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Arquivo de abril, 2013

São Paulo, a minha cidade maravilhosa

Sou um apaixonado por São Paulo, apesar de ser constantemente atacado por crises de consciência sobre os benefícios de se morar em um cidade louca como essa. Morar aqui é viver essa dualidade. São Paulo tem mais defeitos do que carros nas ruas e qualidades maiores que a distância social que separa o Paraisópolis de seu vizinho Morumbi. O truque para encarar esse quadro com o mínimo de drama possível é escolher a que dar atenção. Normalmente prefiro notar mais as qualidades. As lanchonetes magníficas, os teatros, os cinemas com filmes que só agradam uma meia dúzia de pessoas – eu entre elas -, os programas grátis que misturam todo o tipo de gente, as rodas de samba…

O problema é que tem vezes em que os defeitos falam muito mais alto. Ai somos obrigados a refletir se queremos mesmo ficar presos em congestionamentos intermináveis, ilhados por conta de enchentes que poderiam muito bem ser prevenidas ou corrermos o risco de morrer queimados por um assaltante louco qualquer.

Amo São Paulo, mas tenho dificuldade de lidar com essas questões. Por enquanto elas não são fortes o suficiente para me fazer querer morar longe daqui, mas cada vez mais elas têm tido o poder de me fazer refletir sobre a opção de envelhecer em meio a toda essa loucura. Não vou chegar a uma conclusão tão cedo – e, enquanto isso, vou tirando proveito do que São Paulo tem de melhor.

Se você, assim como eu, também vive o dilema de ser paulistano, recomendo uma olhada no blog Quando a cidade era mais gentil. Dá gosto de ver como essa cidade cresceu e, apesar de toda a sua feiura, continua linda.

Tchau, mestre

Hoje acordei com a triste notícia da morte de Paulo Vanzolini. Para quem ama o samba – e em especial o samba paulista – como eu, é impossível não ficar triste com essa notícia.

Com certeza você já fez de uma das músicas do mestre Vanzolini um hino alguma parte da tua vida. Quem nunca cantou Volta por Cima numa mistura de raiva e alegria depois de alguma vitória não merece meu respeito. Também não confio em gente que nunca se emocionou com Ronda depois de algum amor.

Mas Vanzolini era muito mais do que seus dois maiores clássicos. Vanzolini foi o pai de quase 70 músicas que provaram que paulista sabe, sim, fazer samba. Vanzolini foi um acadêmico e intelectual que se rendeu aos prazeres da música. Vanzolini foi um apaixonado por São Paulo, que soube cantar a cidade tão bem quanto soube cantar seus amores. Vanzolini, com toda a sua desafinação e dificuldade para aprender instrumentos, foi um exemplo de que para fazer música basta ter sentimentos. E isso ele tinha de sobra. Vanzolini foi um mestre e é – e sempre será – um ídolo e exemplo para todo o samba paulista.

Vai na paz, mestre!

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Desigualdade social nas estações do metrô

Mias uma vez venho aqui destacar o trabalho realizado pelo pessoal do blog Estadão Dados, que se dedica a encontrar uma estatística interessante – e muitas vezes surpreendente – todo dia. Hoje, eles mostraram as diferenças de renda entre os passageiros de cada uma das estações de metrô de São Paulo. O resultado é bem interessante. Sem grandes surpresas, a linha vermelha é a que tem as estações com menor renda. Corinthians-Itaquera, por exemplo, apresenta renda média de R$ 1.191. O extremo oposto está na linha verde. A estação Trianon-Masp, a mais rica de todas, foi, para mim, o resultado mais surpreendente. A renda média de quem embarca por lá é de R$ 6.761. O levantamento não tem ainda dados referentes a linha amarela, pois as informações de renda são baseadas em números de 2010.

A importância de se assumir falível

Dow Jones - 23/4

Tudo culpa de um boato

Não precisa ser nenhum especialista em finanças para bater o olho nesse gráfico e ver que alguma coisa aconteceu de errado com o índice Dow Jones na tarde hoje. O que foi? Um boato espalhado pela internet e que chegou à conta da Associated Press no Twitter de que uma bomba teria explodido na Casa Branca.

Ao que tudo indica, a postagem na conta da AP foi ação de hackers, mas o caso é um bom exemplo da responsabilidade do jornalismo. Qualquer coisa que seja divulgada por um meio considerado confiável, é tido como verdade e as consequências são grandes. Taí a importância de a mídia saber se assumir falível, como defendi hoje mais cedo.

Quando o jornalismo deve pedir desculpas?

O jornalismo, como qualquer outra atividade, às vezes erra – muitas vezes, para falar a verdade. No jargão, conhecemos essas falhas como “barrigas” e, acredite, elas acontecem muito mais do que você imagina. Na maioria dos casos são pequenas e não provocam grandes danos ou repercussão. Um nome trocado ou uma inversão na ordem dos dados. Algumas vezes, porém, o impacto é grande. Informações que afetam resultados de bolsas de valores ou que colocam a população em estado de alerta desnecessariamente. A chance disso acontecer é maior na cobertura de grandes tragédias, como os atentados na maratona de Boston. Nessa hora, a redação fica tomada por uma adrenalina tão grande que é difícil separar o certo do errado. É ai que se escolhe uma foto de mau gosto. Ou pior do que isso, é ai que se dá uma barrigada incrível.

Foi o que aconteceu com o New York Post, que deu uma capa acusando dois inocentes de terem cometido o atentado. O erro foi apenas o auge de uma sequência de falhas de apuração que começou com a informação de que 12 pessoas haviam sido mortas nas explosões, quando na realidade foram 3 vítimas fatais. Mediante tantas falhas, qual foi a resposta dos editores do jornal? Nenhuma.

O silêncio fez tanto barulho que um site independente resolveu fazer o que a equipe jornal deveria ter feito. O resultado pode ser visto no vídeo abaixo:

Para ler a carta que eles colocaram no meio dos jornais, clique aqui.

A pergunta que fica é: quando um veículo de comunicação deve pedir desculpas pelos erros cometidos? Não falo apenas dos nomes digitados errados ou das óbvias falhas de pensamento. Esses são males menores e, em alguns casos, até engraçados. Prova disso é essa seleção feita pela Folha dos “melhores” erros de sua história.

O que eu falo é dos erros de apuração, que induzem o leitor ao erro e, em alguns casos, ao pânico. A publicação da foto de um inocente como se fosse o culpado pelos atentados é um erro grave, que mexe com a vida e a cabeça de milhões de pessoas. É uma pena que o jornalismo só tenha por hábito pedir desculpas nos momentos mais fáceis – ou então quando é acionado por uma fonte raivosa. É grave também o fato de as correções ficarem sempre restritas a um pequeno cantinho despercebido no  pé de alguma página pouco lida. Raros são os casos em que a errata ocupa o mesmo espaço da notícia. Bem que podíamos seguir o exemplo do Diário de Teófilo Otoni mais vezes.

Grávida que sobreviveu a acidente está viva

Um raro caso de jornal que assume uma falha de apuração

Cúmplices

Trocavam olhares com a certeza de que nunca mais se veriam e, por isso mesmo, se davam o direito de trocar sorrisos como se estivessem loucamente apaixonados. Não estavam e nem poderiam estar. Ela namorava. Ele tinha decidido que jamais se apaixonaria por ninguém. Mas a vida é feita de momentos assim, de pequenas paixões que começam e terminam exatamente no mesmo lugar. Às vezes é no metrô, outras na praia e há casos até em que isso ocorreu em um velório.

No caso deles não teve a velocidade do metrô, a leveza da praia ou a impertinência do velório. Se apaixonaram – e se desapaixonaram – em uma balada. A música era alta o suficiente para que mal conseguissem conversar. Não fosse assim, provavelmente teria sido muito difícil para se abandonarem no final daquela noite. Tinham muito em comum. Muito mais do que ela tinha com seu namorado e muito mais do que ele pensava ser possível ter com qualquer pessoa. Se tivessem ouvido o que outro falava, muito provavelmente se apaixonariam, mudariam os rumos de suas vidas e, no final, se decepcionaram. Ter tudo em comum não significa ter algo em comum. Tudo costuma ser muito pouco quando o assunto é o coração. Seriam um péssimo casal. Os dois tinham opiniões fortes e, por mais que fossem as mesmas, não estariam dispostos a serem comandados por ninguém.

Mas o que importa é que, durante aquela noite, foram um ótimo casal. Ela tinha a liberdade de quem estava em uma cidade desconhecida, com pessoas desconhecidas, e podia agir sem medo de que o namorado descobrisse no dia seguinte. Ele tinha a liberdade de quem faz o que bem entende, fingindo não se importar com a opinião alheia. Dançaram juntos durante horas, mesmo sem saber dançar. Até mesmo quando não havia música davam a impressão de continuarem dançando.

Quem olhasse a cena, podia imaginar que se conheciam há tempos. Eram cúmplices. O que ninguém sabia – porque as pessoas nunca sabem de nada – é que aquela era uma cumplicidade que só é possível entre quem não se conhece bem. A mais forte das cumplicidades. Uma que vem naturalmente.

No meio da noite ele disse que ia pegar uma bebida e nunca mais voltou. Ela até pensou em procurá-lo, mas agradeceu que aquilo tivesse acontecido. Ele, em casa, ficou aliviado por ter tomado a decisão certa.

 

Que ano é hoje? Ou o preconceito racial na atualidade…

Se você é daqueles que pensa que o preconceito racial ficou preso nos anos 1950, sugiro que veja os links desse post com bastante atenção.

Nos últimos dias, duas histórias me deixaram bastante surpreso. Não imaginava que Brasil e Estados Unidos ainda tivessem preconceitos tão fortes e arraigados. Para mim, as coisas ficavam muito mais “escondidas”, disfarçadas em salários menores, no tratamento diferente dado pela mídia e em arroubos racistas que, de vez em quando, vemos por ai – principalmente nos comentários anônimos da internet.

Em alguns lugares, porém, a coisa é bem mais descarada e desavergonhada. Não fosse isso, como explicar que garotas do estado americano da Georgia resolveram instituir uma “nova” tradição para o baile de formatura do colegial? A nova tradição nada mais é do que dar uma festa onde possam comparecer negros e brancos. Nada de comemorações separadas, como acontecia até então.

No Brasil, na cidade de Canguçu (RS), a igreja Luterana tem sedes separadas para os brancos e para os negros. Um quilômetro separa as igrejas, comandadas pelo mesmo pastor. Um quilômetro e um histórico baseado no preconceito racial.

O que mais me espantou nas duas histórias é que, segundos os textos, as coisas permaneceram assim porque foi o desejo da comunidades. Um sinal – preocupante – de que todo o passado ainda está muito presente na cabeça das pessoas.

Documentários em tempos de internet

Todo mundo está tentando encontrar um caminho para fazer o jornalismo aproveitar o máximo possível das ferramentas apresentadas pela internet. As possibilidades são muitas e os resultados benéficos para todos – empresas, que ganham uma sobrevida; jornalistas, que ganham novas formas de contar histórias; leitores, que têm a oportunidade de aprofundar seus conhecimentos sobre determinados temas.

Umas das últimas iniciativas que vi nesse sentido foi esta reportagem da BBC. A junção de vídeos e gráficos me parece interessante, mas ainda há algumas coisas que me deixam bastante incomodado com o projeto. Falta aparar algumas arestas e tornar a coisa ainda mais interativa. Natural, já que eles mesmo dizem que ainda estão na faze beta dessa linguagem e pedem sugestões de melhorias.

A iniciativa me fez lembrar de um projeto desenvolvido pela Agência Brasil, no auge do bom trabalho realizado lá por gente da qualidade de Eugênio Bucci e André Deak. O projeto é o Nação Palmares. Procurei o link, mas tudo indica que não está mais no ar (mais um sinal de que o trabalho da Agência, que parecia tão promissor nos primeiros anos do governo Lula, acabou descambando nos últimos tempos). Nação Palmares era um documentário hipermidiático, que buscava tirar o melhor proveito de cada forma de se contar notícia. Quem quiser imaginar um pouquinho melhor como isso funcionava, é só dar uma olhada no “making off” feito pelo Deak.

Outro projeto muito bacana de documentário digital é o Out My Window, uma reportagem que envolveu gente no mundo inteiro. Em uma série de vídeos, pessoas falam sobre os vários aspectos de se viver em prédios em uma grande cidade, principalmente do sentido comunitário que isso envolve – ou, ao menos, deveria envolver. Out My Window poderia ser um documentário tradicional, de 90 minutos, tempo total dos vídeos apresentados. Seria lindo e impactante, porque as histórias propiciam isso. Mas, ao invés de se contentar com a tradição, os autores acharam melhor nos permitir encontrar nossos caminhos, decidindo em quais apartamentos vamos entrar e que parte da vida dessas pessoas queremos saber. Os autores chamam de “documentário 360º”. Seja qual for o nome, é uma experiência riquíssima como só a internet pode nos proporcionar.

Cadê o sentido da vida?

Você acha que é muito difícil de entender quem somos, onde estamos e para onde vamos? Então invista quatro minutos do seu dia em assistir esse vídeo:

E se a Dilma escolhesse o tema da novela?

Outro dia, na lista de discussões da Abraji fomos brindados com uma excelente dica de Guilherme Alpendre, o diretor-executivo da entidade e, como diz Sérgio Gomes, da Oboré, o maior pauteiro do Brasil. Guilherme mandou um link da NPR, que reúne as rádios públicas dos Estados Unidos e costuma ter ótimos programas.

No link enviado pelo Guilherme, estava a reportagem que você pode conferir abaixo (em inglês). Nela, Jasmine Garsd, a correspondente da NPR em Caracas, capital da Venezuela, conta como o fim da RCTV, em 2007, afetou a produção de telenovelas no país. A RCTV era a maior produtora de telenovelas da Venezuela e, como uma Globo local, revendia suas produções para muitos países – inclusive para o Brasil.

Com o seu fim, o perfil das novelas venezuelanas mudou bastante. Saíram os ricos e poderosos e entraram as vidas de gente comum. Saíram os protagonistas brancos e europeizados e entraram negros e mulatos. Até ai tudo normal. O Brasil também vive um processo semelhante, apesar de mais lento.

O que me espantou na reportagem foi o fato de Hugo Chavez ter escolhido pessoalmente o tema de uma das novelas. Nada de amores proibidos ou grandes golpes. “Teresa en tres estaciones” trata de como a vida dos venezuelanos foi afetada pela construção do novo metrô no estado de Miranda, na região de Caracas. Resumindo: propaganda do governo em forma de novela. Já pensou se a moda pega?