Página Inicial > jornalismo > Nossa responsabilidade e “nossos personagens”

Nossa responsabilidade e “nossos personagens”

Esta semana, lendo o perfil dos oficiais perseguidos pelo Exército por serem gays, escrito pela sempre excelente Consuelo Dieguez e publicado na edição 66 da piauí, uma parte em especial me chamou a atenção. Lá pelas tantas, o casal, cansado das perseguições e preocupado com sua integridade física, resolve denunciar a situação à imprensa. Entram em contato com a redação da revista Época e, uma semana depois, se assustam ao ver a história na capa, com suas fotos sob a manchete “Eles são do exército. Eles são parceiros. Eles são gays. A história do primeiro casal de militares a assumir a homossexualidade.”. Os dois afirmam não terem sido avisados de que sairiam na capa. Tanto, que não se preocuparam sequer em avisar suas famílias do que estava por vir.

É lógico que, sendo capa ou não, a história dos dois por si só teria um potencial de repercussão imenso. A notícia era bombástica, mesmo que fosse contada em uma notinha. Ainda assim, não seria obrigação do repórter explicar aos dois como o assunto seria tratado e ajudá-los a ter uma dimensão do que aconteceria? Será que podemos omitir informação tão importante de “nossos personagens” (expressão arrogante, como se o jornalista fosse dono das histórias que conta), mesmo que, contando, corremos o risco de perdermos uma puta história? Não, não temos. É com a vida dessas pessoas que mexemos ao escrever suas histórias. A nossa, de um jeito ou de outro, segue a rotina.

Os absurdos da mídia com os dois sargentos não parou por aí. Dias depois da publicação da revista, eles foram convidados a participar do programa SuperPop, na RedeTV!. Segundo os dois, a produção garantiu toda segurança ao casal, já que um deles estava com a prisão decretada pela justiça militar, por deserção. Não só a segurança não foi garantida, como o programa se aproveitou do circo armado pelo Exército – que obviamente baixou no estúdio para prender o “desertor” – para aumentar a audiência.

Como sempre, o perfil na piauí, merece a leitura por si só. Para nós, jornalistas, a leitura é ainda mais obrigatória, para que possamos refletir sobre a atuação da mídia em alguns momentos do caso. Se ainda não leu, corre para a banca.

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. Nenhum trackback ainda.