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Um dia de sorte

Olhando para os lados, como quem procura a presença da polícia pouco antes de cometer um crime, ele entrou na delegacia. Bem devagar, caminhou até o primeiro policial que encontrou e pediu para falar com o delegado. O policial, um gordinho com cara de pouco caso e bigodinho fino, igual o dos galãs de antigamente, perguntou o motivo.

– Tenho uma confissão a fazer.

Foi medido de cima a baixo. Os pouco menos de um metro e sessenta, a boca grossa e os olhos arregalados exalavam vagabundagem de todos os poros. Mas com certeza não passava de um bandidinho pé-de-chinelo. Batedor de carteira. Quando muito, assaltante de padaria. Se fosse criminoso importante, não andaria com aquelas roupas quase sujas e prestes a rasgar – cara de roupa de segunda mão, retirada há pouco em alguma obra de caridade qualquer.

– Senta ai e espera. O delegado muito ocupado para te atender agora.

– Ele vai gostar de me ouvir.

Aquela hora da noite, o delegado com a cabeça cheia por conta do assassinato da moça dos Jardins, os jornalistas na porta, doidos para receber uma boa dose de carniça e aquele sujeitinho maltrapilho querendo incomodar o homem.

– Vai ter que esperar.

– Mas fui eu que matei a loirinha no Trianon – mal terminou a frase e pareceu surpreso com o que tinha acabado de dizer. Teve que repetir para ver se fazia sentido – Fui eu!

O gordinho sentiu as pernas tremerem naquele momento. Três semanas de investigação e nenhum suspeito decente. A sociedade questionando a competência daquela equipe. E, de repente, o vagabundo estava lá, na sua frente, pronto para se entregar. Estava bom demais para ser verdade. Não podia ser verdade. Se soubesse que aquele era seu dia de sorte, teria aproveitado a hora do almoço para encarar a fila da Lotérica. Sem dizer palavra para o maltrapilho à sua frente, virou o rosto e gritou para que um tal de Meira fosse chamar o doutor.

O doutor – um jovem bacharel, que arrancava suspiros das donas de casa que viam suas entrevistas no Jornal Hoje – saiu de sua sala com ares de mau humor. Nos últimos dias, só sabia fazer cara melhor na hora das entrevistas. Esse povo da imprensa não pode reparar que ando tão preocupado.

– Que foi? – apesar da cara e do esforço para que a pergunta ganhasse ares de repreensão, o tom não foi tão azedo quanto seria de se esperar. Nunca conseguia ser tão durão quanto queria.

O gordinho de bigodes caminhou até o doutor e cochichou em seu ouvido. O doutor fez o sinal da cruz, mas não quis deixar que sua cara mostrasse qualquer alívio – como sempre, falhou na missão.

– Vamos entrar.

Entraram os três. O sujeito maltrapilho, o doutor bonitão e o gordinho dos bigodes.

Como matou? Por que matou? Conhecia a vítima? Roubou alguma coisa? Já tinha matado antes? Usa droga? Cadê a arma? Horas de perguntas. Horas de respostas. Nem todas batiam exatamente com o que as investigações tinham apontado. Mas eram respostas – e era isso o que mais estava em falta naquela delegacia nas últimas três semanas. Se o sujeito estava dizendo, tinha que ser verdade.

Confissão feita. Bandido preso. Hora de avisar àquele povo da imprensa que eles já tinham uma foto para estampar na primeira página do dia seguinte.

Depois de tanto tempo, aquele tinha sido um dia de sorte. Os jornais iam ter a tão sonhada manchete forte e inesperada. O doutor, o gordinho e o Meira, iam ter um pouco mais de paz até o próximo caso barulhento. O maltrapilho ia ter a chance de dormir sob um teto. E alguém, em algum lugar, ia respirar aliviado ao saber que tinham encontrado um culpado.

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