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Daqueles pequenos grandes momentos

Ele, um daqueles loucos que larga o emprego para viajar pela Europa, quase que sem destino – em busca de um destino. Ela uma funcionária padrão – uma burocrata qualquer perdida nos corredores de uma empresa qualquer. Os dois, um casal sem passado e sem presente. Um casal provavelmente sem futuro – que, se houvesse, seria um daqueles horizontes sempre distantes, inalcançáveis. Quando se encontraram, foi a mais pura obra do acaso. Ele, em uma de suas viagens. Ela, no fim de um de seus expedientes sem fim. Por acaso ou por destino, pararam para fumar no mesmo lugar. Ela estava cansada, mas não resistiu quando cruzou seus olhos naqueles olhos tão negros, que mal podia ver na escuridão da noite. (Nunca tinha visto uns olhos tão escuros em toda sua vida.) Fingiu estar sem fogo e pediu por ajuda. Ele não entendeu. Não falava alemão, explicou em um inglês que ela demorou uns instantes para entender. Repetiu o pedido por um isqueiro, agora em inglês e ele finalmente pôde ver melhor o rosto dela, graças à chama que iluminou o espaço entre os dois. Gostou do que viu. Os olhos claros, entre o verde e o azul, a pele clara, o cabelo loiro. Não era o tipo de garota que geralmente o atraia, mas gostou do que viu.

A noite estava fria, como é de se imaginar quando se está num inverno naquele canto da Europa. Qualquer número positivo no termômetro seria uma decepção para ele. Ainda mais naquele momento, em que os menos alguma coisa eram o pretexto ideal para ficar mais próximo, mesmo que ainda fossem completos desconhecidos. Sentiu vontade de passar toda a noite com aquela garota. E esse sentimento, por mais que não fosse uma novidade, não era dos mais comuns para ele. Não naquele momento. Não naquela situação. Ao longo de suas andanças pela Europa, nos últimos três meses, não procurou por sexo em nenhum dos lugares por onde passou. Quando aconteceu, foi algo assim, um acontecimento ou uma bebedeira quaisquer. Houve uma belga em Paris, uma irlandesa em Barcelona e uma portuguesa em Roma. Naquele instante, relembrando as andanças no velho continente se deu conta de que só tinha transado nas cidades mostradas nos filmes europeus do Woody Allen – e nunca com uma nativa. Justo ele, que não entendia porque tanto endeusavam Woody Allen. Justo ele, que sempre se encantava com a beleza das mulheres locais, fossem quais fossem.

Naquele instante, relembrando suas aventuras no velho continente resolveu que iria quebrar essa regra imposta pelo acaso. Não iria transar em uma cidade de Woody Allen e, ao que tudo indicava, finalmente conheceria os prazeres de desfrutar de uma mulher em sua própria terra. Enquanto pensava em tudo isso, conversava quase despretensiosamente. Antes de qualquer movimento mais sério, preferiu confirmar suas impressões. Romper a tradição seria um sinal importante de que estava no caminho certo. Aquela viagem para a Europa tinha sido planejada para por rotinas a baixo, então não podia deixar que uma nova se criasse, mesmo que fosse por mera coincidência. Perguntou se Woody Allen já tinha filmado por ali. Ela riu, curiosa para saber como aquele velho judeu de Nova York conseguiria fazer um filme encantador em uma cidade que só tinha como encantos uma ou outra sede de empresas multinacionais – uma cidade mais fria que as temperaturas mostradas nos termômetros. Ele riu, fingindo achar aquele velho judeu de Nova York tão genial quanto ela parecia pensar.

Ela não entendia bem o que ele queria com aquela conversa toda. (Afinal, sem saber das últimas transas daquele maluco, seria impossível entender tanto interesse nos filmes europeus de Woody Allen, justo os mais chatos de todos.) Mas, mesmo sem entender, estava gostando do papo. Ou, talvez, mesmo sem entender, estivesse gostando do rapaz que conduzia o papo. Mesmo sem entender todo o inglês dele, conversavam como se tivessem sido alfabetizados na mesma língua. Mesmo sem entender aonde tudo aquilo ia dar, deixava as coisas rolarem.

Mais um pouco e ele perguntou se ela era nascida e criada em alguma daquelas ruas estreitas. Ela disse que vinha do outro lado da ponte, onde as ruas não eram tão estreitas, mas que era, sim, uma típica cidadã de lá. Parecia o sinal perfeito. E os sinais não se restringiam àquela bobagem de pôr abaixo aquela tradição de araque. Os dois tinham muito em comum. (Mesmo que isso não significasse quase nada.) Compartilhavam o desejo de conhecer todo o mundo. (Mas não há pessoa no planeta que não tenha esse sonho – ainda mais quando jovem.) Gostavam de comida japonesa. (Mas essa é outra espécie de obrigação do mundo globalizado.) Choravam pelos jovens mortos nas praças do Egito e da Ucrânia e tinham certo arrepio em pensar no poder onipresente dos Estados Unidos. (Como é de se esperar do espírito revolucionário de qualquer um que ainda não tenha feito 30.) Fingiam gostar de filmes e livros que nunca tinham visto e lido. (Tal qual todo ser humano faz no momento em que se sente interessado por uma outra pessoa.) E por ai seguiam, enumerando um tanto de gostos sobre os quais – fingiam não saber – era quase impossível de discordarem.

Para aquela noite fria. Para aquela conversa que começou graças a um pedido de mentirinha. Para aquela viagem maluca que ele fazia. Para aquele dia tão comum que ela vivia todos os dias. Para tudo isso, aquele momento era perfeito. Mas os dois estavam longe de serem perfeitos. Ele tinha medo de ofender a honra de uma moradora local. Não sabia quais eram os costumes da região e como seria interpretado se tentasse um movimento mais ousado. Ela tinha medo da fama de machistas dos homens brasileiros. Não sabia se ele ficaria ofendido se ela tentasse um movimento mais ousado.

Entre esses medos tão bobos, ficaram conversando por toda a noite. E poderiam passar muito mais tempo, não fosse o frio e a necessidade que ela tinha de voltar para casa antes do último bonde. Ela começou a olhar para o relógio e avisou quando faltavam dez minutos para a hora de partir. Ele caminhou com ela até o ponto em frente ao teatro. Ficaram por lá, conversando, pelos exatos dez minutos que ela disse que eles ainda tinham pela frente. Os últimos três foram de uma conversa muda, uma ausência de palavras entre quem ainda quer dizer alguma coisa, mas não sabe ao certo o que nem como.

Não estavam apaixonados. Ela não acreditava em amores a primeira vista. Ele não acreditava em amores. Não estavam apaixonados, mas havia alguma coisa entre eles. Ia além daquela conexão de obviedades, daquela vontade de agradar ao outro, da vontade mútua de transarem. Não era paixão, mas não era só tesão. Não era nada. Mas tinha potencial para ser aquilo tudo.

Quando o bonde chegou, ela entrou e acenou pela janela. Sabia que muito provavelmente nunca mais veria olhos tão pretos em toda sua vida. Talvez dentro de alguns dias ou semanas, no máximo, não se lembrasse do rosto daquele rapaz com quem havia passado as últimas horas conversando. Poderia não se lembrar da boca ou do nariz. Mas se lembraria, sem sombra de dúvidas, daqueles olhos. Ela não acreditava em amores a primeira vista, mas jamais se esqueceria do momento em que viu aqueles olhos.

Ele se lembraria dela, do rosto iluminado pelo isqueiro, da forma como ela segurava o cigarro e do jeito que ela ria nos momentos mais inesperados. Ficaria na cidade apenas durante a próxima manhã, mas prometeu para si mesmo que voltaria num futuro muito próximo. Era uma questão de honra reencontrar aquela garota de quem sequer sabia um e-mail ou telefone. Ele não acreditava em amores, mas não desistiria enquanto não tivesse certeza se ela era ou não a mulher escolhida para passar o resto de sua vida ao seu lado. Prometeu voltar. Mesmo sabendo que era uma daquelas promessas feitas só até o próximo pequeno amor.

 

O beijo

Sentiu uma vontade louca de beijar aquela boca e, antes mesmo que notasse isso, já estava fazendo a mágica que torna desejo em realidade. Nunca tinha feito aquilo na vida. Não que fosse seu primeiro beijo. Mas era o primeiro daquele beijo. Aquele era um beijo diferente. Havia um sentimento diferente ali. Não era tesão, carinho ou amor. Já conhecia todos esses e em nada eles lembravam o que sentia agora. Talvez o leitor não consiga entender o que estou falando. É realmente difícil para quem nunca viveu essa sensação de que tudo encaixa com uma perfeição sem igual, de que não há nada no mundo além daquele beijo, de que aquele momento tão especial nunca vai se repetir – não daquele jeito. Não é que aquela pessoa seja perfeita, única ou especial. A perfeição é do momento, não das pessoas. Como naqueles fatos que acontecem uma vez a cada dois ou três séculos e que a próxima geração mal toma conhecimento sobre sua existência. Um cometa, o nascimento de um grande líder, a invenção de uma nova estética… Apenas quem está lá, naquele momento, sabe identificar que algo de muito especial está acontecendo – e que esse fato independe de tudo que não seja o cosmos, a força superior, Deus, ou qualquer outro nome que você prefira.

Aquele beijo era, definitivamente, um evento cósmico. Bocas que nunca antes tinham se encontrado, agora se encaixavam com perfeição, como se conhecessem em detalhes os detalhes uma da outra. Os dois, em uns tantos momentos, chegaram a perder o fôlego, mas fizeram questão de continuar. Não havia motivos para se interromperem. Era um beijo longo, longuíssimo, mas não daqueles beijos feios, que chegam a deixar quem está do lado constrangido. Era um beijo longo, longuíssimo, mas de uma espécie rara, que apenas revela aos demais que, ali, há um algo de diferente. Ninguém sentiu vontade de interromper o casal ou de sugerir que eles buscassem um quarto ou um motel. Não era um beijo pornográfico. Longe disso.

As mãos dela corriam pelas costas dele, como se procurassem por lá um conforto ainda maior. As mãos dele corriam pelos cabelos dela, como se segurar aqueles cachos fosse a única forma de manter a magia para sempre. De resto, os corpos estavam parados. O mundo todo se movendo ao redor dos dois e eles lá, sozinhos, únicos no mundo e em seus pensamentos. Sem família, trabalho ou contas para pagar. Sem comunismo ou capitalismo. Sem trânsito ou planos para as férias. Sem nada. Absolutamente nada.

Como se fossem dois monges budistas no auge da meditação, tinham a cabeça vazia. Agiam quase que totalmente por instinto e era isso que fazia aquele momento tão mágico. Não precisavam se preocupar em ser alguma coisa. Eram eles – e talvez fosse isso o que fazia daquele momento algo tão especial. Ou talvez não, já que nessa ideia há uma boa dose daquela psicologia barata que nos faz acreditar que nunca queremos ser o que somos de fato – ou algo assim. Na verdade, o que fazia daquele momento algo tão especial é que tudo estava certo para que aquele momento fosse algo tão especial.

Se conheciam há algum tempo, mas não podiam dizer que eram amigos. Não nutriam expectativas um com o outro. Nunca sonharam com aquele beijo. Não sabiam – e naquele momento era a última coisa que queriam saber – o que aconteceria no momento seguinte. E não tinham noção de nada disso naquele instante.

Talvez um poeta dissesse que eram um só corpo. Mas isso não passaria dessas bobagens que os poetas costumam dizer para encantar a gente e nos fazer sentir que nunca viveremos um amor verdadeiro. Eles não. Não eram um só corpo. Eram dois corpos entrosados, felizes de estarem um com o outro.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo levou até que aquele beijo acabasse. Para quem olhasse de fora, foi tempo o suficiente para invejar. Para os dois, não houve medida de tempo. Beijaram pelo infinito e um pouco além. Todo o infinito é pouco quando nos encontramos no beijo de outra pessoa. Quando finalmente se soltaram, se olharam e riram. Riram com o mesmo entrosamento do beijo, mas foram perdendo a força até que pararam e se concentraram apenas na boca um do outro. Não conseguiam desviar os olhos dos lábios do outro. A ideia de repetir o feito era tentadora, mas dava medo. Jamais alcançariam aquele ponto de novo. Ela tomou a iniciativa – sempre são elas que tomam a iniciativa. Virou e foi ao bar pegar uma bebida. Quem sabe outra noite…

 

A ruiva

Só quem já se apaixonou por uma ruiva sabe o quanto isso é difícil. E ele já estava calejado o suficiente para saber. Foi no colégio – quando ainda não tinha noção de absolutamente nada e descobria absolutamente tudo – que soube do poder daqueles cabelos com cores difíceis de descrever – e impossíveis de se imitar com tintura. Sofreu muito, como acontece em todo primeiro amor. O sentimento era tão intenso que prometeu jamais, em toda a sua vida, até o último dia e enquanto ainda tivesse forças se apaixonar por outra ruiva. Dizem que Lucille Ball, a ruiva mais famosa dos anos cinquenta, tinha uma frase sobre o direito de todo homem se apaixonar pelo menos uma vez na vida por uma linda ruiva. Lucy advogava em causa própria, mas tudo bem. Assim ficaria decidido: se uma vez era o suficiente, ele já tinha preenchido a cota.

Mal se lembrava da origem dessa promessa quando conheceu Vanessa. A apresentação foi formal, típica de novos colegas de escritório. Ela sentaria a seu lado e parecia ser muito gente boa. Nada demais. Apenas gente boa. Não que isso fosse suficiente para quebrar todo o preconceito que sentia contra aqueles cabelos, mas já era um bom começo. Nos primeiros dias, trocavam apenas cumprimentos protocolares. Mas a coisa logo evoluiu para uma amizade. Ela tinha uma risada simpática, que sabia surgir na hora certa. Saber rir na hora certa e de um jeito simpático é uma qualidade que deveria ser mais valorizada, de tão rara que é. Os olhos eram espertos e sabiam ser irônicos. Ter olhos irônicos também não é para qualquer um. É preciso uma malícia natural, capaz de transmitir o tom certo apenas com uma mirada. Ela tinha essa malícia e – como toda ruiva – muitas outras.

De risada em risada e de olhar em olhar, a amizade se fortaleceu. Saiam para almoçar juntos e, nessas ocasiões, jamais falavam de trabalho. Essa era uma característica que ele valorizava bastante em colegas de escritório. A capacidade de só falar em serviço quando isso é realmente necessário é uma dádiva reservada a menos gente do que os sabem rir na hora certa e ser irônicos apenas com o olhar. Ele estava encantado por ela. Tinham muitas coisas em comum. Não gostavam dos mesmos livros, filmes ou música. Não torciam para o mesmo time. Não sonhavam com o mesmo futuro. E mesmo assim tinham absolutamente tudo em comum. As conversas rendiam horas. Se sentiam bem quando estavam juntos. Evitavam os demais colegas para ficarem sozinhos.

Talvez o leitor já esteja imaginando que não demorou para eles caírem em um  amor irreversível e que essa seja só mais uma história de final rápido e feliz. Não foi isso que aconteceu. Eduardo e Mônica é um casal que funciona apenas nas músicas de loucos como Renato Russo ou na cabeça de apaixonados, o que dá quase na mesma. Eles sabiam que deveriam se aproveitar apenas da amizade e que mais do que isso era procurar uma forma de acabar com tudo. Não queriam isso. Não podiam tolerar a ideia. Nem na maior das bebedeiras jamais trocaram um beijo sequer. De vez em quando até se imaginavam juntos e tinham uma amizade tão forte que falavam do assunto um com o outro com a maior naturalidade. Com a mesma naturalidade de que falavam de outros amores, maiores e menores, fixos e ocasionais. E isso era mais uma prova de que jamais dariam certo juntos. Se conheciam demais.

Como costuma acontecer em relações de amizade entre homens e mulheres, ele tinha muito mais interesse nela do que ela nele. Mas não importava. Sabiam lidar com a situação. Deixavam que os outros falassem e não se importavam com a maldade alheia. Se bastavam. E era isso que importava.

Chegou um momento, porém, em que sentiam falta de algo mais. Para que não precisassem encontrar esse algo mais um com o outro, resolveram se ajudar. Ele apresentou um amigo a ela. Em retribuição, ela incentivou um relacionamento entre ele e sua irmã. Formavam aqueles tipos de casais que fazem tudo em parceria, muito mais um quarteto do que dois pares. Não havia cinema, jantar ou festa a que não fossem todos juntos. A sincronia era tanta que os dois namoros acabaram na mesma data. Um casal não faria sentido sem o outro.

Depois disso, não demorou para que cada um começasse uma nova vida amorosa. Ela, com um antigo companheiro de faculdade – uma daquelas paixões mal resolvidas que todo mundo tem. Ele, com a amiga de um primo – uma daquelas paixões sem amor que todo mundo precisa ter. Calhou de os novos parceiros serem extremamente ciumentos. Foi natural então que acabassem tomando rumos diferentes. A amizade esfriou e acabou sem qualquer dor. Morreu antes que fosse morta.

Ela foi trabalhar em uma nova empresa e ele foi promovido para um novo setor. Como não tinham muitos amigos ou interesses em comum, era raro se encontrarem. Sentiam falta um do outro, mas nunca se deram conta disso. Quando ela casou, até pensou em convidá-lo para o casamento, mas soube que ele estava estudando nos Estados Unidos e deixou por isso mesmo.

Um dia, já quarentão, ele se pegou pensando que podiam ter sido um casal incrível. Não dariam certo, é lógico. Mas já que até a amizade, que parecia forte, teve fim, será que não teria valido apena fazer com que a relação fosse mais curta e mais intensa? Nunca teria a resposta para isso e nunca quis ter. Os caminhos que escolheram escreveram a história por si só. Talvez, se ele não tivesse conhecido aquela garota com cabelos e temperamento de fogo nos tempos de colégio, tudo teria sido diferente. Mas agora isso já não importava mais. Vanessa – com seus cabelos, sua risada e seu olhar – tinha deixado suas marcas. Assim como toda ruiva faz na vida de um homem. Dessa vez ao menos tinha sido sem sofrimento.

 

Minha desastrosa vida amorosa

Sempre quis me apaixonar loucamente. Viver um amor de cinema. Ter a coragem de correr atrás da garota dos meus sonhos em um aeroporto lotado. Olhar pela janela e ver um dia chuvoso, mas assim mesmo ir correndo só pra ver o meu amor. (Que maravilha! Que coisa linda que é o meu amor!) Olhar nos olhos de alguém e dizer, sem medo de parecer ridículo ou de estar exagerando, um “Eu te amo” sincero. Não sei se um dia vou viver algo assim. O que sei é que, quanto mais penso, mais começo a achar tudo isso uma bobagem – mas uma bobagem com a qual continuo sonhando.

Não é que nunca tenha me apaixonado. Pelo contrário. Cultivo amores em série e esse é um dos maiores motivos para eu não ter coragem de amar ninguém perdidamente. Como posso me dedicar exclusivamente a ela, se deve haver uma próxima ainda melhor, que me provoque sensações ainda mais intensas? E é assim que, quase como uma regra, vou transformando minhas paixões em amizade. Resultado: muitas amigas e nenhuma namorada. Uma vida amorosa para lá de desastrosa.

Pode ser pelo signo ou por algum outro problema qualquer, mas sou daqueles que sofre por amor. No fundo, gosto desse sentimento desesperador de não ter certeza do que a outra pessoa sente. Gosto de emitir sinais – nem sempre muito discretos – e aguardar respostas. Para ser sincero, sinto mais prazer nesse jogo prévio do que em tudo o que vem depois. É uma delícia procurar sinais de correspondência e uma angústia um tanto quanto masoquista ver que eles não estão chegando. Tem até casos em que já desisti da moça, mas continuo tentando descobrir se, em algum momento, ela me quis. Talvez seja uma carência, uma necessidade de me sentir amado. Não importa o motivo. O que importa é que está nessa sedução – palavra horrível e que já perdeu muito de seu significado – uma deliciosa fonte de prazer.

Nunca fui muito adepto da pegação pura e simples. Raramente fico com quem não conheço. Não vejo tanta graça em uma relação que surge do nada e tem um futuro tão promissor quanto o próprio passado. Sinto falta justamente desse jogo lento, que transforma a amizade em amor e que permite que o amor volte a ser amizade pura.

Sou um fã dessa linha tênue entre amor e amizade. Tenho muita dificuldade em identificá-la e acho que já perdi muito por conta disso – quantos amores eram só amizade e quantas amizades podiam ter sido grandes amores? Mesmo assim sou um fã incorrigível. Sem essa divisão tão fina, se apaixonar não faria sentido. Impossível uma relação dar certo sem caminhar cambaleante nessa fronteira. É esse andar de bêbado que mantém tudo vivo. E é quando a gente tomba definitivamente para um lado ou para o outro que as coisas saem do lugar.

Não me considero um grande especialista em matéria de amor. Nem poderia. Meus sentimentos são uma estranha mistura de romantismo e frieza que até eu sou incapaz de compreender. Sem me explicar, não tenho o direito de ser especialista em nada. O que sei sobre o amor – e é muito pouco, perto de tudo o que acho que qualquer um deveria saber para ditar regras por ai – é que ele é uma coisa estranha. Tudo bem que isso é um baita chavão. É natural, já que há tanto tempo o homem tenta encontrar explicações para o coração saindo pela boca e sempre falha.

Quase todas as vezes em que me senti apaixonado por uma garota, juntei coragem sabe-se lá de onde para demonstrar isso claramente. Existe apenas uma única e honrosa exceção, que guardei para mim como um segredo que todo mundo sabe. Nos demais casos, queria fazer uma declaração daquelas de filmes e livros, com direito a palavras bonitas e até músicas compostas especialmente para o momento. Bobagem, já que não consigo dizer nem mesmo um “eu te amo” sem me sentir um idiota. Por mais que muita gente diga o contrário, sou um cara tímido. Mas não é isso que me impede de dizer a bendita frase a torto e a direito. Essas são três palavras que carregam um peso desproporcional demais e que, por isso, se tornam perigosas. O que sempre fiz, então, foi tentar demonstrar o quanto a pessoa era especial para mim. Fazer isso sem palavras – de tanto me apegar à palavra escrita, desaprendi a utilizá-la através da boca. O jeito então é demonstrar por atos. Tarefa difícil, já que normalmente nem eu mesmo sei o tamanho a que essa dedicação deve chegar para ser proporcional ao que sinto.

Comecei a rascunhar este texto quando o acaso me fez cair na página do Facebook de uma das minhas primeiras paixões. Um daqueles amores dos tempos do colégio que, com sorte, se convertem em primeiro beijo. Fiquei alguns minutos olhando para a foto da menina e pensando no quanto ela devia ter mudado de lá para cá. A aparência era exatamente a mesma e fiquei curioso para saber como poderia haver uma mulher por dentro daquela menina. Ou será que ela continuaria exatamente a mesma, tão interessante naquela época e tão descartável para os dias de hoje? Foi daí que me lembrei de sua letra cuidadosa em uma carta que era para ser de amor. Letra de menina que quer ser princesa. Espero que ela e a letra tenham mudado muito nesses últimos quase 15 anos. Tentei encontrar em algum lugar de minha cabeça as bobagens ditas em resposta àquela carta por meio de meus garranchos dedicados.

Não me lembrei ao certo do que escrevi e nem do que disse para ela. Tenho apenas uma vaga memória de como a história se desenrolou – nada digno de nota, nem para um garotinho de onze ou doze anos, garanto. Mas mexer com essas lembranças me puxou muitas outras – desde aquele tempo, em que pensava que quando eu “fosse grande” aprenderia a agir nesses casos até hoje quando absolutamente não sei como agir nesses casos. A reunião desses passados pariu este texto. O engraçado de tudo é que todas as histórias, mesmo aquelas que na época pareciam insuportavelmente dolorosas, me causam exatamente a mesma sensação. Em resumo, é uma vontade de rir das burradas que cometi e saudades das esperanças que tive.

É lógico que até hoje não enfrentei nenhum daqueles amores da literatura ou do cinema. E é lógico que, por mais que ache uma bobagem, não perco a esperança de viver algo assim. Mas quero essa experiência muito mais por teimosia do que por qualquer outra coisa. No fundo sei que não há romance de novela das oito capaz de deixar tantas amizades e risadas quanto a minha desastrosa vida amorosa. E a sua também.

Um namorado para a amiga

A amiga já estava encalhada há um bom tempo e ela achou que, em nome dos anos de relação entre as duas, tinha obrigação de ajudar. Foi fuçando na lista de amigos do Facebook até lembrar de alguém que fosse bonito e simpático o suficiente para fazer a amiga feliz. A missão não era nada fácil. Os poucos não cafajestes que conhecia estavam quase todos comprometidos. A única exceção era ele. Não era tão bonito quanto a amiga merecia, mas era simpático e – diziam os boatos – muito bom de cama.

Resolveu que ia apresentar os dois. Conversou com ele primeiro. Queria saber se queria alguma coisa séria da vida ou se ainda estava interessado apenas na curtição. A maioria dos homens hoje em dia toma a decisão de se comportar como adolescentes até os 30 e poucos e ela não podia correr o risco de colocar sua amiga em uma roubada dessas. Já bastava a quantidade de roubadas em que a amiga tinha se metido sozinha. Ficou feliz quando ele disse que ele estava procurando alguém para assistir um filme num sábado a noite, sem peso na consciência por estar em casa. Uma peça rara.

Resolveu chegar ao ponto central da conversa com o máximo de cuidado. Ele não podia pensar que a amiga era uma daquelas solteironas desesperadas. Por mais que fosse verdade, não cairia bem passar esse tipo de imagem. Comentou que conhecia alguém muito interessante. Que os dois combinavam em tudo. Que gostavam do mesmo estilo de música. Que tinham lido os mesmo livros. Falou também que ia sair com a amiga no próximo fim de semana e perguntou por que ele não aparecia por lá? Sem compromisso. Conhecer a amiga e ver se ela era realmente tudo o que ele imaginava. Depois podiam se adicionar no Facebook, trocar mensagens por Whatsapp e ver o que o destino reservava.

Preferiu não comentar nada com a amiga. Talvez ela se sentisse ofendida ou, pior do que isso, obrigada a ficar com ele apenas para não passar a imagem de encalhada. Ele iria até a festa e lá ela cuidaria de fazer o meio campo.

Chegado o dia do grande encontro, as coisas saíram muito melhor do que o planejado. Antes mesmo que ele chegasse, a amiga engatou um papo com um cara incrível. Era bonito, charmoso e, ao que tudo indicava, boa gente. Quando o ex-futuro namorado da amiga chegou, ela foi logo contar o ocorrido. Achou que ele ficar decepcionado, mas, ao invés disso, ele abriu um sorriso. Seu interesse era outro. Não queria saber da amiga. Queria saber da outra. E assim foi. Conversaram durante por toda aquela noite.  E por todas as noites que vieram depois disso.

Amor paulistano

Ela estava perdida. Em todos os sentidos estava perdida. Quando desceu do avião, se tocou de que não tinha ideia de para onde deveria ir. Pior que isso. Não falava a língua estranha daquelas pessoas estranhas que pareciam andar meio desatentas, tropeçando umas nas outras. Aquele foi o primeiro momento em que se perguntou o que estava fazendo ali. O primeiro de muitos. Em cada um deles encontrou uma resposta tão furada quanto convincente, levantou a cabeça e seguiu. Em geral, essas respostas envolviam um sentimento que estava mais para difícil de explicar do que para óbvio. Estava lá por amor. Quando soube que podia perder para sempre o homem de sua vida, ela não pensou muito antes de correr para o aeroporto e pegar o primeiro avião que partisse para São Paulo. Fez como se pegasse um ônibus de casa para o trabalho.

Antes que fosse vencida pelo susto de estar naquele lugar estranho, tomou a decisão de fazer o que parecia ser mais óbvio. Em 27 anos de vida, nunca tinha viajado para fora de seu país, mas morar em Nova York tinha ensinado que, na dúvida, a melhor coisa a ser feita é seguir a manada. Seguiu e se deparou com uma fila de gente que, uma a uma, entrava naqueles carros brancos. Apesar da falta de cor, as plaquinhas em cima logo fizeram com que ela percebesse que eram taxis. Ótimo. Não sabia ainda para onde queria ir, mas o motorista certamente conheceria um hotel. Entrou na fila e assim que chegou sua vez, pediu para ser levada a um hotel bom e barato. O taxista fez cara de ponto de interrogação e só então ela se relembrou que a Torre de Babel já tinha caído há muito tempo. Tentou a mímica, misturada com um pouco de espanhol aprendido com uma empregada velha que trabalhou na casa de seus pais. Funcionou. O carro finalmente começou a andar e, quase uma hora depois, estava parada na frente de um hotel.

Ficou aliviada quando descobriu que a atendente falava inglês. Pediu um quarto e contou seu drama. Todos os detalhes. Falou que tinha saído dos Estados Unidos atrás de um sujeito do qual não sabia quase nada. A recepcionista do hotel se solidarizou com a história. Viraram quase que amigas. Entre um cliente e outro, conversavam sobre amores passados, presentes e futuros. A atendente prometeu que ia ajudar a gringa a achar o amor. No fundo, mais do que torcer para achar o sujeito, rezava para que promover o reencontro valesse a pena. Já tinha se apegado àquela garota e estava com medo de que ela se decepcionasse. Se isso acontecesse, de alguma forma, a recepcionista se sentiria culpada. E de culpas já bastavam as que eram realmente suas.

A moça não sabia quase nada do amado. Só que o nome era Wagner. Que morava em São Paulo. Que tinha ido aos Estados Unidos há menos de um mês, segundo ele para uma reunião de trabalho. Disse que era executivo de uma multinacional, mas ela nunca acreditou muito nessa história. Achava mais provável que ele fosse um brasileiro comum, desses que faz algum sacrifício para conhecer Nova York.

Não sabia por onde começar a procurar, mas tinha que descobrir alguma forma. Uma viagem daquelas não poderia ser em vão. Com a ajuda da amiga-recepcionista, tentou se lembrar de detalhes. Talvez uma frase que não fizesse muito sentido para ela servisse de referência para a outra. Em algum momento, ele comentou algo sobre uma feira de arte. Disse que gostava de ir lá aos fins de semanas. Que era um dos melhores lugares para se comer coisas típicas do Brasil a um preço justo. A recepcionista pensou que pudesse ser a Benedito Calixto. Prometeu levar a moça até lá no próximo sábado.

Enquanto esperava a chegada do tão esperado dia, ela resolveu conhecer um pouco mais de São Paulo. Sempre sob orientações da amiga, andou pela Paulista, viu as vitrines da Oscar Freire, correu no Parque do Ibirapuera e rezou na Catedral da Sé para reencontrar seu grande amor.

Na noite da véspera, como que para comemorar o sucesso garantido do dia seguinte, as duas amigas foram à Vila Madalena. Foi em um bar de samba que, pelo mais mero acaso, a americana encontrou o amor de sua vida. Não era aquele que tinha conhecido em Nova York, mas essa busca, de repente, ficou sem qualquer sentido.