matei a loirinha no Trianon – mal terminou a frase e pareceu surpreso com o que tinha acabado de dizer. Teve que repetir para ver se fazia sentido – Fui eu!

O gordinho sentiu as pernas tremerem naquele momento. Três semanas de investigação e nenhum suspeito decente. A sociedade questionando a competência daquela equipe. E, de repente, o vagabundo estava lá, na sua frente, pronto para se entregar. Estava bom demais para ser verdade. Não podia ser verdade. Se soubesse que aquele era seu dia de sorte, teria aproveitado a hora do almoço para encarar a fila da Lotérica. Sem dizer palavra para o maltrapilho à sua frente, virou o rosto e gritou para que um tal de Meira fosse chamar o doutor.

O doutor – um jovem bacharel, que arrancava suspiros das donas de casa que viam suas entrevistas no Jornal Hoje – saiu de sua sala com ares de mau humor. Nos últimos dias, só sabia fazer cara melhor na hora das entrevistas. Esse povo da imprensa não pode reparar que ando tão preocupado.

– Que foi? – apesar da cara e do esforço para que a pergunta ganhasse ares de repreensão, o tom não foi tão azedo quanto seria de se esperar. Nunca conseguia ser tão durão quanto queria.

O gordinho de bigodes caminhou até o doutor e cochichou em seu ouvido. O doutor fez o sinal da cruz, mas não quis deixar que sua cara mostrasse qualquer alívio – como sempre, falhou na missão.

– Vamos entrar.

Entraram os três. O sujeito maltrapilho, o doutor bonitão e o gordinho dos bigodes.

Como matou? Por que matou? Conhecia a vítima? Roubou alguma coisa? Já tinha matado antes? Usa droga? Cadê a arma? Horas de perguntas. Horas de respostas. Nem todas batiam exatamente com o que as investigações tinham apontado. Mas eram respostas – e era isso o que mais estava em falta naquela delegacia nas últimas três semanas. Se o sujeito estava dizendo, tinha que ser verdade.

Confissão feita. Bandido preso. Hora de avisar àquele povo da imprensa que eles já tinham uma foto para estampar na primeira página do dia seguinte.

Depois de tanto tempo, aquele tinha sido um dia de sorte. Os jornais iam ter a tão sonhada manchete forte e inesperada. O doutor, o gordinho e o Meira, iam ter um pouco mais de paz até o próximo caso barulhento. O maltrapilho ia ter a chance de dormir sob um teto. E alguém, em algum lugar, ia respirar aliviado ao saber que tinham encontrado um culpado.