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Só mais um sonho impossível

Foi só quando o sol começou a dar os primeiros sinais de que ia nascer que ele se deu conta do que tinha acontecido aquela noite. Fazia praticamente cinco horas que estavam sentados na areia. E aquele fim de festa era melhor do que a festa em si. Muito melhor.

Em menos de três horas ia pegar o voo de volta para São Paulo. Depois disso, talvez nunca mais encontrasse aquela garota. Não que fizesse questão de vê-la novamente. Não seria a primeira vez que, depois de uma longa noite juntos, ele deixaria alguém para trás, em meio a promessas de telefonemas que jamais aconteceriam. Essa era, aliás, sua prática padrão. Não era, portanto, aquela garota que o encantava. Ela era linda, como muitas outras com quem ele já tinha estado. Não podia reclamar da vida. Tinha sorte com mulheres – e costumava dizer que elas também tinham sorte com ele.

O que o deixava triste de ver aquela manhã nascendo era justamente a sensação de liberdade que a noite trouxe como brinde. Estar sentado na areia com uma quase desconhecida, sem se importar com qualquer tipo de julgamento era quase um sonho. Tudo combinava para um cenário ideal. E ele não queria abandonar isso de jeito nenhum. Gostava da areia em seus pés. Gostava dos primeiros raios de sol. Gostava daquela brisa que só o Rio de Janeiro tem. Gostava também do beijo da carioca.

O que mais gostava, porém, era o conjunto de tudo isso e o significado que ele dava para essa união de fatores. Ter o direito de não pensar no trabalho por alguns instantes. De não pensar na vida por aqueles mesmos instantes. De deixar que as coisas acontecessem enquanto, para ele, nada acontecia. Foi ao reparar que tudo ia ter que voltar a acontecer para ele também que começou a sentir uma angústia. Queria parar o tempo mais um pouquinho.

Sabia que era impossível realizar esse sonho, assim como era impossível realizar qualquer sonho de liberdade. Olhou de novo para o céu e notou que o sol já estava em seu devido lugar. Pela primeira vez desde que sentou na areia olhou para o relógio. Faltavam duas horas para o voo. Ainda ia ter que voltar para o hostel, tomar um banho e terminar de arrumar a mala. Resolveu que nunca ia conseguir fazer isso a tempo. A resolução foi tão firme que se deitou mais um pouco na areia e, antes que o mundo real voltasse a chamá-lo, decidiu viver um pouquinho mais do sonho impossível – pelo menos até o próximo avião voar para São Paulo.

 

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