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Arquivo de julho, 2013

Sobre esteiras ergométricas – ou como deixamos de fazer o que realmente vale a pena

Se você já correu em uma daquelas malditas esteiras ergométricas, conhece bem a sensação de fazer um esforço brutal e não sair do lugar. Talvez você já tenha percebido também que é exatamente essa sensação que muitas vezes toma conta da nossa vida. Não é raro estarmos o tempo todo ocupados, mas nunca fazermos nada de fato. Depois de um dia cansativo e estressante, paramos para pensar no que realmente produzimos e aprendemos e somos incapazes de chegar a uma conclusão.

Já ouvi uma série de explicações para isso. Dizem que a culpa é da internet, do jeito mais imediatista que a minha geração vê as coisas ou da globalização, que tornou tudo mais rápido… Não importa. Seja qual for o motivo, é frustrante você não ter tempo para ver seus amigos, para assistir àquele filme bobinho que estreou semana passada no cinema, para ler o livro que você comprou há tanto tempo e ainda não conseguiu abrir ou dar uma simples volta no quarteirão, para respirar um pouco de ar puro e ver que existe vida além das quatro paredes que cercam seu escritório.

De um tempo para cá, resolvi brigar contra essa sensação. Voltar a escrever aqui é parte importante desse projeto, mas também já é consequência dele. Um dos motivos que tinha me afastado um pouco do teclado era a falta de assunto. Por alguma razão que não sei explicar, deixei de ver os meus amigos com a mesma frequência que via antes e nem mesmo tempo para um bate papo pelo Gtalk estava arrumando. Muito trabalho? Talvez. Mas isso não justifica. Tenho, sim, momentos livres, que vinha desperdiçando por aí.

Por mais que a gente trabalhe, sempre temos tempo de dizer pelo menos um oi para quem gostamos. A tecnologia ajuda – e muito – nisso. O problema é que ao invés de usar o segundinho livre entre uma tarefa e outra para mandar uma mensagem para quem amamos, preferimos postar uma bobagem qualquer no Facebook. Assim, temos a impressão de que estamos nos conectando com muito mais gente ao mesmo tempo. Ledo engano. Fazemos, sim, uma conexão superficial, que, na prática, resulta em um quase nada.

É o mesmo que acontece com nossos projetos pessoais. Ao invés de nos dedicarmos àquilo que realmente queremos fazer – ler ou escrever um livro, assistir ou gravar um filme, planejar ou executar uma viagem – nos perdemos em uma série de outras questões de menor importância. Lemos muita bobagem na internet – e peço desculpas por fazer você perder tempo com esse texto ao invés de se dedicar com o que realmente importa – e fazemos muito pouco acontecer. O tempo que perco entrando nos mesmo sites de sempre, para ver as mesmas coisas de sempre seria muito melhor gasto se empregado no início das pesquisas de um livro que sonho há muito tempo, por exemplo.

É por isso que admiro uma amiga que tomou a decisão de cometer um suicídio virtual. Acredito que ela vá ter uma vida muito menos poluída daqui para frente. Provavelmente vai perder um vídeo ou outro de criança esperta ou de um gatinho fofo. Talvez nem chegue a ler esse post. No final do dia, porém, ela não será menos inteligente do que eu do que você por ter perdido uma meia dúzia de memes que circulariam na timeline do Facebook dela. Acredito que haja até uma grande chance de ela se tornar uma pessoa mais produtiva e de, por isso, se destacar muito mais na vida do que eu ou você. (Sei que tem gente que pensa o contrário e até já escrevi sobre isso, mas talvez o processo seja de longo prazo.)

Tenho planos que não saem do papel há anos. Não tive tempo de fazer com que esses sonhos se tornassem realidade? Não tive vontade de tirar essas ideias do papel? Ou o que faltou na verdade foi coragem? Fico com a última opção. Estamos nos acovardando. Vemos tanta gente fazendo tanta coisa incrível por ai, que ficamos com medo de fracassar. E se a minha empresa não for tão genial quanto a do Zuckerberg? E se meu livro não fizer tanto sucesso quanto os da J.K. Rowling? E se meu documentário não for tão bom quanto os do Eduardo Coutinho? Nos obrigamos ao sucesso, como se essa fosse a única opção. E como resultado não temos fracassos nem sucessos. Não temos nem mesmo boas histórias para contar. Não enxergamos justamente que essas pessoas só se destacaram porque tiveram a coragem de se mexer um pouco.

Optamos, mesmo que inconscientemente, pelo ostracismo e pela mediocridade que tanto nos apavora.  E para disfarçar o real motivo dessa opção por não realizar nossos sonhos, nos fingimos de ocupados – mesmo que boa parte da ocupação seja, na verdade, ver o que o povo anda dizendo nas redes sociais.

Sei que se mudar essa forma de encarar o mundo fosse fácil, eu não teria dedicado a última meia hora a escrever esse texto. Não haveria necessidade. Fazer isso é parte do meu processo de mudança também. Ainda não estou pronto, mas já tomei a decisão de me mexer. Não vou mais correr na esteira ergométrica. Me recuso a ficar cansado e olhar sempre para as mesmas paredes. Vou para a rua, que é onde a paisagem é uma a cada instante. E se, por algum acaso, não chegar a lugar nenhum ou tropeçar em uma dessas pedras portuguesas que têm provocado tanto barulho nos últimos tempos, que seja. Para o bem ou para o mal, nem eu nem o cenário seremos os mesmos.

(P.S.: Pouco depois de escrever esse texto, me deparei com uma história que me fez ter certeza de que ficar parado não adianta.)

Quando é hora de pressionar o entrevistado?

Uma das funções mais difíceis do jornalista é entrevistar alguém. Ter o cuidado e o feeling de fazer a pergunta certa na hora certa e não interromper a pessoa antes de ela dar chegar à melhor parte da resposta é uma daquelas habilidades praticamente impossíveis de se ensinar na faculdade e que só são desenvolvidas com muita prática e bom senso. Particularmente, tenho o hábito de ouvir muito mais do que perguntar. Não sei se é o melhor sistema, mas é o que mais funciona para mim. Já aconteceu de eu ficar mais de uma hora com o entrevistado e intervir apenas umas duas ou três vezes. Descobri coisas incríveis, que jamais teria descoberto sufocando a pessoa com uma tonelada de questões.

Não foi por mero acaso que batizei esse blog de O Escutador e que escolhi a frase “Escutar também é falar”, do grande Mia Couto, como o lema dessas escrevinhações. Fico extremamente irritado quando vejo alguns colegas com a mesma postura do repórter daquele vídeo do Porta do Fundos. Para quem não vive o dia a dia do jornalismo, pode até parecer que aquilo é um exagero. Não é bem assim. Me cansei de ver gente que se diz jornalista, mas só pensa em como cavar a manchete da próxima edição. Pior. Já fui orientado por chefes a arrancar determinadas declarações de um entrevistado. E reparem que fiz questão de não utilizar aspas cercando o arrancar.

É lógico que, em alguns casos, pressionar um entrevistado é fundamental. Nessas horas, porém, a ideia não é fazer que o sujeito responda a pergunta do jeito que você ou seu chefe quer. O objetivo, na verdade, é simplesmente que ele responda e pare de escorregar. Foi o que aconteceu em uma histórica entrevista do Paulo Maluf para a Folha de São Paulo. Não consegui encontrar o link, mas a transcrição da conversa entre o político e o repórter mostra bem o quanto é complicado lidar com gente especializada em fugir de perguntas que os coloquem em uma saia justa.

Lembrei desse caso ao me deparar com o vídeo abaixo. Nele, uma entrevistadora da Fox News.com perde seus dez minutos com o entrevistado insistindo em uma mesma questão – que já tinha sido respondida antes do primeiro minuto, apesar de não da forma que ela desejava e esperava. O resultado final do “bate-papo” é constrangedor – para a moça, para o pesquisador e para nós, público.

(Não encontrei uma versão com legendas. Um breve resumo da história é o seguinte: Reza Aslan, um estudioso de religião com PhD e muitos anos de trabalho, escreveu um livro sobre Jesus. Só que ao invés de se ater ao trabalho do pesquisador, a jornalista preferiu perguntar o que levou um muçulmano a escrever sobre Cristo. Ela chega a dizer que o fato é tão estranho quanto um democrata escrever um livro sobre um presidente republicano – o que, como sabemos, não tem nada de estranho, imoral ou ilegal.)

Descobrir como – e quando – insistir em uma questão é um desafio. Mas o fato de ser uma missão difícil não deveria abrir brecha para situações ridículas como essa.

Um sincero pedido de desculpas

Antes do próximo post, queria fazer um sincero pedido de desculpa à meia dúzia de leitores que entra nesse blog com certa frequência. Fiquei muito ausente nas últimas semanas. Até tentei escrever algumas coisas, mas o resultado foi uma dúzia de contos sem fim espalhados pela tela de meu desktop e sabe-se lá quantos textos sobre assuntos variados que nem me dei ao trabalho de salvar.

Posso dizer que foi o excesso de trabalho que me impediu de escrever mais vezes aqui. Mas é mentira. Já teve épocas em que estive ainda mais atolado e mesmo assim reservei um tempinho para soltar. Nos últimos dias, porém, faltava alguma coisa para que os textos saíssem. Acho que tem muito a ver com aquela frase do Rubem Alves, “ostra feliz não faz pérola”. Apareceu um novo grãozinho de areia e hoje acordei com uma vontade danada de voltar a ser produtivo. Que seja eterna enquanto dure!

(E voltemos à programação normal!)