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As lágrimas

Tinha por hábito chorar a qualquer sinal de emoção. Nem sempre um choro sincero. Na maioria das vezes, na verdade, aquelas lágrimas nada mais eram do que o sentimento de uma obrigação social. Chorava por tudo e por todos e não sentia por coisa alguma e por ninguém. Era tão triste e encarava a vida com tanto desdém, que não considerava absolutamente nada digno de lágrimas reais. Nem seus próprios problemas eram capazes de umedecer seus olhos de forma sincera. Não agradava, porém, a ideia de que todos soubessem de sua frieza. E por isso fingia chorar. E ao pensar nisso – e só nessa hora – chorava com convicção. Cada lágrima que corria por suas bochechas eram, para ele, o símbolo de quanto sua vida era vazia. No fundo, sem que soubesse, chorava sua própria inexistência. Chorava a ausência de motivos para chorar.

Se acostumou a forçar as lágrimas desde pequeno e fazia isso com certa facilidade. Bastava alguém contar as primeiras sílabas de uma história triste e lá estava a primeira gota d’água, cheia de discrição, avançando lentamente por seu rosto. Conforme a história avançasse também, outras águas se juntariam àquela, formando uma linda imagem de comoção. Chorava de um jeito belo, de tanto que já tinha treinado tal atividade. Fazia tão bem seu papel que não era raro ver os outros se comoverem apelas pela sua comoção. Aqueles eram os poucos momentos em que se sentia humano.

Não teve uma vida fácil e logo cedo ganhou a consciência de que jamais teria. Nunca se tocou de que essa não era exclusividade sua. O egoísmo, tal qual as lágrimas, era sua principal marca. Não amava ninguém além de si próprio. E mesmo a si só o fazia por uma ingrata obrigação. Assim, ver alguém chorando por ele – algo que era incapaz de fazer pelos outros – o fazia ser tomado de um profundo orgulho. Existia, afinal.

Quando lia ou ouvia falar das carpideiras, sentia uma ponta de inveja. Nunca foi um profissional brilhante em sua área. Muito provavelmente se tivesse podido escolher a profissão daquelas velhas senhoras, seria o melhor de todos. Essa não era uma opção. E ao pensar em como seu único dom era inútil, sentia os olhos, as bochechas e o queijo se encharcarem com uma água sincera.