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20 e poucos

Quando tinha 17 ou 18 anos, ela tinha o hábito de mentir a idade. Para quem perguntasse teria 24.  Idade de gente responsável, com um bom emprego e muita liberdade. Por isso, só se envolvia com caras mais velhos. Achava incrível como eles ganhavam tanto dinheiro em suas agências de publicidade, escritórios de engenharia e bancos de investimento – e ainda assim conseguiam ter uma vida social tão agitada, cheia de baladas e amigos. Isso é que é vida! Mal podia esperar a hora de ter 24 de verdade, um ótimo cargo e a chance de fazer o que bem entendesse.

Não demorou muito – talvez uns 6 ou 7 anos, talvez até menos – para descobrir que não podia estar mais enganada quanto ao futuro. Nunca podia imaginar como se vive de aparências nessa fase da vida. Trabalha-se muito, ganha-se pouco e, para compensar, afoga-se as mágoas em uma festa qualquer. Ao reparar isso, ela entrou oficialmente na crise dos 20 e poucos anos. Uma crise quase que obrigatória para todo jovem dos anos 2000 e tantos.

No tempo de seus pais era diferente. Não havia oportunidade para se viver essa crise. A mãe já era mãe com a idade dela. E essa informação vem à tona a cada bebedeira ou ato mais irresponsável. Ela sabe que não é mais hora de fazer esse tipo de coisa e se sente vazia cada vez que se arruma para sair de balada. “Não tenho mais idade pra isso.” Além disso, é cada vez mais difícil reunir os amigos. O povo da faculdade quase não se vê mais, cada um curtindo a seu modo a crise dos 20 e poucos.

Quer encontrar o homem certo e está cansada de se divertir com os errados. Ainda sonha com o príncipe encantado, mas não tem ideia de onde ele possa estar. Tem preguiça dos homens de sua idade, todos tão vazios, e mais ainda dos mais velhos, que ainda se acham uns garotões e insistem em um estilo de vida que nem ela quer mais para si.

No trabalho é a mesma coisa. Não está no cargo que tanto sonhou e não tem mais certeza de ter escolhido a profissão certa. Acha o chefe um incompetente e a empresa uma grande vilã. Não consegue entender como algumas pessoas são capazes de ficar mais de cinco anos no mesmo lugar. Ela mesma comemora quando ultrapassa a barreira do primeiro aniversário – um sinal de grande resistência.

No fundo, seu sonho era largar tudo, colocar a mochila nas costas e rodar o mundo. Gravar um documentário. Ajudar crianças carentes da África. Fugir. No fundo é isso que deseja, já que a realidade é tão cruel. Como a grana é curta e não deixa que os sonhos sejam algo mais que isso, pensa em como montar um blog de sucesso, mudar de área, ter a própria empresa – uma coisa moderna, que ninguém ainda fez, sabe? Nem ela sabe, na verdade.

O que ela sabe é que está cada vez mais perto dos 30 e isso é assustador. Ultrapassar essa barreira vai ser a última oportunidade de virar adulta – e de não ser uma velha ridícula e carente, igual aquela do trabalho. Última chance para ser bem sucedida na profissão. Última chance para encontrar o cara certo. Envelhecer, que já foi um grande sonho, começa a ser angustiante. Tudo parece ser a última chance. O que ela não sabe, porém, é que não existe última chance e, muito menos, que essa não é a última crise. Depois vão vir as dos 30, dos 40, dos 50, todas as que existem no meio dessas e todas as que virão depois. Sempre vão existir as oportunidades perdidas e as impossíveis de realizar. E assim, de crise em crise, o barco segue e chega a algum lugar – quase sempre bem diferente daquele que imaginamos onde iríamos estar.

 

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