Arquivo

Arquivo de março, 2012

Ausência

Normalmente deixo alguns posts programados no fim de semana, para o caso de o tempo apertar e eu não conseguir atualizar aqui durante a semana. Esse fim de semana não consegui, porque estava muito ocupado dormindo depois de uma semana puxada. Ontem o dia também foi uma correria danada. Então peço desculpas pela ausência e prometo dar as caras assim que sobrar 10 segundinhos na minha agenda.

Pela atenção, obrigado.

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Irritando os entrevistados

Outro dia esta lendo um post no blog do Rodrigo Russo, correspondente da Folha em Londres, sobre o grande entrevistador britânico David Frost (aquele do filme Frost/Nixon).

Segundo o Rodrigo, Frost diz que, “se os assessores não ficarem insatisfeitos, não houve boa entrevista”. Isso me fez lembrar de um jornalista que, certa vez, disse que teve certeza de que fazia bem o seu trabalho no dia que acumulou processos de figuras como Antonio Carlos Magalhães e Paulo Maluf.

Sei que num primeiro momento pode parecer estranho o prazer que irritar ou desagradar alguém pode dar para esses repórteres, mas no fundo acho que consigo entendê-los. Por lidarem com temas muito delicados (política, principalmente), a irritação dos entrevistados é um sinal para eles de que conseguiram extrair informações valiosas para o público. É aquele prazer de ter a certeza de que foi além do óbvio. Nem sempre é um furo, mas sim um passo além daquilo que todo mundo já sabe. Espero que todo jornalista consiga sentir esse prazer algumas vezes ao longo da carreira.

Morreram Chico Anysio

Acho que uma das coisas mais difíceis é criar uma boa manchete, que fuja do óbvio e informe ao mesmo tempo. Resumir tudo o que será dito em uma ou algumas matérias em apenas uma frase pegadora é muito complicado. Por isso achei incrível a capa do jornal carioca O Dia de hoje. Além de ser uma bela homenagem ao Chico Anysio, consegue fugir do óbvio sem forçar a barra.

Primeira página do carioca O Dia em homenagem ao mestre Chico

Pé na Tábua e Sai Correndo

Adoro os tipos que encontro quando ando de trem. Os vendedores ambulantes, com discursos que só eles são capazes de repetir, as conversas que ouço e, principalmente, os artistas que se apresentam.

Outro dia, vi uma dupla de repentistas que merece o registro por aqui. Os dois se apresentam como Pé na Tábua e Sai Correndo e começam a apresentação agradecendo a Deus pela agenda de shows lotada. “São mais de 20 vagões por dia”, afirma Pé na Tábua, o mais comunicativo dos dois.

Mal terminam os discursos de agradecimento, já têm que fazer o primeiro intervalo da apresentação. Está chegando em uma estação e se os seguranças reparem que o palco está ocupado, os espectadores vão entender melhor o porque do nome da dupla.

Passada a interrupção, eles finalmente começam para valer o show. A primeira música fala sobre a diferença entre pobres e ricos. Enquanto um come tudo que vê, o outro passa fome. Uma espectadora, talvez de mau humor pelo dia de trabalho que ainda nem começou, reclama. “Sou pobre e não passo fome.” Novamente é Pé na Tábua quem toma a palavra e se justifica. “A gente fala da pobreza de verdade, daquela lá da África, que graças a Deus a senhora não sabe o que é.”

Hora do novo intervalo. Na volta, Sai Correndo avisa que é hora de mudar de tema e já pede desculpas para as moças que se sentirem ofendidas com a próxima música. Não tinha motivo. O texto era uma ode à beleza feminina, seja como ela for – por mais que os dois deixem clara a preferência pelas gordinhas. “Na praia, ninguém dá bola pra magrela.”

Mais um intervalo. Nesse, infelizmente tenho que descer. Mal vejo a hora de conseguir novo ingresso para o show da dupla.

Projeto Repórter do Futuro

Estão abertas as inscrições para o 6º curso “Descobrir a Amazônia, Descobrir-se repórter”. Para quem não conhece, o curso faz parte do Projeto Repórter do Futuro, desenvolvido pela Oboré. O projeto é voltado para os estudantes dos cursos de graduação de jornalismo e a pré-inscrição pode ser feita até 29 de março neste link.

Fiz o Descobrir a Amazônia há uns 3 anos e foi uma experiência muito enriquecedora. Aprendi muito, tanto sobre essa região do país (que teimamos em pensar apenas na base de esteriótipos), como sobre o jornalismo.

(Aproveitando o post, há poucos dias o Projeto Repórter do Futuro perdeu um de seus grandes amigos, o professor César Ades, vítima de um atropelamento na Avenida Paulista. Foi no auditório do Instituto de Estudos Avançados, então dirigido por Ades, que aconteceram os encontros do Descobrir a Amazônia no ano que participei.)

Estupro visto como um jogo

21, março, 2012 Gabriel Ferreira 1 comentário

Vi no blog do Juan Arias, correspondente do El Pais no Brasil, esse post. Já faz mais de uma semana e, desde então, estou pensando em como comentar a barbaridade dessa história. Não consegui, então apenas compartilho o texto do Arias, para que vocês possam me acompanhar na indignação.

Sobre a vida de frila

No post em que comentei meu texto no Novo em Folha, fiquei de compartilhar mais um pouco de minhas experiências aqui com vocês.

Hoje, queria falar um pouquinho sobre a vida de frila.

Sempre me senti atraído pela possibilidade de viver como freelancer. Via nisso uma liberdade total e a chance de escrever só sobre coisas que gosto. A prática se mostrou bem mais difícil que a teoria (como sempre, aliás), mas mesmo assim muito compensadora.

A decisão de cair nesse mundo se deu em um momento bem complicado. Não estava satisfeito com meu trabalho e ir para a redação era uma atitude cada vez mais penosa. Os fatores que provocavam isso não vêm ao caso, porém quem já enfrentou essa desilusão com algum emprego sabe bem como é levantar e não ter a mínima vontade de sair da cama para ir trabalhar. Resolvi acabar com isso antes que minha saúde começasse a se prejudicar. Me planejei e estabeleci um cronograma para comprar minha “carta de alforria”.

Fiz isso no dia 10 de novembro de 2011, véspera do meu aniversário. Naquele dia me senti leve como poucas vezes. Era uma quinta-feira. Na sexta, eu comemoraria meu aniversário. Depois vinha o fim de semana e só na segunda eu ia ter que pensar no meu futuro.

Esse foi meu maior erro. Eu já deveria ter pensado no futuro antes mesmo de pedir demissão. Não deveria ter feito apenas o planejamento financeiro, mas também o de trabalho.

Hoje eu sei que a maior dificuldade para quem está na vida de freelancer é conseguir trabalhos de qualidade. Para isso é preciso ter contatos ou cara de pau o suficiente para bater na mesma porta mil vezes. Antes de emplacar os primeiros trabalhos, isso é ainda mais difícil, mas nada impede que os resultados apareçam.

Tive a sorte de conseguir muitas coisas no meio do caminho. Praticamente não fiquei sem trabalhar e pude fazer coisas tão diferentes quanto escrever para a Sou Mais Eu! e a Brasileiros. Mas nem tudo paga tão bem quanto a gente merece e nem sempre é possível encontrar aquele frila tão prazeroso quanto esperamos.

O tempo que passei como frila foi relativamente curto, mas aprendi muito. Primeiro, descobri que existiam muitos mundinhos além dos que eu estava acostumado. Na mesma semana, tinha que lidar com esquemas completamente de chefias e de fechamento. Também aprendi a dar mais valor ao meu trabalho. Descobri qualidades que não conhecia e defeitos que fingia não ver. Mas, acima de tudo, aprendi algumas coisas que não devo fazer se, no futuro, resolver ou precisar tentar essa vida de novo (e esse conhecimento, talvez seja o mais valioso de todos).

A dica que dou para quem quer seguir esse caminho é “se arrisque, mas com segurança”. Se cerque de cuidados para os meses de baixa, para os calotes e para o começo, quando ainda pouca gente te conhece. Mas não deixe que esses cuidados te deixe sem ação. Como diria o velho ditado: “vai e arrasa!” ;)

Nossa sociedade racista

Há alguns dias compartilhei em meu Facebook um link para um post do blog espanhol 233grados sobre a resposta que a revista SoHo havia preparado a uma foto para lá de infeliz feita pela Hola.

Para quem não está por dentro da polêmica, vejam as imagens:

Logo depois que eu postei o link do 233grados, recebi a reclamação de algumas amigas sobre a reação da SoHo. Elas reclamavam do fato de as negras estarem nuas. Respondi que isso tinha a ver com o projeto gráfico da revista que, como tantas outras, tem por hábito colocar mulheres peladas em suas capas, como se essa fosse a única forma de atrair o público masculino – e babão.

Mesmo entendendo que se trata de uma questão editorial, o protesto das meninas me fez refletir sobre o assunto. É incrível como ainda vivemos em uma sociedade racista e machista, que resiste em dar espaço para mulheres negras que não aceitem transformar-se em objetos.

Enquanto sigo pensando no tamanho do preconceito em que somos criados – e que muitas vezes negamos, por achá-lo natural – aguardo uma resposta realmente a altura da agressão cometida pela Hola.

Nossa responsabilidade e “nossos personagens”

Esta semana, lendo o perfil dos oficiais perseguidos pelo Exército por serem gays, escrito pela sempre excelente Consuelo Dieguez e publicado na edição 66 da piauí, uma parte em especial me chamou a atenção. Lá pelas tantas, o casal, cansado das perseguições e preocupado com sua integridade física, resolve denunciar a situação à imprensa. Entram em contato com a redação da revista Época e, uma semana depois, se assustam ao ver a história na capa, com suas fotos sob a manchete “Eles são do exército. Eles são parceiros. Eles são gays. A história do primeiro casal de militares a assumir a homossexualidade.”. Os dois afirmam não terem sido avisados de que sairiam na capa. Tanto, que não se preocuparam sequer em avisar suas famílias do que estava por vir.

É lógico que, sendo capa ou não, a história dos dois por si só teria um potencial de repercussão imenso. A notícia era bombástica, mesmo que fosse contada em uma notinha. Ainda assim, não seria obrigação do repórter explicar aos dois como o assunto seria tratado e ajudá-los a ter uma dimensão do que aconteceria? Será que podemos omitir informação tão importante de “nossos personagens” (expressão arrogante, como se o jornalista fosse dono das histórias que conta), mesmo que, contando, corremos o risco de perdermos uma puta história? Não, não temos. É com a vida dessas pessoas que mexemos ao escrever suas histórias. A nossa, de um jeito ou de outro, segue a rotina.

Os absurdos da mídia com os dois sargentos não parou por aí. Dias depois da publicação da revista, eles foram convidados a participar do programa SuperPop, na RedeTV!. Segundo os dois, a produção garantiu toda segurança ao casal, já que um deles estava com a prisão decretada pela justiça militar, por deserção. Não só a segurança não foi garantida, como o programa se aproveitou do circo armado pelo Exército – que obviamente baixou no estúdio para prender o “desertor” – para aumentar a audiência.

Como sempre, o perfil na piauí, merece a leitura por si só. Para nós, jornalistas, a leitura é ainda mais obrigatória, para que possamos refletir sobre a atuação da mídia em alguns momentos do caso. Se ainda não leu, corre para a banca.

Uma cusparada no testamento de Cásper Líbero

Hoje tinha me programado para escrever sobre algum assunto bem leve por aqui. Infelizmente tive que muda de ideia.

De manhã, quando abri meu Facebook, vi uma notícia que muito me entristeceu. A Faculdade Cásper Líbero, onde fiz minha graduação, demitiu Edson Flosi, um dos professores mais queridos de todos os alunos.

Para quem não conhece, Flosi é um dos grandes nomes do jornalismo nacional. Durante anos, atuou na cobertua policial, na época em que essa ainda era uma editoria que mexia com a imaginação da molecada. Muitos dos que hoje comandam redações, quiseram entrar para o jornalismo por causa dos textos de Flosi. Não era a toa que Flosi havia escolhido essa área para atuar. Advogado por formação, ele procurava imprimir em suas reportagens o rigor dos termos da lei.

Como professor, Flosi buscou transmitir um pouco de sua vasta experiência às novas gerações. Se hoje sei a diferença entre um suspeito e um indiciado, é graças a ele. Tive a sorte de fazer parte de sua última turma. Doente, Flosi estava muito debilitado. Tanto que, no ano seguinte, pediu licença das funções de professor e permaneceu apenas como assessor da diretoria da Faculdade.

Agora, a demissão de Flosi – que não foi comentada pela Fundação que administra a faculdade – vem para encerrar de vez o vínculo do Mestre com a Cásper Líbero. Pensar emver um homem com a história de Flosi sendo demitido já me deixa revoltado por si só. Pensar que a demissão desse homem, que tanto contribuiu para fazer o nome da Cásper, se dá justamente no momento em que ele está doente é ainda mais triste.

É por isso que aplaudo a decisão do professor Caio Túlio Costa de pedir demissão em solidariedade a Flosi. É lógico que outros fatores pesaram em sua decisão (o que fica claro na carta em que enviou à direção da faculdade), mas o momento da decisão é simbolicamente oportuno.

Duvido, mas gostaria muito que a reação provocada pela demissão de Flosi e de Caio Túlio servisse para dar uma grande sacudida na direção da Faculdade, que há muito tempo vira as costas para seus alunos e abraça o mercado com todas as forças.

Triste cusparada no testamento de Cásper Líbero.

(Mais sobre o assunto nesta matéria do Estadão.com)