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Arquivo de março, 2012

O neoliberalismo na feira de ciências

Não quero discutir a questão politico-econômica. Resolvi colocar o vídeo aqui porque achei uma forma muito criativa e interessante de explicar uma posição ideológica.

Neoliberalism As Water Balloon from Tim McCaskell on Vimeo.

(Vi esse no blog do jornalista português Paulo Querido, um dos maiores entendidos em jornalismo em tempos de novas mídias)

Por que temos preguiça de fazer jornalismo?

Há pouco mais de uma semana, o grande jornalista econômico Rolf Kuntz escreveu no Observatório da Imprensa um artigo criticando a cobertura feita pela imprensa sobre a nomeação do ex-bispo-senador Marcelo Crivela para o Ministério da Pesca.

Lá pelas tantas, Kuntz afirma no texto:

Os jornais poderiam ter oferecido ao leitor um pouco mais do que os perfis da Folha e os números apresentados pelo Globo. O Ministério da Pesca pode ser, na prática, meramente um lugar de acomodação de companheiros e aliados e um instrumento do jogo eleitoral. Mas é, oficialmente, um órgão federal voltado para uma atividade-fim. Tem uma estrutura e um custo de financiamento. Por que não apresentar ao leitor, com mais detalhes, um retrato desse ministério e uma avaliação técnica de seus resultados?

O grifo na pergunta é meu, porque é nela que quero me ater. Muitas vezes, quando estou fazendo a leitura dos jornais me pego perguntando: “E daí?”. Todos os elementos mínimos para uma notícia estão ali, e mesmo assim falta alguma coisa. Faltam justamente os detalhes, as análises e os próximos passos.

Ainda mais em tempos de internet, de que me adianta sujar as mãos com o jornal se, no dia anterior, já li tudo aqui? Muitas vezes, o que prejudica o jornalismo impresso é o pensamento do “sempre foi feito assim”. Sempre foi feito assim, mas o assim não basta mais. O assim transitou para internet e, para fazer jornal impresso que seja vendido, é necessário dar um pouco mais para o leitor. Para fazer isso, o primeiro passo é deixar a preguiça de lado e afundar a cara nos números dos governos e das empresas. Olhar para as informações e sempre procurar ver um pouco além. Nem sempre vai se descobrir algo genial, porque nem sempre há algo genial a ser descoberto. Mas pelo menos o jornalista sempre poderá ir com a cabeça tranquila para o travesseiro por ter entregue a seu leitor algo um pouquinho diferente do concorrente.

Eu no Novo em Folha

Para quem não viu ainda, dá uma olhadinha nesse post do Novo em Folha com um pouquinho da minha história.

É lógico que tem muito mais a se contar – a primeira versão do texto era maior que a biografia do Garrincha -, mas acho que consegui resumir lá o mais importante. Com o tempo, aqui, posso ir contando outras partes dessa histórinha (que não é uma puta história, mas é a minha, pô).

A experiência antropológica de prestar um concurso público

Quem já prestou concurso público sabe a experiência antropológica que isso é. A reunião de milhares de pessoas em um único lugar, por si só, já garante horas e horas de diversão para quem gosta de observar pessoas. O fato de essas pessoas estarem todas na tensão de quem busca uma vida melhor, só torna as coisas ainda mais interessantes. Quando o concurso é generalista, daqueles que exigem só um nivel médio em troca de um bom salário, a variedade de tipos presente é enorme. Tem jovem e velho, filhinho de papai e gente simples, estiloso – daqueles que vem de coletinho e tudo o mais – e gente normal. Tem também os fiscais e suas síndromes de pequeno poder. Mas só escrevi tudo isso porque lembrei de uma menina que vi certa vez. Amtes da prova, uma menina devorava loucamente um Activia. Fiquei pensando o que poderia aconter com a garota durante a prova. Pois é… (Desculpem o texto curto e os eventuais erros. Escrevi do ipad e odeio digitae nisso aqui)

1 semana de vida nova

Hoje estou concluindo minha primeira semana no jornal. 5 dias. 5 edições fechadas. Como é louca essa história de ter que fechar edição todo dia. Mas é uma loucura bem gostosa. Aquela adrenalina boa, sabe? Fora que é estou aprendendo muito sobre jornalismo. O jornal diário faz a gente ganhar velocidade na apuração e na escrita – velocidade, mas sem perda de qualidade, o que é um desafio. Antes de começar, achei que talvez não fosse dar conta, afinal minha experiência era de revista mensal. Era comum ter um mês inteiro para pensar em pautas, apurar e escrever – na pior das hipóteses, eu tinha dois dias. Agora é o mesmo processo todo dia. Sentiu o drama? Pois é. Eu senti e estou me adaptando melhor do que pensei. Que assim continue. Vamos acompanhar…

(Para quem quiser saber mais sobre como é a rotina de um novato em redação diária, recomendo o livro Jornalismo Diário, da editora de treinamento da Folha Ana Estela.)

Parabéns, suas lindas

Às vezes acho essas histórias de data bobagem. Mesmo assim, não vou resistir e tenho que dar parabéns para toda a mulherada que faz a minha vida mais feliz. Não sei o que seria minha mãe, minha irmã, minhas tias, minhas avós, minhas amiga (sai, Palmirinha, deste corpo que não te pertence!) e minhas colegas. Também não posso deixar de citar a memória de minhas bisavós – uma delas, inclusive, nascida em pleno de 8 março.

É essa mulherada toda que torna minha vida mais feliz e me faz um cara mais inteligente, mais compreensivo e, sobretudo, mais HOMEM.

Parabéns e obrigado, suas linda!

 

Eu e meu nome

No primeiro post desta nova etapa do blog comentei sobre o curso que fiz com a Eliane Brum, quando me dei conta da importância de o repórter ser um bom escutador.

Na seleção para o curso, Eliane pediu para que os candidatos escrevessem dois textos. Um deles, era sobre a origem do nome e a relação da pessoa com ele. Escrever sobre isso foi ótimo. Nunca havia parado para pensar no quanto meu nome influencia minha(s) personalidade(s). Por isso, resolvi compartilhar esse texto com vocês. Segue:

Vários em um

Caminhando pela rua, ouve alguém gritar: “Agá!”. Para imediatamente, na certeza de que quem chama é um grande amigo. Não estava errado. Os dois se abraçam, fazem as velhas promessas de que vão marcar uma cerveja qualquer hora dessas e seguem o rumo. Mais tarde, o telefone toca e, distraído, não tem nem tempo de olhar o número que chama. Não precisa. Assim que aperta o botão verde, escuta a voz do outro lado perguntar: “Gá?”. É ela. Abre um sorriso que só se apaga na hora em que apertar o vermelho fica inevitável. De madrugada, quando chega em casa depois de uma exaustiva noite de trabalho, tenta não fazer barulho, para não acordar ninguém. Não adianta. Antes que o pé ante pé culmine em seu quarto, escuta a pergunta vinda da cama dos pais: “Gabriel, é você?”.

Sim. Ele é Gabriel. Mas não só. Se quem chama é um amigo dos tempos de colégio, é Gabi. Se for alguém da turma da faculdade, é Agá. A paquera melosa? Gá – com aquele excesso de as que só cabe na boca de uma paquera melosa. Gabriel Ferreira para quem lê as reportagens que assina. E até para os atendentes de telemarketing tem um nome diferente: senhor Gabriel Henrique Ferreira Silva. “Ferreira da Silva, por favor”, ressalva sempre.

Quando os pais de Gabriel descobriram que o bebê que estava para chegar era um varão, não hesitaram para escolher o nome. Era Gabriel Henrique e ponto final. Os dois estavam de acordo e não houve discussão. Mesmo com uma decisão tão decidida, o destino se encarregou de pregar uma peça em todos. Poucas vezes o menino foi Gabriel – e quase nunca Gabriel Henrique. O nome do jeito simples praticamente só foi adotado em casa – e mesmo assim, nem sempre. O composto e pomposo ficou só para quem ligasse com o intuito de vender qualquer quinquilharia, assinatura de revista ou linha telefônica. “Na minha família todo mundo tem nome duplo”, afirma Gabriel. “Não sei porque, já que ninguém usa os dois.”

A diversidade de nomes e apelidos não incomoda Gabriel. Pelo contrário. “Não sou a mesma pessoa em casa e na faculdade e não seria justo que eu fosse chamado do mesmo jeito em todos os lugares”, diz. Tomando essa tese como verdadeira, podemos dizer que Gabriel é do tipo falador, sempre com uma história para contar. Bem parecido com o Gabriel Ferreira – só que um pouco mais briguento. O Gá é o mais amoroso de todos, mas é quase unanimidade que o Agá é o mais fiel e leal de todos os heterônimos. “Nem sei como surgiu esse apelido, mas quase todo mundo que me chama assim é muito querido para mim”, diz Agá.

Quando ainda cursava a faculdade de jornalismo, Gabriel resolveu que assinaria suas reportagens como Gabriel Agá. “Para mim era natural, já que quando me olhava nos espelhos da faculdade era o Agá que eu via”, conta. A assinatura durou exatamente uma reportagem – para a revistinha interna da faculdade. Ninguém disse nada, mas ficou nítida a desaprovação do seu Alvaro Ferreira, o pai de Gabriel. Ele mesmo nascido Alvaro, mas criado Mané não liga para novos nomes – e até gosta de cultivar sua própria diversidade –, mas faz questão de manter a pureza do sobrenome.

 

(Depois vou postar o texto produzido durante o curso. Acredito que vocês vão gostar)

 

Um dia de sorte

Olhando para os lados, como quem procura a presença da polícia pouco antes de cometer um crime, ele entrou na delegacia. Bem devagar, caminhou até o primeiro policial que encontrou e pediu para falar com o delegado. O policial, um gordinho com cara de pouco caso e bigodinho fino, igual o dos galãs de antigamente, perguntou o motivo.

– Tenho uma confissão a fazer.

Foi medido de cima a baixo. Os pouco menos de um metro e sessenta, a boca grossa e os olhos arregalados exalavam vagabundagem de todos os poros. Mas com certeza não passava de um bandidinho pé-de-chinelo. Batedor de carteira. Quando muito, assaltante de padaria. Se fosse criminoso importante, não andaria com aquelas roupas quase sujas e prestes a rasgar – cara de roupa de segunda mão, retirada há pouco em alguma obra de caridade qualquer.

– Senta ai e espera. O delegado muito ocupado para te atender agora.

– Ele vai gostar de me ouvir.

Aquela hora da noite, o delegado com a cabeça cheia por conta do assassinato da moça dos Jardins, os jornalistas na porta, doidos para receber uma boa dose de carniça e aquele sujeitinho maltrapilho querendo incomodar o homem.

– Vai ter que esperar.

– Mas fui eu que matei a loirinha no Trianon – mal terminou a frase e pareceu surpreso com o que tinha acabado de dizer. Teve que repetir para ver se fazia sentido – Fui eu!

O gordinho sentiu as pernas tremerem naquele momento. Três semanas de investigação e nenhum suspeito decente. A sociedade questionando a competência daquela equipe. E, de repente, o vagabundo estava lá, na sua frente, pronto para se entregar. Estava bom demais para ser verdade. Não podia ser verdade. Se soubesse que aquele era seu dia de sorte, teria aproveitado a hora do almoço para encarar a fila da Lotérica. Sem dizer palavra para o maltrapilho à sua frente, virou o rosto e gritou para que um tal de Meira fosse chamar o doutor.

O doutor – um jovem bacharel, que arrancava suspiros das donas de casa que viam suas entrevistas no Jornal Hoje – saiu de sua sala com ares de mau humor. Nos últimos dias, só sabia fazer cara melhor na hora das entrevistas. Esse povo da imprensa não pode reparar que ando tão preocupado.

– Que foi? – apesar da cara e do esforço para que a pergunta ganhasse ares de repreensão, o tom não foi tão azedo quanto seria de se esperar. Nunca conseguia ser tão durão quanto queria.

O gordinho de bigodes caminhou até o doutor e cochichou em seu ouvido. O doutor fez o sinal da cruz, mas não quis deixar que sua cara mostrasse qualquer alívio – como sempre, falhou na missão.

– Vamos entrar.

Entraram os três. O sujeito maltrapilho, o doutor bonitão e o gordinho dos bigodes.

Como matou? Por que matou? Conhecia a vítima? Roubou alguma coisa? Já tinha matado antes? Usa droga? Cadê a arma? Horas de perguntas. Horas de respostas. Nem todas batiam exatamente com o que as investigações tinham apontado. Mas eram respostas – e era isso o que mais estava em falta naquela delegacia nas últimas três semanas. Se o sujeito estava dizendo, tinha que ser verdade.

Confissão feita. Bandido preso. Hora de avisar àquele povo da imprensa que eles já tinham uma foto para estampar na primeira página do dia seguinte.

Depois de tanto tempo, aquele tinha sido um dia de sorte. Os jornais iam ter a tão sonhada manchete forte e inesperada. O doutor, o gordinho e o Meira, iam ter um pouco mais de paz até o próximo caso barulhento. O maltrapilho ia ter a chance de dormir sob um teto. E alguém, em algum lugar, ia respirar aliviado ao saber que tinham encontrado um culpado.

Nova etapa

Dentro de alguns instantes começa uma nova fase na minha vida. Estou indo para meu primeiro dia de trabalho no jornal Brasil Econômico. É um grande desafio, afinal nunca trabalhei em jornal diário, mas estou animadíssimo com a ideia.

Torçam por mim!

Lobo é cozido vivo. E agora?

Um pouco de diversão. Vejam essa ótima propaganda, do ótimo The Guardian. Muita gente já deve ter visto, porque o vídeo circulou bastante nos últimos dias, mas é tão bom que eu não podia deixar de postar.

E ai? Será que o tal do jornalismo aberto, mostrando a imagem completa, que o Guardian diz buscar existe mesmo? Estamos perto dele?

(Recebi primeiro a dica do Guilherme Alpendre, da Abraji.)