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Paixão de elevador

Já estava pronto para sair de casa quando a mãe, como sempre, pediu que arrumasse o cabelo. Deu uma passada de mão e com uma cara de pouquíssimos amigos disse que não ia encontrar o amor da sua vida na rua. Estava certo. Antes mesmo de chegar na rua, ainda no elevador, viu a mulher mais linda do mundo abrir a porta e entrar. Se arrependeu de não ter arrumado o cabelo. Se arrependeu de estar vestido com aquela roupa. Queria parecer mais descolado, mas era tarde demais.

Nunca tinha visto aquela moça por lá. Tudo nela era incrível. O cabelo ruivo, do jeito que ele gostava. O vestido, com um pequeno ar de desleixo. A cara de quem gosta de ser livre e fazer o que bem dá na telha. Queria puxar papo, perguntar o nome, descobrir quem era e o que fazia ali. Estava na torcida para que fosse uma vizinha. Que morasse sozinha. Já se viu de mudança para o quarto andar. Será que namoro entre vizinhos dava certo? Com ela, com certeza daria.

O problema é que ele nunca tinha conseguido fazer essas aproximações inesperadas. Morria de vontade de se apaixonar no metrô, mas nunca teve coragem de começar a conversa com as hippongas maravilhosas que encontrava na Linha Amarela. No elevador, então, era pior ainda. Se não desse certo, se passasse vergonha, ele corria o risco de reencontrar sua musa inúmeras vezes e não saberia onde esconder a cara.

Mesmo ponderando todos esses pontos contra, resolveu agir. Precisava agir! E tinha que pensar rápido, antes que o elevador chegasse ao térreo. Viu que ela segurava um livro e perguntou se era bom. Naquele momento teve a certeza de ter tomado a melhor decisão de sua vida. Ela estava louca para começar uma conversa e também não sabia como! Era nítido o alívio na cara dela quando ele perguntou sobre o livro. Respondeu. Tomou coragem e perguntou o que ele estava lendo. O elevador chegou e eles continuaram lá, na porta, falando sobre os gostos literários.

Os sorrisos eram tímidos, mas deixavam bem claro as intenções. Os dois estavam felizes por terem começado aquela conversa. Se achavam muito interessantes, tinham muitas coisas em comum. Não foi difícil, então, que a conversa evoluísse dos livros para os filmes. Falaram dos favoritos, do último Oscar, do cinema nacional. Ela disse que ainda não tinha visto o último Tarantino. Ele fingiu também não ter visto e perguntou se ela iria com ele. Não que um Tarantino fosse o filme ideal para se começar um namoro, mas foi o que o destino ofereceu. Trocaram celulares e combinaram de se falar mais tarde, para acertar o cinema e a sessão.

Naquela noite, o filme foi ótimo, assim como o jantar que veio logo em seguida. E, em menos de seis meses, lá estava ele levando a escova de dentes e uma mala de roupas para o quarto andar.

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