A grávida

Tinha uma lenda na família de que, a cada criança que nascesse, alguém ia morrer. Desde quando a memória se lembrava, a história ia se confirmando. Diziam os mais velhos que era assim desde sempre e que não havia problema algum em ser assim. Era o ciclo natural da vida. Descrente das coisas do outro mundo, sempre encarou tudo como uma infeliz coincidência.

É lógico que queria ter conhecido a avó que morreu no ano em que nasceu. Era triste não ter podido conviver com ela, mas era a vida. Não se sentia culpada. Por mais que dissessem o contrário, sabia que não tinha roubado a energia de ninguém para vir ao mundo. Tinha certeza de que isso era pura bobagem do pessoal das antigas.

Fazia muito tempo que não pensava nesse assunto. Com os mais velhos se despedindo deste mundo, essas histórias vão ficando cada vez mais distantes. Tudo seguia em sua mais perfeita normalidade até o dia em que descobriu que estava grávida. Na verdade, não exatamente aquele dia. Não se tocou da gravidade do assunto logo no primeiro momento. Curtiu a gravidez tranquilamente até o quarto ou quinto mês quando, sem qualquer motivo específico, se lembrou das histórias sobre os falecimentos que precediam os nascimentos. Sabia que era a mais pura de todas as bobagens, mas, dentro de si, algo a fazia acreditar.

Tinha medo do que poderia estar para acontecer. Sua vida se resumia a umas poucas pessoas queridas. Da família, então, eram pouquíssimas. O tempo, as mudanças e as brigas tinham os resumido a não mais que meia dúzia. E ela fazia questão de cada um deles a seu lado. Ainda mais neste momento. Estava carente, com medo de seu futuro de mãe solteira e precisava de todas as forças. Eles eram suas forças. Se um deles – qualquer um – tivesse que morrer, seria como ficar manca.

Estava feliz com a chegada do moleque. Sempre sonhou em ter um filho e, mesmo que aquela não fosse a maneira que tinha idealizado, estava muito próximo de realizar seu maior desejo. Apesar de toda felicidade, porém, não conseguia sorrir. A cada momento se lembrava do que estava prestes a acontecer. E sua vontade então era de correr pelo mundo, de chorar, de abraçar alguém. Nunca fez isso. Nunca contou para ninguém o que se passava pela sua cabeça naqueles momentos.

Pensou em fazer um acordo com Deus. Não tinha muitas peças na manga para negociar, mas estava disposta a qualquer coisa para não abrir mão de ninguém em sua vida. Os meses foram passando e a tensão crescendo. Qualquer resfriado da mãe ou tropeção do irmão eram motivo para desespero. Queria que fossem ao médico todo o tempo. Ninguém entendia o que se passava com ela, mas fingiam normalidade. Provavelmente eram os hormônios agindo.

Chegou ao oitavo mês com o coração na mão. Pareciam estar todos sadios, mas a morte é traiçoeira. Tudo parecia um sinal de que ela estava vindo buscar alguém. Quando chegou o dia de entrar na sala de parto, não sabia se sentia ainda mais medo ou alívio. Parecia que tudo estava sob controle. A criança nasceu. Um menino lindo e forte. Saudável como toda a família.

Numa daquelas visitas que toda a mãe recebe em casa, ficou sabendo da morte de um tio avô distante, de quem ela sequer conhecia a existência. Tentou segurar, mas tudo o que conseguia fazer era sorrir e falar baixinho: “foi isso…”

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