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Daqueles pequenos grandes momentos

Ele, um daqueles loucos que larga o emprego para viajar pela Europa, quase que sem destino – em busca de um destino. Ela uma funcionária padrão – uma burocrata qualquer perdida nos corredores de uma empresa qualquer. Os dois, um casal sem passado e sem presente. Um casal provavelmente sem futuro – que, se houvesse, seria um daqueles horizontes sempre distantes, inalcançáveis. Quando se encontraram, foi a mais pura obra do acaso. Ele, em uma de suas viagens. Ela, no fim de um de seus expedientes sem fim. Por acaso ou por destino, pararam para fumar no mesmo lugar. Ela estava cansada, mas não resistiu quando cruzou seus olhos naqueles olhos tão negros, que mal podia ver na escuridão da noite. (Nunca tinha visto uns olhos tão escuros em toda sua vida.) Fingiu estar sem fogo e pediu por ajuda. Ele não entendeu. Não falava alemão, explicou em um inglês que ela demorou uns instantes para entender. Repetiu o pedido por um isqueiro, agora em inglês e ele finalmente pôde ver melhor o rosto dela, graças à chama que iluminou o espaço entre os dois. Gostou do que viu. Os olhos claros, entre o verde e o azul, a pele clara, o cabelo loiro. Não era o tipo de garota que geralmente o atraia, mas gostou do que viu.

A noite estava fria, como é de se imaginar quando se está num inverno naquele canto da Europa. Qualquer número positivo no termômetro seria uma decepção para ele. Ainda mais naquele momento, em que os menos alguma coisa eram o pretexto ideal para ficar mais próximo, mesmo que ainda fossem completos desconhecidos. Sentiu vontade de passar toda a noite com aquela garota. E esse sentimento, por mais que não fosse uma novidade, não era dos mais comuns para ele. Não naquele momento. Não naquela situação. Ao longo de suas andanças pela Europa, nos últimos três meses, não procurou por sexo em nenhum dos lugares por onde passou. Quando aconteceu, foi algo assim, um acontecimento ou uma bebedeira quaisquer. Houve uma belga em Paris, uma irlandesa em Barcelona e uma portuguesa em Roma. Naquele instante, relembrando as andanças no velho continente se deu conta de que só tinha transado nas cidades mostradas nos filmes europeus do Woody Allen – e nunca com uma nativa. Justo ele, que não entendia porque tanto endeusavam Woody Allen. Justo ele, que sempre se encantava com a beleza das mulheres locais, fossem quais fossem.

Naquele instante, relembrando suas aventuras no velho continente resolveu que iria quebrar essa regra imposta pelo acaso. Não iria transar em uma cidade de Woody Allen e, ao que tudo indicava, finalmente conheceria os prazeres de desfrutar de uma mulher em sua própria terra. Enquanto pensava em tudo isso, conversava quase despretensiosamente. Antes de qualquer movimento mais sério, preferiu confirmar suas impressões. Romper a tradição seria um sinal importante de que estava no caminho certo. Aquela viagem para a Europa tinha sido planejada para por rotinas a baixo, então não podia deixar que uma nova se criasse, mesmo que fosse por mera coincidência. Perguntou se Woody Allen já tinha filmado por ali. Ela riu, curiosa para saber como aquele velho judeu de Nova York conseguiria fazer um filme encantador em uma cidade que só tinha como encantos uma ou outra sede de empresas multinacionais – uma cidade mais fria que as temperaturas mostradas nos termômetros. Ele riu, fingindo achar aquele velho judeu de Nova York tão genial quanto ela parecia pensar.

Ela não entendia bem o que ele queria com aquela conversa toda. (Afinal, sem saber das últimas transas daquele maluco, seria impossível entender tanto interesse nos filmes europeus de Woody Allen, justo os mais chatos de todos.) Mas, mesmo sem entender, estava gostando do papo. Ou, talvez, mesmo sem entender, estivesse gostando do rapaz que conduzia o papo. Mesmo sem entender todo o inglês dele, conversavam como se tivessem sido alfabetizados na mesma língua. Mesmo sem entender aonde tudo aquilo ia dar, deixava as coisas rolarem.

Mais um pouco e ele perguntou se ela era nascida e criada em alguma daquelas ruas estreitas. Ela disse que vinha do outro lado da ponte, onde as ruas não eram tão estreitas, mas que era, sim, uma típica cidadã de lá. Parecia o sinal perfeito. E os sinais não se restringiam àquela bobagem de pôr abaixo aquela tradição de araque. Os dois tinham muito em comum. (Mesmo que isso não significasse quase nada.) Compartilhavam o desejo de conhecer todo o mundo. (Mas não há pessoa no planeta que não tenha esse sonho – ainda mais quando jovem.) Gostavam de comida japonesa. (Mas essa é outra espécie de obrigação do mundo globalizado.) Choravam pelos jovens mortos nas praças do Egito e da Ucrânia e tinham certo arrepio em pensar no poder onipresente dos Estados Unidos. (Como é de se esperar do espírito revolucionário de qualquer um que ainda não tenha feito 30.) Fingiam gostar de filmes e livros que nunca tinham visto e lido. (Tal qual todo ser humano faz no momento em que se sente interessado por uma outra pessoa.) E por ai seguiam, enumerando um tanto de gostos sobre os quais – fingiam não saber – era quase impossível de discordarem.

Para aquela noite fria. Para aquela conversa que começou graças a um pedido de mentirinha. Para aquela viagem maluca que ele fazia. Para aquele dia tão comum que ela vivia todos os dias. Para tudo isso, aquele momento era perfeito. Mas os dois estavam longe de serem perfeitos. Ele tinha medo de ofender a honra de uma moradora local. Não sabia quais eram os costumes da região e como seria interpretado se tentasse um movimento mais ousado. Ela tinha medo da fama de machistas dos homens brasileiros. Não sabia se ele ficaria ofendido se ela tentasse um movimento mais ousado.

Entre esses medos tão bobos, ficaram conversando por toda a noite. E poderiam passar muito mais tempo, não fosse o frio e a necessidade que ela tinha de voltar para casa antes do último bonde. Ela começou a olhar para o relógio e avisou quando faltavam dez minutos para a hora de partir. Ele caminhou com ela até o ponto em frente ao teatro. Ficaram por lá, conversando, pelos exatos dez minutos que ela disse que eles ainda tinham pela frente. Os últimos três foram de uma conversa muda, uma ausência de palavras entre quem ainda quer dizer alguma coisa, mas não sabe ao certo o que nem como.

Não estavam apaixonados. Ela não acreditava em amores a primeira vista. Ele não acreditava em amores. Não estavam apaixonados, mas havia alguma coisa entre eles. Ia além daquela conexão de obviedades, daquela vontade de agradar ao outro, da vontade mútua de transarem. Não era paixão, mas não era só tesão. Não era nada. Mas tinha potencial para ser aquilo tudo.

Quando o bonde chegou, ela entrou e acenou pela janela. Sabia que muito provavelmente nunca mais veria olhos tão pretos em toda sua vida. Talvez dentro de alguns dias ou semanas, no máximo, não se lembrasse do rosto daquele rapaz com quem havia passado as últimas horas conversando. Poderia não se lembrar da boca ou do nariz. Mas se lembraria, sem sombra de dúvidas, daqueles olhos. Ela não acreditava em amores a primeira vista, mas jamais se esqueceria do momento em que viu aqueles olhos.

Ele se lembraria dela, do rosto iluminado pelo isqueiro, da forma como ela segurava o cigarro e do jeito que ela ria nos momentos mais inesperados. Ficaria na cidade apenas durante a próxima manhã, mas prometeu para si mesmo que voltaria num futuro muito próximo. Era uma questão de honra reencontrar aquela garota de quem sequer sabia um e-mail ou telefone. Ele não acreditava em amores, mas não desistiria enquanto não tivesse certeza se ela era ou não a mulher escolhida para passar o resto de sua vida ao seu lado. Prometeu voltar. Mesmo sabendo que era uma daquelas promessas feitas só até o próximo pequeno amor.