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Escutar também é falar

Há pouco tempo, quando fiz um curso com a jornalista Eliane Brum, ela bateu muito na tecla de quanto é importante para o jornalista saber ouvir – não só o que é dito, mas o que fica por dizer também. Gostei da ideia, porque nunca fui daqueles jornalistas faladores. (Se você me conhecesse, deve estar me chamando de mentiroso. Mas venhamos e convenhamos: no começo de uma relação sempre sou mais calado. E os contatos com fontes costumam ser justamente esses tais começos de relação.)

Acho tão importante ouvir, que já cheguei a ficar mais de uma hora com entrevistados no telefone sem dizer nada além de “aham”. Adoro quando a entrevista caminha assim. Peço para a pessoa falar sobre tal tema e ela vai falando, naturalmente, ligando os pontos sem que eu tenha que forçar a barra em momento algum. No final, apenas faço as perguntas que eu tinha programado e não foram respondidas e as dúvidas que surgiram durante a conversa. Pronto. Rende bem mais do que se eu tentasse brigar com a pessoa, disputando quem fala mais, quem é mais inteligente, e apresentando teses e contrateses com as quais fonte muitas vezes concorda apenas para poder seguir com seu raciocínio. Pois é. Tem repórter que faz isso e não é um, nem são dois. Já vi vários – e eles costumam se achar ótimos entrevistadores.

Para esses, fica a dica: no livro Venenos de Deus, Remédios do Diabo, do escritor moçambicano Mia Couto, um dos personagens – um político chamado Suacelência – diz, lá pelas tantas, que “escutar também é falar”. Achei a frase linda e tenho ela marcada em um post-it em cima de minha cama, para que jamais me esqueça dessa lição. Foi só depois de ler e entender isso que resolvi me assumir como um escutador e defender a importância que isso pode ter para minha profissão.

Que tenhamos um jornalismo com mais escutadores do que faladores!

(Se não conhece o trabalho de Eliane Brum, recomendo os textos dela no site da revista Época e os livros de reportagem O Olho da Rua, A Vida que Ninguém Vê e a ficção Uma Duas. Se ainda não se encantou, não perca a oportunidade de se encantar com a sensibilidade do texto dela, que é a melhor e mais premiada jornalista do Brasil atualmente.)

(Se quer saber mais sobre Mia Couto, veja esta participação dele em uma conferência em Portugal, falando sobre o medo. Os livros, não me arrisco a indicar uns poucos. Leia todos que encontrar e mais os contos que encontrar por aí.)

  1. Ivan
    3, março, 2012 em 23:57 | #1

    Legal!
    Marcando ponto da visita.
    Abraço, continue escrevendo aí

  2. 26, abril, 2013 em 16:35 | #2

    Oi, Gabriel,

    Comecei a acompanhar o seu blog há algumas semanas e quis comentar em algum post que eu me identificasse mais, mesmo os outros também sendo bem interessantes!

    Aí acabei escolhendo esse, mesmo tendo mais de 1 ano, por gostar muito do que a Eliane Brum escreve, do que o Mia Couto escreve e do que vc escreveu.

    Gostei muito do “escutar também é falar” até porque sigo essa linha desde que me entendo por gente, eu acho. Não sou jornalista ou tenho ligação com a profissão, mas não deixei de me identificar com o que vc escreveu jogando isso para outros campos que permitem uma pessoa ter a função de “escutador”. Eu valorizo bastante isso e espero que seja algo que te ajude bastante na sua profissão.

    Acho que era isso, só queria fazer um pequeno comentário no seu blog e te dar parabéns pela iniciativa e pelo trabalho por aqui. Continue escrevendo sempre.

    Abraço,

    Alan.

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