A velha

Era uma velha reclamona. Daquelas que até a beleza de um dia ensolarado era razão suficiente para uma infinidade de resmungos. Antes mesmo que abrisse a boca já era possível ver o quanto era infeliz. Não sorria nunca e as rugas da cara não pareciam marcas de sabedoria. Ninguém tinha coragem ou vontade de perguntar sobre seu passado. Certamente não era das melhores histórias para se ouvir e era até provável que ela não quisesse contar. O cabelo tinha um branco amarelado, assim como aquelas roupas que já foram brancas um dia. Era uma velha descuidada, que já tinha desistido da vida há muito tempo – provavelmente antes mesmo de ser velha.

Certa vez, estava em um ponto de ônibus. Tinha que ir para o centro da cidade resolver alguma questão da aposentadoria. O ônibus demorava para passar e ela resmungava a todo momento. Queria que alguém interagisse, para que pudesse dar ainda mais força ao seu lamento. Era difícil ser velha. Nem reclamar conseguia fazer direito. Se fosse uma moça e bonita a resmungar sobre a vida, o mocinho do lado já ia ter dado alguma atenção. Parou de reclamar do ônibus e começou a reclamar da vida. Quase sempre esse era seu roteiro. Começava com algum assunto específico e terminava na própria existência.

Estava no meio de um desses lamentos sobre as dores do corpo e da alma que acompanham a velhice, quando sentiu as primeiras gotas. O ponto era daqueles descobertos e só restou a ela choramingar pela falta de um guarda-chuva. O último tinha quebrado em um temporal e o penúltimo tinha sido roubado no banco. Dos outros já nem se lembrava mais. Pelo menos se o prefeito fizesse um ponto de ônibus coberto, uma mulher da minha idade não ia ter que ficar aqui tomando chuva.

Um homem, que não era velho, mas era mal humorado, sugeriu que velha voltasse para casa, ao invés de ficar reclamando. Ela deu de ombros. Não ia voltar para casa. Tinha que ir para o centro resolver o problema do INSS. E ninguém tinha nada a ver com isso.

Em meio ao discurso que ela fazia para si e para quem quisesse ouvir, a chuva começou a aumentar. Os pingos mais grossos e fortes, daquelas pancadas típicas de verão, pareceram atingir a velha em cheio. Ela interrompeu o discurso pelo meio e, apoiada em uma mureta, começou a chorar. Ninguém teve a coragem ou a vontade de perguntar o que estava acontecendo. Todos olhavam com cara de espanto aquela velha, que há pouco era tão forte e virulenta, se desmanchar em lágrimas mais grossas que a chuva. Concluíram que era só mais um mal da velhice. Sinal claro de senilidade.

O que ninguém imaginava era que quem chorava não era a velha. Em seu lugar estava uma moça. Talvez a mais jovem de todos ali. Debaixo daquela mesma chuva ela tinha aprendido o que era um amor proibido. Foi sob aquela chuva que ela se entregou. Se lembrava tão claro que nem parecia fazer quase setenta anos. Aquela chuva tinha garantido o momento mais feliz de sua vida – talvez o único. E por isso não havia qualquer contradição em agora ela chorar de tristeza sob as mesmas gotas. Foi aquela chuva que marcou o fim da moça e o começo da velha.

Quando a chuva parou – bem mais rápido do que em sua memória de mocinha – ela se desencostou da mureta. Olhou para todos com a cara fechada de sempre e entrou no primeiro ônibus que apareceu – achando que, se ele não fosse para o centro, pelo menos iria para longe daquelas lembranças.

 

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