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A fórmula secreta da felicidade

31, dezembro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

Nunca fui um grande fã de finais de ano. Essa sensação de que tudo pode mudar de um minuto para o outro simplesmente porque alguém determinou que aquele era um momento de passagem me deixa tenso, por mais que eu saiba que tudo isso é uma grande bobagem. A obrigação de fazer um balanço de tudo o que vivi nos últimos doze meses e preparar planos incríveis para os próximos doze é muita pressão sobre meus ombros. É como se tivéssemos a necessidade de, nessa época, encontrar a fórmula secreta da felicidade. Mas mesmo assim não resisto e sempre resolvo fazer esses balanços, buscar esse caminho. Descubro o que poderia ter sido melhor, em que momentos acertei e em que pontos terei que me esforçar muito para que o próximo ano seja tão incrível quanto sempre sonho.

Eis que, ao fazer o tal balanço deste 2013, me dei conta de que tive um dos anos mais bacanas da minha vida. Não falo com o saudosismo ou o otimismo que costumam marcar essas épocas do ano, mas com o realismo de quem, realmente, não tem muito do que reclamar. Me lembro de, nos últimos dias de 2012, ter pedido que o próximo ano fosse mais tranquilo, sem tantos sobressaltos e motivos para me estressar. O ano que estava acabando não tinha sido nada fácil em diversos aspectos e tudo o que eu queria era inaugurar uma nova fase, em que eu me enxergasse e realizasse.

Foi basicamente isso o que aconteceu. No campo pessoal, troquei algumas reticências por pontos finais. Profissionalmente, sai de um emprego que não me satisfazia mais e me aventurei na vida de freelancer. Nada disso foi fácil. A sensação de frio na barriga foi uma constante. Apesar disso, sobrevivi. Mais do que isso – vivi. Tive aquela sensação que só alguém que já se sentiu livre na vida sabe explicar como é. Pude fazer coisas que me agradavam. Ter a plena impressão de que muitos sonhos poderiam sair do papel – e ver alguns deles ganhando forma. Encontrar amigos que eu não via há muito tempo. Ver filmes que há muito queria assistir. Enfim, pela primeira vez em tantos anos pude por em prática minha filosofia de que a vida e os desejos não precisam ser coisas tão opostas.

Este foi o ano em que me aprofundei no velho sonho de escrever ficção. Foi o ano em que resolvi tirar a poeira daquela antiga ideia de ser ator. Foi o ano em que me entreguei mais profundamente às pequenas coisas da vida. Pode ser – e é muito provável – que tudo isso que dei início em 2013 jamais me renda frutos financeiros. Mas não importa. Esses pequenos atos já me renderam frutos pessoais e sentimentais capazes de pagar qualquer buraco na conta corrente.

E agora, com 2014 batendo à porta, pela primeira vez não tenho medo do que o futuro pode me reservar. Este ano minha única resolução é não ter resoluções. Nada de prometer entrar para a academia ou de não deixar livros pela metade. No lugar disso, seguirei minha vida da forma mais livre possível. Tomando decisões apenas quando elas têm que ser tomadas. Deixando para sofrer apenas no momento em que isto for inevitável. Funcionou em 2013 – apesar de eu ainda ter tido algumas recaídas de ansiedade extrema, admito – e há de funcionar em 2014. E se não der certo, ainda terei 2015, 2016, 2017 e muitos outros anos para encontrar a fórmula secreta.

 

As pequenas frustrações cotidianas – ou a mão que nunca será dada

Outro dia me deparei com uma dessas cenas que só não passam despercebidas por um mero acaso. Estava no ônibus e vi um casal sentado no primeiro par de bancos logo depois da catraca. Deviam ter a minha idade ou até menos. A mão dela aberta sobre a perna dele, como que esperando em vão que ele a pegasse.

Não sei se eram amigos ou namorados, mas aquilo me fez viajar um pouco. Fiquei pensando no quanto ela queria que os dedos dele envolvessem os seus. Será que aquele era um ato e um desejo consciente ou nem ela havia reparado ainda naquilo que eu estava vendo? É difícil saber.

Todo mundo tem alguma expectativa que jamais será alcançada. O tamanho e a intensidade desses sonhos variam muito e às vezes nem podemos nos dar ao luxo de chamá-los de sonhos – de tão simples e inocentes, sequer reparamos nesses desejos e, por isso, não nos sabemos frustrados. Não reparar e não saber, porém, não diminui de maneira alguma o impacto que essas pequenas frustrações cotidianas têm em nossas vidas. Elas são capazes de moldar personalidades, de determinar futuros, de criar medos. E tudo isso no mais absoluto silêncio.

Você certamente tem suas frustrações escondidas. Carrega algo no peito que pesa sem que você saiba. Eu também tenho, mesmo que ainda não conheça exatamente quais são. Pode ser que a frustração da moça que vi no ônibus não seja o amor não correspondido, como eu logo imaginei. Mas ela certamente tem desejos tão simultaneamente próximos e distantes quanto me pareceu a mão de seu companheiro.

Mas qual é o verdadeiro valor dessas frustrações cotidianas e desconhecidas em nossas vidas? O que tem maior peso na formação da personalidade de alguém? A mão que nunca será dada ou o emprego perdido? As palavras que desistiram de existir instantes antes de chegar à garganta ou o fim de um namoro? O desencontro que se deu por apenas alguns segundos ou a saudade de quem já se foi?

É lógico que as grandes decepções e perdas nos levam a tomar grandes decisões. São momentos importantes, que muitas vezes marcam uma ou outra virada em nossas vidas. Mas elas não acontecem em tão grande quantidade para que sejam, por si só, determinantes de nossas personalidades. São os pequenos desencontros – esses sim abundantes – que ajudam a determinar quem realmente somos. Podemos até não reparar – e provavelmente não iremos –, mas são as mãos, os beijos e os abraços nunca dados, as palavras nunca ditas, os encontros nunca concretizados que nos levam a decidir como serão os próximos carinhos, beijo, abraços, palavras e encontros.

Ignorar quais são e o poder dessas pequenas frustrações não é um problema e nem um mal. Muito pelo contrário. É esse desconhecimento que as torna tão poderosas. Como quase tudo na vida, é ao estar livre do peso de sua responsabilidade que nossas frustrações cotidianas se sentem mais livres para agir. Mais do que isso, é por não sabermos do que elas são capazes que nós permitimos que elas ajam. Não saber de sua existência e poder é a melhor forma que temos de não nos boicotar.

O importante, então, é não deixar que essas pequenas frustrações cotidianas se tornem grandes problemas. Fazer com que elas ajam sozinhas, sem necessidade de nossa interferência e, principalmente, sem nos deixar paralisar por elas. Levar essas pequenas frustrações no piloto automático, para que possamos nos dedicar única e exclusivamente às grandes. Pode não ser a fórmula da felicidade – será mesmo que isso existe? Mas que é um bom começo, isso é…

Sobre esteiras ergométricas – ou como deixamos de fazer o que realmente vale a pena

Se você já correu em uma daquelas malditas esteiras ergométricas, conhece bem a sensação de fazer um esforço brutal e não sair do lugar. Talvez você já tenha percebido também que é exatamente essa sensação que muitas vezes toma conta da nossa vida. Não é raro estarmos o tempo todo ocupados, mas nunca fazermos nada de fato. Depois de um dia cansativo e estressante, paramos para pensar no que realmente produzimos e aprendemos e somos incapazes de chegar a uma conclusão.

Já ouvi uma série de explicações para isso. Dizem que a culpa é da internet, do jeito mais imediatista que a minha geração vê as coisas ou da globalização, que tornou tudo mais rápido… Não importa. Seja qual for o motivo, é frustrante você não ter tempo para ver seus amigos, para assistir àquele filme bobinho que estreou semana passada no cinema, para ler o livro que você comprou há tanto tempo e ainda não conseguiu abrir ou dar uma simples volta no quarteirão, para respirar um pouco de ar puro e ver que existe vida além das quatro paredes que cercam seu escritório.

De um tempo para cá, resolvi brigar contra essa sensação. Voltar a escrever aqui é parte importante desse projeto, mas também já é consequência dele. Um dos motivos que tinha me afastado um pouco do teclado era a falta de assunto. Por alguma razão que não sei explicar, deixei de ver os meus amigos com a mesma frequência que via antes e nem mesmo tempo para um bate papo pelo Gtalk estava arrumando. Muito trabalho? Talvez. Mas isso não justifica. Tenho, sim, momentos livres, que vinha desperdiçando por aí.

Por mais que a gente trabalhe, sempre temos tempo de dizer pelo menos um oi para quem gostamos. A tecnologia ajuda – e muito – nisso. O problema é que ao invés de usar o segundinho livre entre uma tarefa e outra para mandar uma mensagem para quem amamos, preferimos postar uma bobagem qualquer no Facebook. Assim, temos a impressão de que estamos nos conectando com muito mais gente ao mesmo tempo. Ledo engano. Fazemos, sim, uma conexão superficial, que, na prática, resulta em um quase nada.

É o mesmo que acontece com nossos projetos pessoais. Ao invés de nos dedicarmos àquilo que realmente queremos fazer – ler ou escrever um livro, assistir ou gravar um filme, planejar ou executar uma viagem – nos perdemos em uma série de outras questões de menor importância. Lemos muita bobagem na internet – e peço desculpas por fazer você perder tempo com esse texto ao invés de se dedicar com o que realmente importa – e fazemos muito pouco acontecer. O tempo que perco entrando nos mesmo sites de sempre, para ver as mesmas coisas de sempre seria muito melhor gasto se empregado no início das pesquisas de um livro que sonho há muito tempo, por exemplo.

É por isso que admiro uma amiga que tomou a decisão de cometer um suicídio virtual. Acredito que ela vá ter uma vida muito menos poluída daqui para frente. Provavelmente vai perder um vídeo ou outro de criança esperta ou de um gatinho fofo. Talvez nem chegue a ler esse post. No final do dia, porém, ela não será menos inteligente do que eu do que você por ter perdido uma meia dúzia de memes que circulariam na timeline do Facebook dela. Acredito que haja até uma grande chance de ela se tornar uma pessoa mais produtiva e de, por isso, se destacar muito mais na vida do que eu ou você. (Sei que tem gente que pensa o contrário e até já escrevi sobre isso, mas talvez o processo seja de longo prazo.)

Tenho planos que não saem do papel há anos. Não tive tempo de fazer com que esses sonhos se tornassem realidade? Não tive vontade de tirar essas ideias do papel? Ou o que faltou na verdade foi coragem? Fico com a última opção. Estamos nos acovardando. Vemos tanta gente fazendo tanta coisa incrível por ai, que ficamos com medo de fracassar. E se a minha empresa não for tão genial quanto a do Zuckerberg? E se meu livro não fizer tanto sucesso quanto os da J.K. Rowling? E se meu documentário não for tão bom quanto os do Eduardo Coutinho? Nos obrigamos ao sucesso, como se essa fosse a única opção. E como resultado não temos fracassos nem sucessos. Não temos nem mesmo boas histórias para contar. Não enxergamos justamente que essas pessoas só se destacaram porque tiveram a coragem de se mexer um pouco.

Optamos, mesmo que inconscientemente, pelo ostracismo e pela mediocridade que tanto nos apavora.  E para disfarçar o real motivo dessa opção por não realizar nossos sonhos, nos fingimos de ocupados – mesmo que boa parte da ocupação seja, na verdade, ver o que o povo anda dizendo nas redes sociais.

Sei que se mudar essa forma de encarar o mundo fosse fácil, eu não teria dedicado a última meia hora a escrever esse texto. Não haveria necessidade. Fazer isso é parte do meu processo de mudança também. Ainda não estou pronto, mas já tomei a decisão de me mexer. Não vou mais correr na esteira ergométrica. Me recuso a ficar cansado e olhar sempre para as mesmas paredes. Vou para a rua, que é onde a paisagem é uma a cada instante. E se, por algum acaso, não chegar a lugar nenhum ou tropeçar em uma dessas pedras portuguesas que têm provocado tanto barulho nos últimos tempos, que seja. Para o bem ou para o mal, nem eu nem o cenário seremos os mesmos.

(P.S.: Pouco depois de escrever esse texto, me deparei com uma história que me fez ter certeza de que ficar parado não adianta.)

Minha desastrosa vida amorosa

Sempre quis me apaixonar loucamente. Viver um amor de cinema. Ter a coragem de correr atrás da garota dos meus sonhos em um aeroporto lotado. Olhar pela janela e ver um dia chuvoso, mas assim mesmo ir correndo só pra ver o meu amor. (Que maravilha! Que coisa linda que é o meu amor!) Olhar nos olhos de alguém e dizer, sem medo de parecer ridículo ou de estar exagerando, um “Eu te amo” sincero. Não sei se um dia vou viver algo assim. O que sei é que, quanto mais penso, mais começo a achar tudo isso uma bobagem – mas uma bobagem com a qual continuo sonhando.

Não é que nunca tenha me apaixonado. Pelo contrário. Cultivo amores em série e esse é um dos maiores motivos para eu não ter coragem de amar ninguém perdidamente. Como posso me dedicar exclusivamente a ela, se deve haver uma próxima ainda melhor, que me provoque sensações ainda mais intensas? E é assim que, quase como uma regra, vou transformando minhas paixões em amizade. Resultado: muitas amigas e nenhuma namorada. Uma vida amorosa para lá de desastrosa.

Pode ser pelo signo ou por algum outro problema qualquer, mas sou daqueles que sofre por amor. No fundo, gosto desse sentimento desesperador de não ter certeza do que a outra pessoa sente. Gosto de emitir sinais – nem sempre muito discretos – e aguardar respostas. Para ser sincero, sinto mais prazer nesse jogo prévio do que em tudo o que vem depois. É uma delícia procurar sinais de correspondência e uma angústia um tanto quanto masoquista ver que eles não estão chegando. Tem até casos em que já desisti da moça, mas continuo tentando descobrir se, em algum momento, ela me quis. Talvez seja uma carência, uma necessidade de me sentir amado. Não importa o motivo. O que importa é que está nessa sedução – palavra horrível e que já perdeu muito de seu significado – uma deliciosa fonte de prazer.

Nunca fui muito adepto da pegação pura e simples. Raramente fico com quem não conheço. Não vejo tanta graça em uma relação que surge do nada e tem um futuro tão promissor quanto o próprio passado. Sinto falta justamente desse jogo lento, que transforma a amizade em amor e que permite que o amor volte a ser amizade pura.

Sou um fã dessa linha tênue entre amor e amizade. Tenho muita dificuldade em identificá-la e acho que já perdi muito por conta disso – quantos amores eram só amizade e quantas amizades podiam ter sido grandes amores? Mesmo assim sou um fã incorrigível. Sem essa divisão tão fina, se apaixonar não faria sentido. Impossível uma relação dar certo sem caminhar cambaleante nessa fronteira. É esse andar de bêbado que mantém tudo vivo. E é quando a gente tomba definitivamente para um lado ou para o outro que as coisas saem do lugar.

Não me considero um grande especialista em matéria de amor. Nem poderia. Meus sentimentos são uma estranha mistura de romantismo e frieza que até eu sou incapaz de compreender. Sem me explicar, não tenho o direito de ser especialista em nada. O que sei sobre o amor – e é muito pouco, perto de tudo o que acho que qualquer um deveria saber para ditar regras por ai – é que ele é uma coisa estranha. Tudo bem que isso é um baita chavão. É natural, já que há tanto tempo o homem tenta encontrar explicações para o coração saindo pela boca e sempre falha.

Quase todas as vezes em que me senti apaixonado por uma garota, juntei coragem sabe-se lá de onde para demonstrar isso claramente. Existe apenas uma única e honrosa exceção, que guardei para mim como um segredo que todo mundo sabe. Nos demais casos, queria fazer uma declaração daquelas de filmes e livros, com direito a palavras bonitas e até músicas compostas especialmente para o momento. Bobagem, já que não consigo dizer nem mesmo um “eu te amo” sem me sentir um idiota. Por mais que muita gente diga o contrário, sou um cara tímido. Mas não é isso que me impede de dizer a bendita frase a torto e a direito. Essas são três palavras que carregam um peso desproporcional demais e que, por isso, se tornam perigosas. O que sempre fiz, então, foi tentar demonstrar o quanto a pessoa era especial para mim. Fazer isso sem palavras – de tanto me apegar à palavra escrita, desaprendi a utilizá-la através da boca. O jeito então é demonstrar por atos. Tarefa difícil, já que normalmente nem eu mesmo sei o tamanho a que essa dedicação deve chegar para ser proporcional ao que sinto.

Comecei a rascunhar este texto quando o acaso me fez cair na página do Facebook de uma das minhas primeiras paixões. Um daqueles amores dos tempos do colégio que, com sorte, se convertem em primeiro beijo. Fiquei alguns minutos olhando para a foto da menina e pensando no quanto ela devia ter mudado de lá para cá. A aparência era exatamente a mesma e fiquei curioso para saber como poderia haver uma mulher por dentro daquela menina. Ou será que ela continuaria exatamente a mesma, tão interessante naquela época e tão descartável para os dias de hoje? Foi daí que me lembrei de sua letra cuidadosa em uma carta que era para ser de amor. Letra de menina que quer ser princesa. Espero que ela e a letra tenham mudado muito nesses últimos quase 15 anos. Tentei encontrar em algum lugar de minha cabeça as bobagens ditas em resposta àquela carta por meio de meus garranchos dedicados.

Não me lembrei ao certo do que escrevi e nem do que disse para ela. Tenho apenas uma vaga memória de como a história se desenrolou – nada digno de nota, nem para um garotinho de onze ou doze anos, garanto. Mas mexer com essas lembranças me puxou muitas outras – desde aquele tempo, em que pensava que quando eu “fosse grande” aprenderia a agir nesses casos até hoje quando absolutamente não sei como agir nesses casos. A reunião desses passados pariu este texto. O engraçado de tudo é que todas as histórias, mesmo aquelas que na época pareciam insuportavelmente dolorosas, me causam exatamente a mesma sensação. Em resumo, é uma vontade de rir das burradas que cometi e saudades das esperanças que tive.

É lógico que até hoje não enfrentei nenhum daqueles amores da literatura ou do cinema. E é lógico que, por mais que ache uma bobagem, não perco a esperança de viver algo assim. Mas quero essa experiência muito mais por teimosia do que por qualquer outra coisa. No fundo sei que não há romance de novela das oito capaz de deixar tantas amizades e risadas quanto a minha desastrosa vida amorosa. E a sua também.

Valeu, mãe!

Queria ter escrito ontem, mas acho muito difícil escrever sobre minha mãe. Tentei por mais de uma vez, mas não consegui. De certa forma, escrever sobre ela é como escrever sobre mim mesmo. Olho para ela e enxergo tantos de meus defeitos e qualidades que fica até difícil apontar cada um deles. É como fazer um autorretrato – algo impossível de ficar bom. Por isso não vou – e nem quero – me ater descrevendo minha mãe. Eu e ela sabemos como ela é – e é isso o que importa.

Existe um velho ditado que diz que, como Deus não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ele resolveu inventar as mães. Alguns dizem que a frase é de George Washington, outros que é um ditado judaico. Não importa. Sei que velhos ditados normalmente são bobagenzinhas de fundo moral que costumam ter a profundidade de uma tábua de bater carne, mas nesse eu ponho fé. Mãe – pelo menos a minha mãe – é um ser especial, sempre pronto para salvar sua vida.

Ser mãe não deve ser tarefa fácil. Carregar uma vida na barriga e, depois disso, continuar se sentindo a responsável por ela por toda a eternidade. Ser mãe é não ter descanso. Nós, filhos, somos treinados para dar problemas o tempo todo e, mesmo quando a gente acha que nossas mães não vão mais nos dar nenhuma chance, lá estão elas, com um ar tão severo que a gente sabe que, no fundo, aquilo só pode ser amor.

O que quero com esse texto não é dizer o quanto amo minha mãe. Tenho dificuldades em demonstrar sentimentos e não vejo razão de me forçar a fazer isso apenas porque inventaram de marcar um dia qualquer no calendário. Meu amor por minha família não se mede em calendários e não seria justo que fosse assim.

Por isso, aproveito esse espaço apenas para dizer obrigado. Preciso agradecer por ela ser minha amiga – a melhor que já tive, que tenho e que, certamente, terei. Por ela ter me feito tão parecido com ela. Por ela saber que eu tenho defeitos e fazer com que eu me esforce para que eles sejam menores do que minhas qualidades. Por ela saber que tem defeitos e lutar para que eles sejam cada dia mais insignificantes. Por ela não passar a mão na minha cabeça quando estou errado e ser dura comigo quando preciso. Por ela fingir que gosta dos meus papos chatos. Por ela ser minha companheira de escritório nessa vida de frila. Por ela não ter medo de me contar quando exagero. Por ela se orgulhar de minhas pequenas vitórias. Por ela me apoiar nas minhas derrotas. Por ela me segurar sempre que achei que ia cair.

Enfim. Demorei um dia inteiro para chegar a esse texto e estou postando com atraso não porque sou um filho relapso – ou não só por isso. Foi difícil porque a lista de agradecimentos é grande e não se encerra nessa. É duro selecionar apenas alguns para escrever, mas aqui estão uns poucos, só para registrar.

Obrigado por tudo, mãe. Sei que sou péssimo para dizer essas coisas, mas eu te amo. E não é pouco!

 

O teólogo e o taxista

19, março, 2013 Gabriel Ferreira 1 comentário

Ontem tive a oportunidade de acompanhar de perto a transmissão do Roda Viva. O entrevistado do dia era o teólogo Leonardo Boff, um dos grandes nomes da Teologia da Libertação, que falou sobre a escolha de Jorge Mario Bergoglio para comandar a Igreja e sobre os rumos que o catolicismo deve tomar a partir disso. Saí do estúdio muito impressionado com Boff. Já conhecia suas ideias, mas vê-lo de perto defendendo uma Igreja muito mais progressista do que a que temos hoje foi ótimo. Impressionante o quanto ele está animado com todo o simbolismo envolvido na eleição do papa Francisco. Boff acredita realmente que a defesa da Igreja pobre para os pobres será levada a cabo pelo novo pontífice e que isso representará grandes mudanças na estrutura da Igreja.

Durante a hora e meia de programa, Boff demonstrou ter muita clareza de pensamento e saber exatamente qual é a Igreja que pretende. Nesse ponto, chegou a criticar o próprio irmão, Clodovis Boff, também teólogo, a quem chamou de contraditório e acusou ter se afastado do que mais importa: o contato com as bases da instituição.

A firmeza teórica de Boff não me espanta. Com uma extensa bibliografia e anos de trabalho dedicados ao estudo da teologia, era de se esperar que Boff tivesse, de fato, uma visão clara sobre o que a Igreja precisa. O que me surpreendeu foi o que aconteceu logo depois do programa. Voltando da TV Cultura para minha casa, não pude deixar de reparar no crucifixo preso no retrovisor do táxi em que estava. Perguntei ao motorista, um senhor de pouco mais de 60 anos, se era católico praticante e o que pensava de Francisco.

Mesmo sem a riqueza teórica de Boff, o taxista me disse as mesmas coisas. Falou da alegria de ver um papa que pensava nos pobres. Que acreditava que tudo ia além do simbolismo. Que tinha certeza de que grandes mudanças viriam pela frente. Assim como os entrevistadores do Roda Viva, perguntei o que ele achava do fato de Bergoglio ter sido contra diversas reformas progressistas na Argentina. De novo, não vi grandes diferenças entre o taxista e o teólogo. Os dois disseram, cada um a seu modo, que o papa ter posições pessoais conservadoras não significa que ele não veja a necessidade da Igreja se modernizar.

Ao sair do carro entendi, finalmente, porque, no último bloco do programa, Boff demonstrou tanta certeza de que o futuro da Igreja deveria estar nas mãos dos leigos. Só quem sente a fé e as necessidades do mundo real ao mesmo tempo pode entender o que precisa a Igreja.

 

O novo Papa é mocinho ou vilão?

Mal terminou de sair a fumaça branca da chaminé da Capela Sistina e as redes sociais já entraram na profunda divisão de costume. De um lado, aqueles que veem a escolha de um sulamericano como uma grande evolução para a Igreja. De outro, os que apontam todos os defeitos mundanos e espirituais do cardeal Jorge Mario Bergoglio. De um lado aqueles que apontam Francisco I como um legitimo pai-dos-pobres, um homem humilde e trabalhador. Do outro, os que o acusam de ser homofóbico e conservador ao extremo. Até mesmo a participação de Bergoglio durante o regime militar argentino é alvo de debate. Há quem diga que ele foi amigo dos ditadores. Outros garantem que ele batalhou pelo fim do governo de exceção.

Não vi de perto o trabalho de Bergoglio em Buenos Aires, então não posso opinar. Sobre sua postura como Francisco I, ainda não temos absolutamente nada a dizer, além de que ele foi muito simpático em sua primeira saudação e que, definitivamente, tem cara de Papa.

O que me incomoda – e não é só nesse conclave, mas em tudo que diz respeito a religião, política e futebol – é esse eterno clima de Fla Flu. Parece que sempre estamos ligados na novela das nove, acompanhando cada movimento da mocinha e do vilão. Talvez seja uma necessidade humana, já que é difícil encarar que somos feitos de nuances. Mas temos que ser adultos e saber que as coisas não podem ser assim. Ultimamente, nem nas novelas as mocinhas são sempre boas e os vilões sempre terríveis. Se até Cristina Kichner, presidente da Argentina que vivia às turras com o cardeal Bergoglio, o saudou pela eleição e desejou sorte, porque nós, que nada temos a ver com a história temos que tomar um partido tão bem definido?

Não há dúvidas de que Francisco I é conservador. Bastante, até. Mas a Igreja é conservadora – e assim deve continuar. Ninguém é obrigado a seguir uma religião – eu mesmo optei por não seguir. Esperar que fosse eleito um papa modernoso, defensor do aborto e do casamento gay é uma bobagem de quem não entende como as coisas funcionam. Se essas são suas ideias, exija isso do seu deputado, não do Papa. A função dele é justamente zelar pelos dogmas da Igreja. Para demonstrar isso, nada melhor do que um twitte que vi circulando por ai. É irônico e engraçado, mas resume bem o que penso.

 

Ao invés disso, o que espero de Francisco I é que ele livre a Igreja daquilo que não deveria pertencer a ela: os casos de pedofilia, as suspeitas de corrupção, o uso da fé como justificativa para o preconceito. O resto é resto e pode ser “resolvido” em seu devido tempo.

A quem interessar possa

As redes sociais nos colocaram numa cilada tremenda. Nos sentimos obrigados a formar opinião sobre tudo e, mais do que isso, a divulgar todas elas. É como se tudo virasse jogo da seleção e, em nossa eterna mania de ser técnico, nos sentíssemos obrigado a compartilhar com os amigos e com o mundo nosso time dos sonhos. Transposição do São Francisco? Sou contra! Barragem de Belo Monte? Pior ainda! Aborto? Já passou da hora de aprovar! Casamento gay? A favor!

Eu, especialmente, sofro em dobro com esse problema. Tenho uma tendência natural a formar opinião sobre tudo e todos. Mais do que isso, sempre achei que os meus achismos eram valiosos demais para ficarem restritos à minha cabeça. Tanto sou assim que uma grande amiga, ao me definir em um perfil tão redondo que me senti olhando no espelho, escreveu que eu era daqueles que, quando não sabe de algo, finge saber.

Sei que sou assim e por isso me sinto com uma arma na mão cada vez que abro o publicador do blog. A quem será que interessa o que penso sobre a renúncia de Bento XVI ou o que acho que passa pela cabeça de minhas amigas de vinte e poucos anos? Certamente a pouco mais gente do que eu mesmo. Por isso, fico assustado cada vez que vejo uma quantidade razoável de leitores nas minhas páginas. Não é muita gente, mas certamente é mais do que aqueles a quem a opinião de um qualquer interessaria.

Fico envaidecido, é lógico, mas sei que não são meus lindos olhos verdes que encantam o público. No fundo, acho que assim como temos uma crescente essa necessidade de formar e vender opinião sobre absolutamente qualquer coisa, é cada vez mais comum gente interessada em absorver todas as opiniões que existirem no mundo – até mesmo a minha! É por isso que a lista de blogs que acompanho também não para de crescer. E isso, definitivamente, não é mau sinal. Uma vez que as redes sociais fizeram com que ter opinião fosse um quesito ainda mais obrigatório para existir, melhor que o que você diz tenha algum fundamento. Nem todas as ideias espalhadas por ai são boas, é lógico, mas melhor absorvemos de tudo um pouco para formarmos nosso próprio ideário – seja ele tolo ou fenomenal – do que sair por ai com discursos que nascem por abiogênese – igualzinhos os ratos do Dr. Jan Baptista van Helmont.

 

Sobre os encontros comigo mesmo

Tenho um sério problema moral. De vez em quando tenho uma vontade louca de ficar em casa no sábado à tarde. Sei que moro em São Paulo, uma das cidades no mundo que mais nos dá opção do que fazer a qualquer hora – principalmente num sábado à tarde -, mas não consigo resistir a esse desejo doido de deixar tudo isso de lado para ler um bom livro, folhear uma revista mais ou menos ou ver um filme ruim na TV.

Por um lado queria ter a vontade de aproveitar o bando de coisa que dá para se fazer num fim de semana. Cinema, exposições, música boa e de graça, restaurantes bacaninhas… Opção não falta e, em condições normais de temperatura e pressão, ia correr para aproveitar tudo isso.

Porém tem horas – e eu sei que você sabe bem sobre o que eu estou falando - que nada disso satisfaz. O que você precisa, na verdade, é um pouco de si mesmo. É fazer esse raro encontro que postergamos no dia a dia, de tão incômodo que ele é. E a hora marcada desse encontro costuma chegar no sábado, aquele momento único em que você está desprevenido e não acha uma desculpa boa o suficiente para remarcar a reunião para depois.

Não que eu esteja reclamando de ter esses encontros comigo mesmo. Acho meu eu interior um puta cara chato, mas apesar disso acredito que nossas reuniões são proveitosas e gostaria de poder fazer isso mais vezes. Mas vou tentar combinar com o meu subconsciente – ou seja lá o que ele for – para, da próxima vez, ele me visitar em algum horário um pouquinho mais inútil – no domingo na hora do Fantástico, por exemplo. Quando isso acontecer, juro que não vou reclamar – ou até vou, mas sem razão.

O homem que leu o próprio obituário

28, fevereiro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

Daqui a pouco, quando entrar em um helicóptero rumo à residência de Castel Gandolfo, Bento XVI, o primeiro Papa Emérito da história contemporânea, dará o último passo – e o primeiro sem seu marcante sapatinho vermelho – em um dos planos mais audaciosos já registrados na história dos chefes de Estado. Não falo do ato de abandonar o cargo mais importante da Igreja – e não quero nem discutir aqui se este é um ato de coragem ou de covardia. O que
mais me chama a atenção na renúncia de Bento XVI é a esperteza do Papa, que, sem ter que fingir sua própria morte, conseguiu ler seus obituários.

Todo homem público tem a curiosidade de saber como passará para a história. Ao largar o papado anos antes da própria subida ao reino dos céus (ou não), Bento XVI teve a oportunidade de descobrir isso. As reportagens publicadas logo após o discurso feito no início deste mês no Vaticano nada mais foram a antecipação dos textos fúnebres que já estavam preparados para serem publicados assim que Ratzinger batesse os sapatinhos vermelhos. Foi assim que ele soube o peso que cada um de seus atos teve para a imagem que construiu para a história. Viu o quanto ser um Papa conservador pareceu melhor aos olhos do mundo depois de sua passagem para “outro plano” do que durante suas polêmicas declarações contra o aborto ou o casamento gay. Pôde ver também os prejuízos causados a ele mesmo pelo fato de ter acobertado os casos de pedofilia que proliferaram (e proliferam) na estrutura da Igreja.

Só me resta esperar que Bento XVI comprove sua fama de homem inteligente e utilize o tempo que lhe resta por aqui para criar uma versão melhorada dos obituários atuais. Que sua curiosidade de ler o que estava escrito seja apenas para tratá-los como um rascunho, que logo será corrigido. Se conseguisse aproveitar a tranquilidade da vida de Papa Emérito para lutar contra algumas chagas de sua Igreja (e a lista é grande, começando com a indefensável pedofilia e passando pela corrupção, que parece agradar tanto alguns cardeais), os próximos textos fúnebres sobre o Papa alemão certamente seriam mais dignos de quem ostenta o título de Sua Santidade. Sei que parece um sonho distante, mas, em se tratando do homem que renunciou ao papado e leu os próprios obituários, pode-se esperar de tudo.