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O gênio incompreendido

Se via como um gênio incompreendido, uma inteligência tão difícil de se acompanhar que o deixava aprisionado em um mundo solitário. Não tinha amigos. Era incapaz de manter qualquer tipo de relacionamento por pouco mais de três meses. Não se doía por isso. Entre ter que conviver com a mediocridade e com a solidão, ficava tranquilamente com a segunda. Melhor isso do que passar incontáveis vezes pelo processo de perder a amizade de alguém bacana, mas burro.
No fundo, porém, não era nada disso. Era um grande picareta. Por mais genial que se julgasse, era tão medíocre que estava a anos luz de distância da mediocridade que tanto condenava nos demais. Se escondia tão bem sob sua máscara de superioridade que chegava a fazer alguns acreditarem por algum tempo em seu jeito superior de ser. Chegou a ter seguidores. Gente que o tinha como modelo e sonhava com o dia em que atingiria o nível de inteligência daquele rapaz. Tivesse ele nascido na década de 1920 ou 1930, poderia ser um grande líder fascista. Daqueles capazes de convencer multidões a andarem uniformizadas e fazerem gestos estranhos. Com uma ou outra tacada de sorte, chegaria ao poder. Havia um detalhe, porém, que poderia atrapalhar a galopada rumo ao poder. O encantamento que gerava, acabava tão rapidamente quanto começava. Era tão vazio, que até as pessoas vazias que costumam seguir esse tipo de líder sentiam falta de algum conteúdo.
O que sempre o salvou foi o fato de ser um grande marketeiro. Vendia bem como poucos.  O problema é que só sabia vender aquilo em que acreditava. E só acreditava em uma única coisa: ele mesmo. Daí vem a explicação do sucesso inicial. Por pior que fosse o produto, o comercial fazia com que parecesse a mais fina de todas as cedas.

O que explicava essa habilidade tão grande para se vender era uma questão quase filosófica. Ou até mais do que isso. Era sua própria religião e se dedicava a ela com a pureza de um sacerdote. Acreditava em seus próprios dogmas e através deles entendia e explicava o mundo. Com isso, tinha resposta para tudo. Ou para quase tudo.

Tinha dificuldades apenas para entender uma questão. Por que as coisas não se acertavam em sua vida. Que ninguém o compreendia era um fato com o qual já estava acostumado. O que intrigava era porque as pessoas, mesmo sem o compreender, não o davam uma chance. Tantos gênios conseguiram demonstrar suas qualidades apesar de não serem completamente entendidos e ele continuava absolutamente na mesma…
Sua sorte era se julgar correto demais para perder tempo com esse tipo de questão. Sabia que um dia a sorte viraria para seu lado e que, finalmente, todo seu esforço seria reconhecido. Esperava que isso acontecesse ainda em vida. Não tinha vocação para Van Gogh. A admiração póstuma não o interessava nem um pouco. Queria todo o reconhecimento em vida e por um simples motivo: tinha nascido para liderar.

Na busca por um exército, viu a vida passar e não teve tempo de aprender absolutamente nada. Morreu velho, mas de um modo diferente da maioria dos velhos. Ao invés de ser mais sábio do que era quando veio ao mundo, morreu sem qualquer sombra de sapiência. Sua vida teve apenas uma utilidade. Mostrar que fingir está sempre longe de ser.