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Arquivo da Categoria ‘Política e Economia’

Lutemos pelos 20 centavos – e depois pelo resto

Que os 20 centavos são só a gota que fez o copo transbordar todo mundo já sabe. Mas não podemos nos esquecer dos 20 centavos. Vendo de fora, estou um tanto preocupado com o rumo que o movimento tomou. Existe muita coisa para se protestar? Existe. Tem como mudar tudo isso de uma vez? Não. O jeito, então, é ir aos passos. Não adianta protestar de uma única vez contra o aumento da passagem, a PEC 37, o Feliciano (lembram dele?), a corrupção e a quantidade de laquê utilizada pela Dilma. Quem abraça tudo não abraça nada.

O que justifica um movimento tão grande é justamente que, pela primeira vez em muito tempo, tivemos um objetivo concreto para lutar. Tradicionalmente as passeatas contra “tudo isso o que está ai” são vazias, ocupadas por umas poucas dezenas de militantes aguerridos da esquerda ou da direita. Os 20 centavos são essa coisa palpável que faltava para dar vontade de sair de casa e correr o risco de voltar ferido ou ser preso. Não é só o preço da passagem que está levando as pessoas às ruas, mas é por isso que tem que se lutar nesse momento – sob a pena de ver o movimento se esvaziar rapidamente. Fazer o preço baixar vai ser a prova de que a mobilização é capaz de mudar as coisas e pode servir como incentivo para que a luta continue. Qual o próximo tema da pauta? Não sei. Mas só trará resultados se, novamente, for algo absolutamente concreto.

Não gosto da expressão o “gigante acordou”. Antes de falar isso, lembre-se que você também faz parte do gigante. Se você tem a impressão de que ele estava adormecido, é porque você também estava. O brasileiro luta, sim, e não é de hoje. Uma passeata fecha pelo menos parte da avenida Paulista a cada quatro dias. Um povo que protesta no mínimo duas vezes por semana não me parece um povo adormecido. Parcelas da população, sim. E alguns desses estão, de fato, acordando.

Entre meus amigos mais engajados, vi alguns reclamarem da presença de um pessoal com cara de elite nos protestos. É como se tivessem tomando algo que é mais deles do que dos outros.Oras. É natural que isso aconteça. Um movimento não é bolo para crescer apenas com base nos mesmos ingredientes. É preciso agregar gente. Ao invés de se preocupar com a loirinha de olho azul que está protestando do seu lado, preocupe-se em manter a unidade do discurso. Não olhe para ela como uma inimiga, querendo roubar a “sua” manifestação. Política se aprende fazendo, então ajude a moça a fazer política.

Não sei quanto tempo vão durar os protestos. Não sei se a passagem vai baixar. Não sei o que vai vir depois disso. Mas sei que é preciso manter a roda girando. Já tivemos mobilizações que, depois de alcançados os objetivos, se desfizeram. Resta a nós lutar para que, dessa vez, a luta não acabe.

 

O governo tá certo!

Outro dia o Denis Russo, diretor da Superinteressante, escreveu sobre o esquerdo-direitismo, como ele definiu um jeito de pensar que se apega unica e exclusivamente a uma visão de mundo, como se não houvesse nada de certo fora disso. Conheço muita gente assim – nas mais diversas correntes de pensamento. Em homenagem a esses, segue esse vídeo d’Os Trapalhões:

E se a Dilma escolhesse o tema da novela?

Outro dia, na lista de discussões da Abraji fomos brindados com uma excelente dica de Guilherme Alpendre, o diretor-executivo da entidade e, como diz Sérgio Gomes, da Oboré, o maior pauteiro do Brasil. Guilherme mandou um link da NPR, que reúne as rádios públicas dos Estados Unidos e costuma ter ótimos programas.

No link enviado pelo Guilherme, estava a reportagem que você pode conferir abaixo (em inglês). Nela, Jasmine Garsd, a correspondente da NPR em Caracas, capital da Venezuela, conta como o fim da RCTV, em 2007, afetou a produção de telenovelas no país. A RCTV era a maior produtora de telenovelas da Venezuela e, como uma Globo local, revendia suas produções para muitos países – inclusive para o Brasil.

Com o seu fim, o perfil das novelas venezuelanas mudou bastante. Saíram os ricos e poderosos e entraram as vidas de gente comum. Saíram os protagonistas brancos e europeizados e entraram negros e mulatos. Até ai tudo normal. O Brasil também vive um processo semelhante, apesar de mais lento.

O que me espantou na reportagem foi o fato de Hugo Chavez ter escolhido pessoalmente o tema de uma das novelas. Nada de amores proibidos ou grandes golpes. “Teresa en tres estaciones” trata de como a vida dos venezuelanos foi afetada pela construção do novo metrô no estado de Miranda, na região de Caracas. Resumindo: propaganda do governo em forma de novela. Já pensou se a moda pega?

Cadê o tomate?

Nos últimos tempos o tomate se converteu em vilão nacional. Só se falava nisso, como se as culpas de todos os problemas econômicos enfrentados pelo país se resumissem a isso. Protestos de restaurantespiadinhas no Facebook, brincadeiras em programas matinais e até promoções de grandes varejistas fizeram com que a salada ganhasse um espaço na imprensa nunca visto antes na história desse país. Cheguei a ver até gente na TV sugerindo que se substituísse o tomate pelo chuchu. Tentei entender, mas resolvi deixar para lá… Enfim, falar mal do preço do tomate virou esporte nacional – até para gente que, como eu, nem sabia quanto ele custa normalmente.

Mas você qual o verdadeiro peso do tomate na inflação? O pessoal do Estadão Dados foi pesquisar e resolveu lançar um desafio. Clique no link e ache no gráfico o quadradinho que representa o tomate. Vou dar só uma dica: ele é menor do que o que representa a calça comprida masculina.

Mesmo sabendo que o tomate não é tão vilão quanto nos fizeram pensar, talvez você queira entender o que justifica o preço ter crescido tanto. A explicação, quem dá, é um dos jornalistas que melhor sabem falar de temas econômicos para quem não é muito ligado nesses assuntos, o Alexandre Versignassi, editor da Superinteressante e autor do livro Crash. O post dele no blog Crash dá um bom panorama do que aconteceu com o tomate. Resumindo, o que houve foi uma conjunção de fatores, que começa com aquela regrinha básica da oferta e demanda e vai até as políticas do governo de combate à inflação. Que tal, então, a gente deixar o pobre do tomate em paz e prestar atenção no que merece?

O direito humano de pedir a senha do cartão

O vídeo abaixo é uma pregação (ou pedição) do Pastor Marco Feliciano, deputado federal pelo PSC de São Paulo, escolhido pelo partido para comandar a Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Sinceramente, não acredito que as imagens deveriam impedir que Feliciano assumisse a presidência da Comissão, como muita gente tem falado nas redes sociais. Creio que o estelionato religioso e o uso da fé alheia cometidos pelo pastor nesse vídeo deveriam ser motivos suficientes para impossibilitar que Feliciano exercesse qualquer cargo público.

Não cabe aqui uma discussão sobre dízimo em si, pois isso é assunto interno de cada religião e não somos nós, que nada temos a ver com a história, que vamos dizer o que é certo ou errado. O que é espantoso são as formas que o pastor-deputado utilizou para pedir a contribuição dos fieis. Pedir a senha do cartão de fiel e reclamar que ninguém ainda foi doar um carro extrapola qualquer limite que conheço como razoável.

Para piorar, o indicado para a presidência da Comissão dos Direitos Humanos, responsável por zelar pelo direito das minorias no Câmara, é um ferrenho homofóbico. Feliciano já se referiu à Aids como “câncer gay” e faz parte da bancada contrária à extensão de diversos direitos básicos a essa parcela da população.

O conceito de Direitos Humanos pode ser amplo e variar em diversas partes do mundo, conforme aprendi outro dia com o Leonardo Sakamoto, um mestre do jornalismo contemporâneo com quem estou tendo a honra de ter aulas. Mesmo assim, os conceitos do deputado Feliciano me parecem bem distantes do que se convencionou chamar assim aqui por essas bandas.

O objetivo do PSC e da bancada evangélica era ter eleito Feliciano presidente da Comissão ainda ontem. Mas a mobilização de militantes e parlamentares fez com que a reunião fosse adiada para hoje. Resta torcer para que a pressão dos deputados do PSOL e do PT verdadeiramente ligado à causa surta algum efeito. Se isso não acontecer, cabe a nós lutar para que, na próxima eleição, menos Felicianos e mais Jeans Wyllys estejam no Congresso.

O neoliberalismo na feira de ciências

Não quero discutir a questão politico-econômica. Resolvi colocar o vídeo aqui porque achei uma forma muito criativa e interessante de explicar uma posição ideológica.

Neoliberalism As Water Balloon from Tim McCaskell on Vimeo.

(Vi esse no blog do jornalista português Paulo Querido, um dos maiores entendidos em jornalismo em tempos de novas mídias)