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Eu e meu nome

No primeiro post desta nova etapa do blog comentei sobre o curso que fiz com a Eliane Brum, quando me dei conta da importância de o repórter ser um bom escutador.

Na seleção para o curso, Eliane pediu para que os candidatos escrevessem dois textos. Um deles, era sobre a origem do nome e a relação da pessoa com ele. Escrever sobre isso foi ótimo. Nunca havia parado para pensar no quanto meu nome influencia minha(s) personalidade(s). Por isso, resolvi compartilhar esse texto com vocês. Segue:

Vários em um

Caminhando pela rua, ouve alguém gritar: “Agá!”. Para imediatamente, na certeza de que quem chama é um grande amigo. Não estava errado. Os dois se abraçam, fazem as velhas promessas de que vão marcar uma cerveja qualquer hora dessas e seguem o rumo. Mais tarde, o telefone toca e, distraído, não tem nem tempo de olhar o número que chama. Não precisa. Assim que aperta o botão verde, escuta a voz do outro lado perguntar: “Gá?”. É ela. Abre um sorriso que só se apaga na hora em que apertar o vermelho fica inevitável. De madrugada, quando chega em casa depois de uma exaustiva noite de trabalho, tenta não fazer barulho, para não acordar ninguém. Não adianta. Antes que o pé ante pé culmine em seu quarto, escuta a pergunta vinda da cama dos pais: “Gabriel, é você?”.

Sim. Ele é Gabriel. Mas não só. Se quem chama é um amigo dos tempos de colégio, é Gabi. Se for alguém da turma da faculdade, é Agá. A paquera melosa? Gá – com aquele excesso de as que só cabe na boca de uma paquera melosa. Gabriel Ferreira para quem lê as reportagens que assina. E até para os atendentes de telemarketing tem um nome diferente: senhor Gabriel Henrique Ferreira Silva. “Ferreira da Silva, por favor”, ressalva sempre.

Quando os pais de Gabriel descobriram que o bebê que estava para chegar era um varão, não hesitaram para escolher o nome. Era Gabriel Henrique e ponto final. Os dois estavam de acordo e não houve discussão. Mesmo com uma decisão tão decidida, o destino se encarregou de pregar uma peça em todos. Poucas vezes o menino foi Gabriel – e quase nunca Gabriel Henrique. O nome do jeito simples praticamente só foi adotado em casa – e mesmo assim, nem sempre. O composto e pomposo ficou só para quem ligasse com o intuito de vender qualquer quinquilharia, assinatura de revista ou linha telefônica. “Na minha família todo mundo tem nome duplo”, afirma Gabriel. “Não sei porque, já que ninguém usa os dois.”

A diversidade de nomes e apelidos não incomoda Gabriel. Pelo contrário. “Não sou a mesma pessoa em casa e na faculdade e não seria justo que eu fosse chamado do mesmo jeito em todos os lugares”, diz. Tomando essa tese como verdadeira, podemos dizer que Gabriel é do tipo falador, sempre com uma história para contar. Bem parecido com o Gabriel Ferreira – só que um pouco mais briguento. O Gá é o mais amoroso de todos, mas é quase unanimidade que o Agá é o mais fiel e leal de todos os heterônimos. “Nem sei como surgiu esse apelido, mas quase todo mundo que me chama assim é muito querido para mim”, diz Agá.

Quando ainda cursava a faculdade de jornalismo, Gabriel resolveu que assinaria suas reportagens como Gabriel Agá. “Para mim era natural, já que quando me olhava nos espelhos da faculdade era o Agá que eu via”, conta. A assinatura durou exatamente uma reportagem – para a revistinha interna da faculdade. Ninguém disse nada, mas ficou nítida a desaprovação do seu Alvaro Ferreira, o pai de Gabriel. Ele mesmo nascido Alvaro, mas criado Mané não liga para novos nomes – e até gosta de cultivar sua própria diversidade –, mas faz questão de manter a pureza do sobrenome.

 

(Depois vou postar o texto produzido durante o curso. Acredito que vocês vão gostar)

 

  1. Sandra Costa
    8, março, 2012 em 21:08 | #1

    Adorei!! Agora estou com um problema…. com me relaciono com mais do que um heterônimo vou ter que usar o nome adequado.

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