Arquivo

Arquivo de março, 2013

Uma grande covardia

Sei que estou em falta com vocês… Mas tem muita coisa acontecendo e essa semana foi difícil parar e escrever alguma coisinha pra vocês.

Para me desculpar um pouquinho, aproveito essa Sexta-Feira Santa para dar uma passadinha por aqui. Infelizmente não vai dar para escrever nada muito elaborado, mas queria compartilhar este link. É uma reportagem da Wired sobre como o narcotráfico mexicano está utilizando crianças como soldados na guerra contra a polícia. Nenhuma novidade para quem vive no Brasil e já viu isso acontecer por aqui. Mesmo assim, é triste pensar que esse tipo de prática é tão comum – seja em guerras  nos nossos morros, nos conflitos africanos ou nos terríveis combates que tem apavorado o México nos últimos anos.

O uso de crianças, de qualquer forma que seja, é algo que me deixa muito revoltado. Fazer isso é estragar uma vida inteira, acabar com as chances de felicidade daquela pessoa. Covardia é pouco para descrever o que é isso.

A grávida

Tinha uma lenda na família de que, a cada criança que nascesse, alguém ia morrer. Desde quando a memória se lembrava, a história ia se confirmando. Diziam os mais velhos que era assim desde sempre e que não havia problema algum em ser assim. Era o ciclo natural da vida. Descrente das coisas do outro mundo, sempre encarou tudo como uma infeliz coincidência.

É lógico que queria ter conhecido a avó que morreu no ano em que nasceu. Era triste não ter podido conviver com ela, mas era a vida. Não se sentia culpada. Por mais que dissessem o contrário, sabia que não tinha roubado a energia de ninguém para vir ao mundo. Tinha certeza de que isso era pura bobagem do pessoal das antigas.

Fazia muito tempo que não pensava nesse assunto. Com os mais velhos se despedindo deste mundo, essas histórias vão ficando cada vez mais distantes. Tudo seguia em sua mais perfeita normalidade até o dia em que descobriu que estava grávida. Na verdade, não exatamente aquele dia. Não se tocou da gravidade do assunto logo no primeiro momento. Curtiu a gravidez tranquilamente até o quarto ou quinto mês quando, sem qualquer motivo específico, se lembrou das histórias sobre os falecimentos que precediam os nascimentos. Sabia que era a mais pura de todas as bobagens, mas, dentro de si, algo a fazia acreditar.

Tinha medo do que poderia estar para acontecer. Sua vida se resumia a umas poucas pessoas queridas. Da família, então, eram pouquíssimas. O tempo, as mudanças e as brigas tinham os resumido a não mais que meia dúzia. E ela fazia questão de cada um deles a seu lado. Ainda mais neste momento. Estava carente, com medo de seu futuro de mãe solteira e precisava de todas as forças. Eles eram suas forças. Se um deles – qualquer um – tivesse que morrer, seria como ficar manca.

Estava feliz com a chegada do moleque. Sempre sonhou em ter um filho e, mesmo que aquela não fosse a maneira que tinha idealizado, estava muito próximo de realizar seu maior desejo. Apesar de toda felicidade, porém, não conseguia sorrir. A cada momento se lembrava do que estava prestes a acontecer. E sua vontade então era de correr pelo mundo, de chorar, de abraçar alguém. Nunca fez isso. Nunca contou para ninguém o que se passava pela sua cabeça naqueles momentos.

Pensou em fazer um acordo com Deus. Não tinha muitas peças na manga para negociar, mas estava disposta a qualquer coisa para não abrir mão de ninguém em sua vida. Os meses foram passando e a tensão crescendo. Qualquer resfriado da mãe ou tropeção do irmão eram motivo para desespero. Queria que fossem ao médico todo o tempo. Ninguém entendia o que se passava com ela, mas fingiam normalidade. Provavelmente eram os hormônios agindo.

Chegou ao oitavo mês com o coração na mão. Pareciam estar todos sadios, mas a morte é traiçoeira. Tudo parecia um sinal de que ela estava vindo buscar alguém. Quando chegou o dia de entrar na sala de parto, não sabia se sentia ainda mais medo ou alívio. Parecia que tudo estava sob controle. A criança nasceu. Um menino lindo e forte. Saudável como toda a família.

Numa daquelas visitas que toda a mãe recebe em casa, ficou sabendo da morte de um tio avô distante, de quem ela sequer conhecia a existência. Tentou segurar, mas tudo o que conseguia fazer era sorrir e falar baixinho: “foi isso…”

A velha

Era uma velha reclamona. Daquelas que até a beleza de um dia ensolarado era razão suficiente para uma infinidade de resmungos. Antes mesmo que abrisse a boca já era possível ver o quanto era infeliz. Não sorria nunca e as rugas da cara não pareciam marcas de sabedoria. Ninguém tinha coragem ou vontade de perguntar sobre seu passado. Certamente não era das melhores histórias para se ouvir e era até provável que ela não quisesse contar. O cabelo tinha um branco amarelado, assim como aquelas roupas que já foram brancas um dia. Era uma velha descuidada, que já tinha desistido da vida há muito tempo – provavelmente antes mesmo de ser velha.

Certa vez, estava em um ponto de ônibus. Tinha que ir para o centro da cidade resolver alguma questão da aposentadoria. O ônibus demorava para passar e ela resmungava a todo momento. Queria que alguém interagisse, para que pudesse dar ainda mais força ao seu lamento. Era difícil ser velha. Nem reclamar conseguia fazer direito. Se fosse uma moça e bonita a resmungar sobre a vida, o mocinho do lado já ia ter dado alguma atenção. Parou de reclamar do ônibus e começou a reclamar da vida. Quase sempre esse era seu roteiro. Começava com algum assunto específico e terminava na própria existência.

Estava no meio de um desses lamentos sobre as dores do corpo e da alma que acompanham a velhice, quando sentiu as primeiras gotas. O ponto era daqueles descobertos e só restou a ela choramingar pela falta de um guarda-chuva. O último tinha quebrado em um temporal e o penúltimo tinha sido roubado no banco. Dos outros já nem se lembrava mais. Pelo menos se o prefeito fizesse um ponto de ônibus coberto, uma mulher da minha idade não ia ter que ficar aqui tomando chuva.

Um homem, que não era velho, mas era mal humorado, sugeriu que velha voltasse para casa, ao invés de ficar reclamando. Ela deu de ombros. Não ia voltar para casa. Tinha que ir para o centro resolver o problema do INSS. E ninguém tinha nada a ver com isso.

Em meio ao discurso que ela fazia para si e para quem quisesse ouvir, a chuva começou a aumentar. Os pingos mais grossos e fortes, daquelas pancadas típicas de verão, pareceram atingir a velha em cheio. Ela interrompeu o discurso pelo meio e, apoiada em uma mureta, começou a chorar. Ninguém teve a coragem ou a vontade de perguntar o que estava acontecendo. Todos olhavam com cara de espanto aquela velha, que há pouco era tão forte e virulenta, se desmanchar em lágrimas mais grossas que a chuva. Concluíram que era só mais um mal da velhice. Sinal claro de senilidade.

O que ninguém imaginava era que quem chorava não era a velha. Em seu lugar estava uma moça. Talvez a mais jovem de todos ali. Debaixo daquela mesma chuva ela tinha aprendido o que era um amor proibido. Foi sob aquela chuva que ela se entregou. Se lembrava tão claro que nem parecia fazer quase setenta anos. Aquela chuva tinha garantido o momento mais feliz de sua vida – talvez o único. E por isso não havia qualquer contradição em agora ela chorar de tristeza sob as mesmas gotas. Foi aquela chuva que marcou o fim da moça e o começo da velha.

Quando a chuva parou – bem mais rápido do que em sua memória de mocinha – ela se desencostou da mureta. Olhou para todos com a cara fechada de sempre e entrou no primeiro ônibus que apareceu – achando que, se ele não fosse para o centro, pelo menos iria para longe daquelas lembranças.

 

Essa vida de frila

Tem mais ou menos um mês que sai de meu último emprego. Desde então, venho trabalhando como freelancer – e estou muito feliz com isso. Quem é jornalista sabe o quanto está difícil viver em uma redação. O stress beira níveis absurdos e a estabilidade é uma lenda. A maioria absoluta dos empregadores prefere beber um copo de Ades de maçã do que pagar direitos trabalhistas. Isso é parte dos motivos que me levam a ter tanta satisfação com a “nova vida”, mas tem muito mais.

Acho que o que mais me encanta é a sensação de liberdade. Posso organizar minha agenda conforme for mais conveniente. Também não sou obrigado a fazer “cena” nos momentos em que não tenho nada para apurar ou escrever. Ao invés de fingir que continuo a trabalhar enquanto atualizo meu Facebook, posso muito bem pegar uma revista e ler uma ou duas reportagens. Isso para não falar na possibilidade de escolher se vou trabalhar de manhã, de tarde ou de noite e na de tratar de assuntos absolutamente novos todos os dias – nesse um mês, já falei de agronegócio, trabalho social, culinária, ferrovias…

Sei que nem tudo são flores. Já tive outra encarnação como frila e o fim do ano foi de secura quase absoluta. Não me iludo pensando que sempre vou ter trabalho sobrando. Mas essa perspectiva não me deixa mais tão assustado. É lógico que preciso de dinheiro para viver, mas com um pouco de planejamento os meses de vacas mais gordas ajudam a manter os meses mais fracos.

O mais importante de tudo é que logo comecei a sentir alguns efeitos dessa nova opção de carreira. Um dos principais é este blog. Estou mais criativo ultimamente e tudo o que vocês leem aqui é resultado direto disso – e também do fato de eu poder parar e escrever esse tipo de coisa quase que a qualquer hora. Também tenho conseguido programar e preparar melhor alguns projetos pessoais. São coisas pequenas, mas que certamente vão me dar uma grande satisfação pessoal.

Não sei por quanto tempo toda essa alegria com a vida de freelancer vai durar. Pode ser que acabe logo ou que fique para sempre. O que importa é que, enquanto ela existir, não vou encarar o fato de ser frila como uma falta de opção, mas sim como a minha opção. E isso, eu garanto, não é pouca coisa.

 

Vida de celebridade

Queria ser famosa. Não importava a que custo. Simplesmente queria ser famosa. Nunca pensou bem se tinha alguma vocação. Não importava muito se era como modelo, atriz, política ou cantora. O que importava era que os outros se interessassem pela sua vida.

Nunca entendeu bem como não fazia sucesso. Seu dia a dia era muito mais interessante do que o de muita gente que circulava por aqueles sites de celebridades. Fazia muito mais do que atravessar a rua ou tomar água de coco na praia. Mas mesmo assim ninguém queria saber sobre ela. Nem mesmo a mãe, o pai ou o namorado. Todos eles fingiam se interessar, mas, no fundo, nutriam um desdém completo por ela. Pensavam que era burra. Achavam que exagerava em tudo o que fazia. Quando fosse famosa e aparecesse no programa do Faustão, com certeza todos eles dariam entrevista dizendo o quanto acreditaram em seu talento e apoiaram cada passo. Tudo mentira. A única que acreditava em si mesma era ela.

Passava os dias pensando no que poderia fazer para ficar famosa. Big Brother talvez fosse a melhor opção, mas ano após ano eles rejeitavam sua fita. Podia armar algum escândalo ou fazer algo inusitado, mas queria ser mais do que Geisy ou a peladona de Congonhas. Queria ser famosa de verdade.
Enquanto não encontrava o caminho, fingia já viver a fama. Usava a internet para reclamar dos invejosos e dizer o quanto era querida por tanta gente. Nas redes sociais, era mais bonita, gostosa e feliz do que pessoalmente. Aquele era seu grande palco. O público era pequeno, mas servia de ensaio para os dias de brilho que estavam por chegar.

Com o tempo, foi se convencendo do que via no próprio Facebook. Estava certa de que já era conhecida. Resolveu que só ia sair para a rua de óculos escuros – seu disfarce. Encarava qualquer olhar ocasional como um reconhecimento. E chegou ao ponto de fazer tchauzinho para as pessoas na rua. E quem dissesse que estava ficando louca é porque queria estar no seu lugar.

Não demorou muito e os sintomas foram piorando. Contratou um assessor de imprensa e um maquiador próprio. O primeiro bombardeou os sites de celebridades com notinhas sobre ela. Contava as novidades do namoro, as noitadas incríveis e os planos futuros. O segundo fazia a produção para as fotos do Instagram. Não podia correr o risco de aparecer menos bonita em uma ou outra imagem.

Logo o que era sonho passou para o mundo real. Ela era uma celebridade. Sub, mas celebridade. Não sabia bem definir o motivo da fama, mas não importava. Ficou encantada com a nova vida. Até o dia que reparou que absolutamente nada tinha mudado.

 

Só mais um sonho impossível

Foi só quando o sol começou a dar os primeiros sinais de que ia nascer que ele se deu conta do que tinha acontecido aquela noite. Fazia praticamente cinco horas que estavam sentados na areia. E aquele fim de festa era melhor do que a festa em si. Muito melhor.

Em menos de três horas ia pegar o voo de volta para São Paulo. Depois disso, talvez nunca mais encontrasse aquela garota. Não que fizesse questão de vê-la novamente. Não seria a primeira vez que, depois de uma longa noite juntos, ele deixaria alguém para trás, em meio a promessas de telefonemas que jamais aconteceriam. Essa era, aliás, sua prática padrão. Não era, portanto, aquela garota que o encantava. Ela era linda, como muitas outras com quem ele já tinha estado. Não podia reclamar da vida. Tinha sorte com mulheres – e costumava dizer que elas também tinham sorte com ele.

O que o deixava triste de ver aquela manhã nascendo era justamente a sensação de liberdade que a noite trouxe como brinde. Estar sentado na areia com uma quase desconhecida, sem se importar com qualquer tipo de julgamento era quase um sonho. Tudo combinava para um cenário ideal. E ele não queria abandonar isso de jeito nenhum. Gostava da areia em seus pés. Gostava dos primeiros raios de sol. Gostava daquela brisa que só o Rio de Janeiro tem. Gostava também do beijo da carioca.

O que mais gostava, porém, era o conjunto de tudo isso e o significado que ele dava para essa união de fatores. Ter o direito de não pensar no trabalho por alguns instantes. De não pensar na vida por aqueles mesmos instantes. De deixar que as coisas acontecessem enquanto, para ele, nada acontecia. Foi ao reparar que tudo ia ter que voltar a acontecer para ele também que começou a sentir uma angústia. Queria parar o tempo mais um pouquinho.

Sabia que era impossível realizar esse sonho, assim como era impossível realizar qualquer sonho de liberdade. Olhou de novo para o céu e notou que o sol já estava em seu devido lugar. Pela primeira vez desde que sentou na areia olhou para o relógio. Faltavam duas horas para o voo. Ainda ia ter que voltar para o hostel, tomar um banho e terminar de arrumar a mala. Resolveu que nunca ia conseguir fazer isso a tempo. A resolução foi tão firme que se deitou mais um pouco na areia e, antes que o mundo real voltasse a chamá-lo, decidiu viver um pouquinho mais do sonho impossível – pelo menos até o próximo avião voar para São Paulo.

 

O teólogo e o taxista

19, março, 2013 Gabriel Ferreira 1 comentário

Ontem tive a oportunidade de acompanhar de perto a transmissão do Roda Viva. O entrevistado do dia era o teólogo Leonardo Boff, um dos grandes nomes da Teologia da Libertação, que falou sobre a escolha de Jorge Mario Bergoglio para comandar a Igreja e sobre os rumos que o catolicismo deve tomar a partir disso. Saí do estúdio muito impressionado com Boff. Já conhecia suas ideias, mas vê-lo de perto defendendo uma Igreja muito mais progressista do que a que temos hoje foi ótimo. Impressionante o quanto ele está animado com todo o simbolismo envolvido na eleição do papa Francisco. Boff acredita realmente que a defesa da Igreja pobre para os pobres será levada a cabo pelo novo pontífice e que isso representará grandes mudanças na estrutura da Igreja.

Durante a hora e meia de programa, Boff demonstrou ter muita clareza de pensamento e saber exatamente qual é a Igreja que pretende. Nesse ponto, chegou a criticar o próprio irmão, Clodovis Boff, também teólogo, a quem chamou de contraditório e acusou ter se afastado do que mais importa: o contato com as bases da instituição.

A firmeza teórica de Boff não me espanta. Com uma extensa bibliografia e anos de trabalho dedicados ao estudo da teologia, era de se esperar que Boff tivesse, de fato, uma visão clara sobre o que a Igreja precisa. O que me surpreendeu foi o que aconteceu logo depois do programa. Voltando da TV Cultura para minha casa, não pude deixar de reparar no crucifixo preso no retrovisor do táxi em que estava. Perguntei ao motorista, um senhor de pouco mais de 60 anos, se era católico praticante e o que pensava de Francisco.

Mesmo sem a riqueza teórica de Boff, o taxista me disse as mesmas coisas. Falou da alegria de ver um papa que pensava nos pobres. Que acreditava que tudo ia além do simbolismo. Que tinha certeza de que grandes mudanças viriam pela frente. Assim como os entrevistadores do Roda Viva, perguntei o que ele achava do fato de Bergoglio ter sido contra diversas reformas progressistas na Argentina. De novo, não vi grandes diferenças entre o taxista e o teólogo. Os dois disseram, cada um a seu modo, que o papa ter posições pessoais conservadoras não significa que ele não veja a necessidade da Igreja se modernizar.

Ao sair do carro entendi, finalmente, porque, no último bloco do programa, Boff demonstrou tanta certeza de que o futuro da Igreja deveria estar nas mãos dos leigos. Só quem sente a fé e as necessidades do mundo real ao mesmo tempo pode entender o que precisa a Igreja.

 

Amor paulistano

Ela estava perdida. Em todos os sentidos estava perdida. Quando desceu do avião, se tocou de que não tinha ideia de para onde deveria ir. Pior que isso. Não falava a língua estranha daquelas pessoas estranhas que pareciam andar meio desatentas, tropeçando umas nas outras. Aquele foi o primeiro momento em que se perguntou o que estava fazendo ali. O primeiro de muitos. Em cada um deles encontrou uma resposta tão furada quanto convincente, levantou a cabeça e seguiu. Em geral, essas respostas envolviam um sentimento que estava mais para difícil de explicar do que para óbvio. Estava lá por amor. Quando soube que podia perder para sempre o homem de sua vida, ela não pensou muito antes de correr para o aeroporto e pegar o primeiro avião que partisse para São Paulo. Fez como se pegasse um ônibus de casa para o trabalho.

Antes que fosse vencida pelo susto de estar naquele lugar estranho, tomou a decisão de fazer o que parecia ser mais óbvio. Em 27 anos de vida, nunca tinha viajado para fora de seu país, mas morar em Nova York tinha ensinado que, na dúvida, a melhor coisa a ser feita é seguir a manada. Seguiu e se deparou com uma fila de gente que, uma a uma, entrava naqueles carros brancos. Apesar da falta de cor, as plaquinhas em cima logo fizeram com que ela percebesse que eram taxis. Ótimo. Não sabia ainda para onde queria ir, mas o motorista certamente conheceria um hotel. Entrou na fila e assim que chegou sua vez, pediu para ser levada a um hotel bom e barato. O taxista fez cara de ponto de interrogação e só então ela se relembrou que a Torre de Babel já tinha caído há muito tempo. Tentou a mímica, misturada com um pouco de espanhol aprendido com uma empregada velha que trabalhou na casa de seus pais. Funcionou. O carro finalmente começou a andar e, quase uma hora depois, estava parada na frente de um hotel.

Ficou aliviada quando descobriu que a atendente falava inglês. Pediu um quarto e contou seu drama. Todos os detalhes. Falou que tinha saído dos Estados Unidos atrás de um sujeito do qual não sabia quase nada. A recepcionista do hotel se solidarizou com a história. Viraram quase que amigas. Entre um cliente e outro, conversavam sobre amores passados, presentes e futuros. A atendente prometeu que ia ajudar a gringa a achar o amor. No fundo, mais do que torcer para achar o sujeito, rezava para que promover o reencontro valesse a pena. Já tinha se apegado àquela garota e estava com medo de que ela se decepcionasse. Se isso acontecesse, de alguma forma, a recepcionista se sentiria culpada. E de culpas já bastavam as que eram realmente suas.

A moça não sabia quase nada do amado. Só que o nome era Wagner. Que morava em São Paulo. Que tinha ido aos Estados Unidos há menos de um mês, segundo ele para uma reunião de trabalho. Disse que era executivo de uma multinacional, mas ela nunca acreditou muito nessa história. Achava mais provável que ele fosse um brasileiro comum, desses que faz algum sacrifício para conhecer Nova York.

Não sabia por onde começar a procurar, mas tinha que descobrir alguma forma. Uma viagem daquelas não poderia ser em vão. Com a ajuda da amiga-recepcionista, tentou se lembrar de detalhes. Talvez uma frase que não fizesse muito sentido para ela servisse de referência para a outra. Em algum momento, ele comentou algo sobre uma feira de arte. Disse que gostava de ir lá aos fins de semanas. Que era um dos melhores lugares para se comer coisas típicas do Brasil a um preço justo. A recepcionista pensou que pudesse ser a Benedito Calixto. Prometeu levar a moça até lá no próximo sábado.

Enquanto esperava a chegada do tão esperado dia, ela resolveu conhecer um pouco mais de São Paulo. Sempre sob orientações da amiga, andou pela Paulista, viu as vitrines da Oscar Freire, correu no Parque do Ibirapuera e rezou na Catedral da Sé para reencontrar seu grande amor.

Na noite da véspera, como que para comemorar o sucesso garantido do dia seguinte, as duas amigas foram à Vila Madalena. Foi em um bar de samba que, pelo mais mero acaso, a americana encontrou o amor de sua vida. Não era aquele que tinha conhecido em Nova York, mas essa busca, de repente, ficou sem qualquer sentido.

Não significa não!

Já faz um bom tempo que queria fazer esse post, mas na correria do dia a dia, o assunto acabou escapando. Até que hoje me deparei novamente com essa capa da Playboy da África do Sul, publicada no início deste mês.

Sei que a Playboy não é ninguém para gritar conta a objetificação da mulher. Mesmo assim, é muito bonita a iniciativa da revista. Respeitar as mulheres e seus desejos é o mínimo que devemos fazer. Acho inaceitável vivermos em uma sociedade moderna, tecnológica, etc, etc e tal e a mulher não ter o direito sobre o próprio corpo. E para quem acha que estou exagerando, é só pegar as notícias de estupro, agressões e discriminação que estão todo dia nos jornais. Algumas notícias são tão horrendas que chegam a dar nojo. E não venham pensar que isso é coisa cultural de um ou outro país. O Brasil está cheio de casos como esses também.

A gravidade da questão é tanta, que a contracapa da Playboy trazia dicas básicas para evitar a violência sexual. Coisinhas básicas, como não tolerar a degradação da mulher e ensinar seus filhos que a palavra final sobre um corpo de uma pessoa é dela e de ninguém mais. Vamos torcer para que esse assunto esteja cada vez mais em pauta e que, em pouco tempo, a gente não precise mais de dicas tão elementares quanto essas.

Paixão de elevador

Já estava pronto para sair de casa quando a mãe, como sempre, pediu que arrumasse o cabelo. Deu uma passada de mão e com uma cara de pouquíssimos amigos disse que não ia encontrar o amor da sua vida na rua. Estava certo. Antes mesmo de chegar na rua, ainda no elevador, viu a mulher mais linda do mundo abrir a porta e entrar. Se arrependeu de não ter arrumado o cabelo. Se arrependeu de estar vestido com aquela roupa. Queria parecer mais descolado, mas era tarde demais.

Nunca tinha visto aquela moça por lá. Tudo nela era incrível. O cabelo ruivo, do jeito que ele gostava. O vestido, com um pequeno ar de desleixo. A cara de quem gosta de ser livre e fazer o que bem dá na telha. Queria puxar papo, perguntar o nome, descobrir quem era e o que fazia ali. Estava na torcida para que fosse uma vizinha. Que morasse sozinha. Já se viu de mudança para o quarto andar. Será que namoro entre vizinhos dava certo? Com ela, com certeza daria.

O problema é que ele nunca tinha conseguido fazer essas aproximações inesperadas. Morria de vontade de se apaixonar no metrô, mas nunca teve coragem de começar a conversa com as hippongas maravilhosas que encontrava na Linha Amarela. No elevador, então, era pior ainda. Se não desse certo, se passasse vergonha, ele corria o risco de reencontrar sua musa inúmeras vezes e não saberia onde esconder a cara.

Mesmo ponderando todos esses pontos contra, resolveu agir. Precisava agir! E tinha que pensar rápido, antes que o elevador chegasse ao térreo. Viu que ela segurava um livro e perguntou se era bom. Naquele momento teve a certeza de ter tomado a melhor decisão de sua vida. Ela estava louca para começar uma conversa e também não sabia como! Era nítido o alívio na cara dela quando ele perguntou sobre o livro. Respondeu. Tomou coragem e perguntou o que ele estava lendo. O elevador chegou e eles continuaram lá, na porta, falando sobre os gostos literários.

Os sorrisos eram tímidos, mas deixavam bem claro as intenções. Os dois estavam felizes por terem começado aquela conversa. Se achavam muito interessantes, tinham muitas coisas em comum. Não foi difícil, então, que a conversa evoluísse dos livros para os filmes. Falaram dos favoritos, do último Oscar, do cinema nacional. Ela disse que ainda não tinha visto o último Tarantino. Ele fingiu também não ter visto e perguntou se ela iria com ele. Não que um Tarantino fosse o filme ideal para se começar um namoro, mas foi o que o destino ofereceu. Trocaram celulares e combinaram de se falar mais tarde, para acertar o cinema e a sessão.

Naquela noite, o filme foi ótimo, assim como o jantar que veio logo em seguida. E, em menos de seis meses, lá estava ele levando a escova de dentes e uma mala de roupas para o quarto andar.