O inconforme

De vez em quando tinha uma vontade louca de levantar e sair andando. A vontade vinha do nada e teimava em não passar. Era como se a alma fosse sair sozinha do corpo caso ele ficasse no mesmo lugar. Normalmente isso acontecia quando alguém de quem não gostava vinha puxar conversa. Era uma espécie de instinto de sobrevivência. Fugir era a melhor e a única opção para evitar ouvir bobagem. O problema era quando, apesar de toda a vontade, de toda a força que sua alma fazia, de toda a certeza de que não deveria continuar no lugar, restava apenas uma espécie de resignação. Tinha que permanecer sentado, fingindo ser um moço comportado e atencioso.

Nesses momentos engolia seco. Nesses momentos, que eram quase todos os momentos, reclamava para si mesmo de cada uma das convenções humanas. Não entendia qual o motivo que o obrigava a se fingir interessado pelo que não era. Sua alma, livre como todas as almas, queria perambular por ai. Ver coisas novas. Conhecer gente e lugares interessantes. Aprender. Viver. Ainda era muito cedo para que sua alma fosse condenada a um único lugar. Para ele, alma e corpo parados era sinal de morte. Ainda tinha tantos anos pela frente e mesmo assim era obrigado a estar lá, fingindo que aquelas conversas sem sentido e apelo eram a coisa mais cheia de senso e interessantes que já tinha ouvido.

Desde pequeno aprendeu que, por mais que fossem chatas e nos machucassem, as convenções humanas existiam para serem cumpridas. Sem elas, o mundo não seria mundo. Sem elas, ficaríamos perdidos entre uma barbárie e outra. Aprendeu, mas não se conformou. Não via problemas em um mundo sem regras. Não que se considerasse anarquista. Não tinha qualquer tendência política. Ser de esquerda ou de direita era uma das regras que fazia questão de não cumprir. Seus ideais giravam única e exclusivamente em torno da ideia de sua própria liberdade.  Os outros poderiam continuar suas vidas medíocres, seguindo suas regras medíocres, comendo suas comidas medíocres, ouvindo suas músicas medíocres, mantendo suas conversas medíocres. Fazendo tudo isso tranquilamente sentados, como se fosse natural à alma ficar ali sentada.

Era incapaz de entender como as pessoas não tinham aquele comichão de se levantar e sair andando a cada conversa mais chata. Por mais que não quisesse, no fundo queria entender o que se passava na cabeça delas e o que as fazia ser tão conformadas. Não sabia se queria ser igual, mas queria ao menos fingir melhor que se interessava pela conversa dos outros. No fundo, por mais que imaginasse o contrário de si mesmo, era um grande egoísta. Tentava prestar atenção no que os outros falavam, mesmo sabendo que todo o esforço seria em vão. Acenava com a cabeça em sinal afirmativo, seja lá qual fosse a besteira que estivessem dizendo. Era um truque tão primário quanto eficiente. Um simples aceno de cabeça tem a vantagem de não querer dizer nada, mas dar ao outro o conforto de estar sendo entendido.

Mas ele tinha certeza de que, mesmo com todos os artifícios, os outros sempre sabiam que ele não estava lá. Eram raras as vezes em que ele conseguia dar continuidade à conversa. Sem ouvir a pergunta, não conseguia apresentar uma resposta satisfatória. Na maioria das vezes tentava, mas a situação era sempre tão constrangedora que talvez fosse até mais educado caso ele simplesmente cumprisse seus desejos mais íntimos, se levantasse e deixasse cada uma das salas em que entrou. Assim, ao menos, deixaria clara a sua ausência.

Apesar de todo o inconformismo, porém, era um covarde e fazia questão de continuar ali. Não saberia lidar com os dedos apontados, com o zum zum zum maledicente, com os xingamentos mentais cada vez que encontrasse um de seus abandonados. Preferia a fama de distraído, de egocêntrico, de burro do que o de inconforme. No fundo, toda a sua revolta não era por não poder subverter cada uma das regras da humanidade. O que o deixava aflito era justamente não conseguir cumpri-las. Ou achar que não conseguiria. Queria ser como todos os seus amigos. Queria ser só mais um Homer Simpson, mais um mocinho qualquer de novela.

O que ele não sabia – e o que ninguém sabe sobre os outros – é que tudo isso era uma grande ilusão. Pelos mesmos ou por outros motivos, seus amigos também tinham vontade de libertar suas almas. Seus amigos também queriam entender como era possível alguém aceitar tudo aquilo. Seus amigos também queriam entender como ele conseguia se concentrar e participar de uma conversa por mais de dois minutos. Só reparamos em nossas inconformidades e por isso não somos capazes de notar que o mundo, na maior parte ou em todo o seu tempo, é um grande diálogo de surdos, mudos e cegos, incapazes de ver ou transmitir qualquer sinal que faça sentido ao outro.

No dia em que ele percebesse isso, não seria mais feliz ou mais triste do que já era. E por isso talvez, nem valesse a pena perceber. Se sentir especialmente inconforme talvez fosse sua grande vitória.

 

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