Arquivo

Arquivo de maio, 2013

Todas as qualidades da menina sem qualidades

Assisti ontem ao primeiro capítulo de A Menina Sem Qualidades, série de ficção da MTV Brasileira. Fiquei impressionado e mal posso esperar pelo próximo episódio, hoje à noite. A história é forte e requer uma boa dose de estômago para ser assistida. Dificilmente seria exibida por qualquer outra emissora – pelo menos não com tanta crueza.

Não se engane pelo fato de a protagonista ter 16 anos. A série não lembra em nada Malhação. A adolescente interpretada por Bianca Comparato é muito mais próxima da realidade do que qualquer princesa ou vilã da eterna novelinha global. A Menina Sem Qualidades fala da adolescência com tanto realismo que recebeu censura de 18 anos. Pelo que andei vendo, não vão faltar cenas envolvendo álcool, cigarro e sexo. Nada daqueles deliciosos sucos naturais que o pessoal de alguma temporada qualquer de Malhação tomava no Gigabite Café. Nada contra, mas sempre senti falta de algo que retratasse a vida da juventude de um jeito menos florido.

A protagonista, Ana, está longe de ser uma menina comum. Com uma inteligência fora do normal – já leu todos os livros de todas as bibliotecas por onde passou -, anda sempre com um soco inglês por perto, para qualquer emergência. Mas Ana está muito próxima de uma menina comum. Começa a descobrir e entender sua sexualidade e sofre bullying na escola. Gosto dessa dualidade, porque ela torna tudo muito mais real. Só a primeira meia hora da história já me deixou com vontade de ler o livro que deu origem à série.

É uma pena que a MTV esteja em crise. Esses lampejos de coragem e genialidade vão fazer falta quando o canal virar retransmissora de uma igreja qualquer.

E a Miss Bahia é negra

Você deve se lembrar da confusão que foi quando divulgaram as candidatas ao Miss Bahia. Entre todas as candidatas a mulher mais bela do estado com mais negros no Brasil, várias loiras e quase nenhuma negra. A reação na internet foi péssima. Pouquíssima gente entendeu como alguma daquelas mulheres poderia representar a beleza baiana. Ao falar sobre o assunto, lembrei que o caso não é isolado. Nenhuma das Miss Bahia que se tornaram Miss Brasil eram negras.

Passado todo o auê, no último sábado ocorreu o concurso e a vencedora foi Priscila Cidreira, uma negra linda de Salvador. Não sei quanto a decisão foi influenciada pelos protestos nas redes sociais. Mas olhando a galeria de fotos das candidatas, não conseguia imaginar outra decisão.

Parabéns, Priscila.

Um breve desabafo sobre a situação do jornalismo

Ser jornalista nunca foi uma profissão fácil. Ameaças de todo tipo, horários de trabalho improváveis, salários absurdamente baixos. Desde os tempos de Honoré de Balzac e seu Ilusões Perdidas só aceitou ser jornalista quem tinha uma visão romântica da vida. Sem isso, o jornalismo não teria o que destruir. De um tempo para cá, porém, a situação só fez por piorar.

Não é mero acaso que faz com que, mesmo tendo tão pouco tempo de formado, eu já tenha perdido as contas de quantos dos meus amigos desistiram de trabalhar como jornalistas. Muito menos é mero acaso que, pouco mais de seis anos depois de ter escolhido a profissão, eu já esteja cansado. E não venham culpar o fato de eu ser da geração Y. Eu e meus colegas não somos os únicos que estamos cansados. O artigo da jornalista argentina Graciela Mochkofsky, na Piauí desse mês, é um ótimo exemplo disso. Ela descreve, passo a passo, como se deu a construção, a desconstrução e a reconstrução de seus ideais jornalísticos. Como pano de fundo, a falência do bom jornalismo como instituição.

Para se ter uma noção ainda mais clara de que a deterioração não depende de idade ou de geração, basta fazer uma visita à sede de qualquer meio de comunicação. Serão poucos os jornalistas de cabelo branco – e menos ainda os que combinam o cabelo branco com pleno controle das sanidades mentais. Costumo dizer que jornalista não envelhece. Das duas uma: ou ele desiste ou fazem com que ele desista antes de ter netos.

Muitos fatores têm contribuído para esse quadro. Nos últimos 12 meses, vi mais de 300 jornalistas – em uma conta conservadora, feita de cabeça – serem mandados embora, apenas nos grandes meios brasileiros. Nos Estados Unidos, a situação é ainda pior. Isso não é normal. As empresas estão em crise e não conseguem encontrar uma saída. No mundo todo, jornais têm morrido em uma velocidade assustadora e outro tanto definha a passos largos para um triste fim.

A visão romântica que me fez escolher essa profissão ainda persiste. Não consigo imaginar o mundo sem jornalismo e sem jornalistas. O problema é que o mundo muda a uma velocidade muito maior do que os velhos e os novos barões da mídia são capazes de acompanhar. Fazer jornalismo de qualidade custa caro e nos últimos anos tem se tornado raro quem está disposto a investir – seja lá quanto for – em uma boa reportagem. Há quem diga que quem gosta de boa reportagem é o jornalista e que, para o leitor, não faz diferença de que forma foi feita e quanto tempo levou a apuração. Não é verdade. Uma pesquisa recente mostrou que 31% dos americanos abandonaram seus meios de comunicação favoritos, porque não encontravam mais o mesmo nível de informação. É a crise alimentando a crise.

Não é de se assustar que os nomes que inspiraram Graciela Mochkofsky a perseguir o bom jornalismo no início dos anos 1990 sejam exatamente os mesmo que me inspiram vinte anos depois. Os meios de comunicação foram incapazes de produzir outros Gays Taleses e Joeis Silveiras nas últimas três ou quatro décadas. É lógico que temos uma Eliane Brum aqui e outra acolá, mas não basta. Gente talentosa não faltou – e eu tive a sorte de sentar a poucas cadeiras de distância de muitas delas. O que faltou foram os recursos para que essas pessoas não dependessem mais apenas de seus textos iluminados e de suas magníficas capacidades de observação. Talento não é suficiente no jornalismo. Quem é repórter sabe como, sem chance de erro, uma entrevista feita cara a cara é sempre mais proveitosa do que um telefonema ou – o horror dos horrores – o envio de algumas perguntas para serem respondidas por e-mail. O problema é que, em um crescente assustador, as empresas de mídia incentivam e forçam seus repórteres a ficarem presos na redação durante as 8, 10, 12, 14 ou mais horas de expediente.

Em meio a tanta crise, as empresas se tornam ainda mais injustas. Demissões injustificadas e injustificáveis, mentiras para os funcionários, atrasos no pagamento, eliminação de direitos trabalhistas e tantos outros casos maléficos já se tornaram um triste padrão de conduta. Não é de se espantar que nossa profissão seja incluída em qualquer ranking que se preze de ocupações mais estressantes ou insalubres.

Por trás desse cenário, eu vejo um momento de transição. Dentro de pouco tempo, a cobertura diária dos fatos será um tanto diferente da que conhecemos hoje – o tamanho desse tanto ainda é difícil de imaginar. Boas iniciativas começam a surgir em todo o mundo. Tanto os jornalões como jornalistas empreendedores e independentes têm aprendido a produzir reportagens digitais de qualidade. O Leonardo Sakamoto – um jornalista que precisava ser mais conhecido e reconhecido – fez com alguns amigos uma compilação de bons exemplos. Outro dia também apresentei bons exemplos de documentários pensados para a internet. É gostoso ver como tem coisa vinda de diversas partes do mundo e feita por todo tipo de gente.

Acredito que o quadro momentâneo é desesperador, mas que haja uma saída para o jornalismo – repito: não consigo ver o mundo sobrevivendo por muito tempo sem gente capaz de levantar e traduzir informações e histórias. O problema é que a saída, como tudo que envolve bom jornalismo, custa caro. Mais do que isso, ainda é uma saída incerta.  Como resultado, muita gente vai ficar pelo caminho e pode ser que não sejam os melhores os que sobrarão. Eu, entre uma vontade e outra de jogar tudo para o ar e inventar uma nova profissão, vou tentando encontrar um jeito.

Sobre corajosos e covardes

Tenho medo o tempo inteiro. E não vejo isso como um problema. Ter medo me faz mais homem. De vez em quando o medo me paralisa, é verdade. E esse é o meu maior medo: o medo do medo paralisante. Mas, mesmo quando isso acontece, me construo um pouco mais. Todo temor resulta em um novo nível. O medo vencido é um sinal de força. O medo que nos derrota é um tombo, uma fonte para novos temores que venceremos lá na frente.

Costumo dizer que corajoso não é aquele indivíduo destemido. O nome desse é idiota. Corajoso, até onde a vida me ensinou, é quem enfrenta até aquelas situações que fazem as pernas tremerem, o estômago sumir, o coração disparar e o pensamento sair do controle. Veja que a descrição do medo não está muito longe das que costumamos ler por ai sobre o amor. Medo e amor são sentimentos irmãos e costumam gerar um ao outro.

Sempre pensei muito nesse assunto. Não sou um exemplo de coragem pelos nossos padrões sociais. Quando era criança, não podia chegar perto de palhaços ou do Papai Noel. Nunca vou me esquecer da vez em que fiquei debaixo de uma mesa durante toda uma festa infantil, só porque ouvi dizer que logo chegariam uns daqueles bichos imensos ou um palhaço – não me lembro bem. Até hoje não gosto de nada disso. Não me sinto confortável na presença de gente mascarada, mas o senso de ridículo fala mais alto do que qualquer temor e não procuro mais uma mesa capaz de me esconder.

Esse não é o único medo que enfrento. Como todo mundo, passei por experiências bem piores do que estar perto de um daqueles monstruosos personagens da Disney de buffett. Enfrentei cada uma delas – mesmo que aos trancos e barrancos – e vou vencendo.

Mesmo as situações mais banais são repletas de elementos assustadores. Todos os dias penso em como será difícil se a fonte de frilas secar. Não lido bem com a ideia de não apurar uma reportagem a tempo. No campo pessoal, tenho medo de morrer solteiro. Medo de estar sendo enganado por alguém de quem gosto. Medo de decepcionar as pessoas que amo. Medo de não poder envelhecer. Mas aprendi a deixar que nenhum deles me paralise. São meus companheiros de jornada e meu combustível para que meus temores tenham como destino serem apenas temores. Sem medos, não teria planos. Não teria motivos para me mexer e superá-los.

Isso faz de mim um corajoso ou não gostar de palhaços, não poder ver um escorpião ou odiar o pouso de avião dizem mais sobre minha personalidade? Não sei. No fundo, não acredito na existência de covardes. De um jeito ou de outro, sempre encontramos formas de superar nossos temores ou aprendemos a conviver com eles.

Me lembrei de todas essas reflexões ao me deparar com esse texto de José Castello, sobre a importância do medo para quem quer escrever. Castello, com a ajuda de Mia Couto, Clarice Lispector e Jaime Ginzburg, me ajudou a entender um pouquinho mais o quanto é importante ter medo. E a me sentir muito mais confortável com meus próprios temores – de todos os tamanhos e espécies.

P.S.: Para quem quiser ver a conferência que deu origem ao texto de Mia Couto citada por José Castello, está logo abaixo. Como quase tudo que o Mia faz, vale cada segundo.

Mais um para a discussão do approach

Não sei o que está acontecendo com os colunistas dos velhos jornalões, mas hoje mais um resolveu falar sobre os nossos americanismos de cada dia. Foi o Luis Fernando Veríssimo, no Estadão, que reclamou dos termos espalhados pelas vitrines do comércio. Para quem não viu, ontem o Ruy Castro e o Antônio Prata já tinham tocado no assunto, na Folha.

O que me chamou mais atenção ao ler os artigos foi o aspecto geracional. Castro e Veríssimo, ambos já passados dos 60, acham que estamos falando muito inglês. Antonio Prata, que ainda não chegou nos 40, não vê tantos problemas. Será mera coincidência?

Qual o problema em ter um bom approach?

Hoje, ao fazer minha caminhada matinal pela dona internet para saber o que de bom e de ruim aconteceu no mundo enquanto fui obrigado a dormir, me deparei com dois textos de colunistas da Folha de S. Paulo. Os dois estavam lado a lado na página principal do site e tratavam praticamente do mesmo tema: a presença de estrangeirismos no nosso cotidiano. As teses, porém, eram bem diferentes. De um lado, Ruy Castro ironizava a presença de tantos termos gringos no vocabulário corporativo. De outro, Antonio Prata defendia que fossemos um pouco mais receptivos às palavras que já se incorporaram ao nosso dia a dia.

Como costuma acontecer, estou mais para o Antonio Prata do que para Ruy Castro. Talvez seja uma questão geracional, mas não vejo com tanto problema a entrada de novos elementos em nossa língua. Podem falar do tal to imperialismo americano e da submissão ao padrão hollywoodiano, mas isso é fato posto e não vai ser adotar as teses de Aldo Rebelo que vai nos deixar menos dominados.

O idioma é vivo e precisa da incorporação de novos elementos para se manter. O problema não está em falar mouse ou tablet. Melhor isso do que rato, como em Portugal, ou prancheta, como tentaram emplacar na época do lançamento do iPad.

Só não podemos nos deixar transformar naqueles pedantes do mundo dos negócios que preferem falar de “business plan” do que de plano de negócios. Se você se render a isso, meu caro, você é só aquele personagem da música dos Zecas Pagodinho e Baleiro.

P.S.: Sei que ando meio ausente, mas as últimas semanas têm sido um pouco corridas. Prometo normalizar minhas passagens por aqui assim que possível – e, enquanto isso, fazendo umas aparições durante o impossível.

Os 30 não são os novos 20

Um dos primeiros textos que escrevi quando reativei esse blog foi um pequeno conto sobre uma menina de 20 e tantos anos, obrigada a lidar com esse momento de transição em sua vida. É uma das minhas coisas favoritas entre tudo o que já escrevi. A personagem nasceu de várias conversas com minhas amigas e boa parte delas veio me perguntar se era aquela menina cheia de dúvidas. Todas eram – pelo menos um pouco. Depois escrevi também sobre os conflitos internos de um rapaz da mesma idade. Aquele era eu e muitos dos meus amigos, perdidos entre os desejos de enriquecer e liderar e de continuar a vida como se ainda estivesse no primeiro ano da faculdade. Em comum, quase todos os meus amigos – homens ou mulheres – estão passando ou passaram recentemente por crises existenciais – grandes ou pequenas.

Me lembrei desses contos ao me deparar com o vídeo abaixo, de uma palestra no TED da psicóloga americana Meg Jay sobre o pessoal de 20 e poucos anos. Ela é uma especialista no assunto e diz que tem notado uma postergação constante para chegar à vida adulta. Nos iludiram, dizendo que podíamos esperar até os 30, mas conforme essa idade chega sem sinal das realizações que programamos, as coisas vão ficando complicadas. Quem está nessa fase sabe o quanto é desesperador.

A palestra ainda não foi traduzida para o português, mas no final do vídeo traduzo algumas partes que considerei mais interessantes – ou assustadoras.

[Após descrever Alex, sua primeira paciente, uma garota de vinte e poucos anos comum falando sobre sua vida amorosa] Aquele foi o momento em que eu reparei que os 30 não são os novos 20. Sim, as pessoas têm se estabelecido mais tarde do que era comum, mas isso não faz com Alex pare de se desenvolver aos 20 anos. (…) Foi quando eu reparei que esse tipo de negligência era um problema real e que teria consequências reais, não só para Alex e sua vida amorosa, mas para as carreiras, famílias e futuros do pessoal com 20 e poucos anos em todo o mundo.

(…)

Me especializei em pessoas na faixa dos 20 anos, porque eu acredito que cada um dos 50 milhões do americanos com 20 e poucos merece saber aquilo que psicólogos, sociólogos, neurologias e especilistas em fertilidade já sabem: que assumir seus 20 anos é uma das coisas mais simples – ou até mais transformativas – que você pode fazer pelo seu trabalho, vida amorosa, felicidade e talvez até pelo mundo.

(…)

Nós sabemos que 80% dos momentos mais definidores de uma vida ocorrem por volta dos 35 anos. Isso significa que 10% das decisões, experiências e aqueles momentos em que você diz “Aha!” que definem o que é sua vida acontecem quando você tem 30 e tantos anos. (…) Nós sabemos também que os primeiros 10 anos de uma carreira têm um impacto exponencial em quanto dinheiro você vai ganhar. (…) Nós sabemos que a personalidade muda mais durante os 20 e poucos anos do que durante todo o resto da vida, e nós sabemos que a fertilidade feminina atinge seu auge aos 28 anos, e que as coisas se tornam muito mais complicadas depois dos 35. Então, seus 20 e poucos são o momento ideal de se educar sobre seu corpo e suas opções.

(…)

Leonard Bernstein disse que para fazer grandes coisas, você precisa de um plano e de pouco tempo disponível. Não é verdade? Então o que você acha que acontece quando você coloca na cabeça de alguém de 20 e poucos anos: “Você tem mais 10 anos para começar sua vida”? Nada acontece. Você roubou dessa pessoa seu senso de urgência e sua ambição e, então, absolutamente nada acontece.

(…)

A crise da meia idade no terceiro milênio não é mais por não comprar um carro esportivo vermelho. É por se dar conta de que você não construiu a carreira que você esperava. É repar que você não pode mais ter o filho que queria ou que não vai poder dar um irmão para seu filho. Muita gente com 30 e poucos ou 40 e poucos anos se olha no espelho – e para mim, em meu consultório – e fala sobre seus 20 e poucos anos: “O que eu estava fazendo? O que eu estava pensando?”

Alguma coisa estranha no Miss Bahia?

No próximo dia 25 de maio vai acontecer a final do concurso Miss Bahia, que vai mandar a candidata daquele estado ao Miss Brasil. Goste você de concursos de beleza ou não, peço que dê uma olhadinha na foto das candidatas:

Candidatas ao Miss Bahia

Candidatas ao Miss Bahia: está faltando alguma coisa?

A Bahia é o estado com maior percentual de negros no Brasil. Quase 80% da população é negra. Dos dez municípios com mais negros no país, oito são baianos. E mesmo assim – olhe novamente para a foto – é difícil de encontrar negras ou pardas entre as candidatas (todas confinada à parte de trás da foto, diga-se de passagem). Nem parece que estamos comemorando os 125 anos da Lei Áurea.

Mais do que um absurdo, a foto é uma representação de como nossos valores culturais estão deturpados e do quanto o Brasil não se orgulha de sua própria cultura. Não é a toa que o Rio Grande do Sul é o maior fazedor de Miss Brasil. As mulheres de lá não se parecem nem um pouco com nossas negras e mulatas. A Bahia só conta elegeu a campeã do Miss Brasil três vezes (nos longínquos 1954, 1962 e 1968) – e nenhuma delas era negra.

Tudo bem que concursos de Miss não são exemplo para nada. Prestam um terrível papel no que se refere à valorização da mulher e na criação de padrões de beleza. Justamente por isso é tão grave um racismo assim descarado nesse tipo de concurso.

Valeu, mãe!

Queria ter escrito ontem, mas acho muito difícil escrever sobre minha mãe. Tentei por mais de uma vez, mas não consegui. De certa forma, escrever sobre ela é como escrever sobre mim mesmo. Olho para ela e enxergo tantos de meus defeitos e qualidades que fica até difícil apontar cada um deles. É como fazer um autorretrato – algo impossível de ficar bom. Por isso não vou – e nem quero – me ater descrevendo minha mãe. Eu e ela sabemos como ela é – e é isso o que importa.

Existe um velho ditado que diz que, como Deus não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ele resolveu inventar as mães. Alguns dizem que a frase é de George Washington, outros que é um ditado judaico. Não importa. Sei que velhos ditados normalmente são bobagenzinhas de fundo moral que costumam ter a profundidade de uma tábua de bater carne, mas nesse eu ponho fé. Mãe – pelo menos a minha mãe – é um ser especial, sempre pronto para salvar sua vida.

Ser mãe não deve ser tarefa fácil. Carregar uma vida na barriga e, depois disso, continuar se sentindo a responsável por ela por toda a eternidade. Ser mãe é não ter descanso. Nós, filhos, somos treinados para dar problemas o tempo todo e, mesmo quando a gente acha que nossas mães não vão mais nos dar nenhuma chance, lá estão elas, com um ar tão severo que a gente sabe que, no fundo, aquilo só pode ser amor.

O que quero com esse texto não é dizer o quanto amo minha mãe. Tenho dificuldades em demonstrar sentimentos e não vejo razão de me forçar a fazer isso apenas porque inventaram de marcar um dia qualquer no calendário. Meu amor por minha família não se mede em calendários e não seria justo que fosse assim.

Por isso, aproveito esse espaço apenas para dizer obrigado. Preciso agradecer por ela ser minha amiga – a melhor que já tive, que tenho e que, certamente, terei. Por ela ter me feito tão parecido com ela. Por ela saber que eu tenho defeitos e fazer com que eu me esforce para que eles sejam menores do que minhas qualidades. Por ela saber que tem defeitos e lutar para que eles sejam cada dia mais insignificantes. Por ela não passar a mão na minha cabeça quando estou errado e ser dura comigo quando preciso. Por ela fingir que gosta dos meus papos chatos. Por ela ser minha companheira de escritório nessa vida de frila. Por ela não ter medo de me contar quando exagero. Por ela se orgulhar de minhas pequenas vitórias. Por ela me apoiar nas minhas derrotas. Por ela me segurar sempre que achei que ia cair.

Enfim. Demorei um dia inteiro para chegar a esse texto e estou postando com atraso não porque sou um filho relapso – ou não só por isso. Foi difícil porque a lista de agradecimentos é grande e não se encerra nessa. É duro selecionar apenas alguns para escrever, mas aqui estão uns poucos, só para registrar.

Obrigado por tudo, mãe. Sei que sou péssimo para dizer essas coisas, mas eu te amo. E não é pouco!

 

Quanto vale ou é por metro?

Vejam só essa notícia que saiu na Folha de S.Paulo: “Sebos vendem livros por metro para decoração de escritórios e residências“. Realmente acho livros uma excelente forma de decorar uma casa ou um escritório. Mas de que será que vale ter metros e mais metros de belas capas nas estantes, sem saber qual o conteúdo de tudo aquilo?

Sempre fui um leitor fanático. Nunca estou sem um livro na cabeceira e sempre tenho que inventar espaços em casa para guardar minhas novas aquisições. Recentemente comprei um Kindle, para resolver esse problema. Me adaptei muito bem à leitura no equipamento e não tenho mais que me preocupar se as estantes aguentam tanto peso. Mas fico com uma preocupação: será que esses livros digitais vão acabar com o livro como uma ótima opção de presente, assim como ocorreu com os CDs? Repare que as pessoas continuam consumindo música como antes – e os números crescentes de downloads no iTunes estão ai para provar -, mas ninguém mais compra um CD para dar de presente a outra pessoa.

Será o fim das belas dedicatórias? E as noites de autógrafo, como ficarão? Me parece que está chegando o dia em que o livro, tal como conhecemos, vai ser apenas um objeto de decoração vendido por metro. Triste fim…